Entrevista – Paulo Markun


03/10/2006


Jornalista de múltiplas experiências  


Rodrigo Caixeta

11/10/2006

Com mais de 30 anos dedicados ao jornalismo, Paulo Markun acumula passagens pelos mais importantes veículos de comunicação do País, como os jornais O Estado de S. Paulo, O Globo e Folha de São Paulo e as emissoras de TV Globo, Bandeirantes, Record e Manchete. Escolheu a faculdade de Comunicação motivado pelo movimento estudantil e não abandonou mais a profissão. Desde 1998, apresenta o “Roda viva”, exibido há 20 anos pela TV Cultura e considerado um dos melhores programas de entrevistas da televisão brasileira.

Em sua trajetória, Markun ainda encontrou tempo para escrever mais de dez livros e dirigir vídeos e documentários. Passou pelos cargos de repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e diretor de Redação e criou algumas publicações. Nesta entrevista, ele fala sobre o teste vocacional que o indicou para a Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA) e a relação que tinha com Vladimir Herzog, analisa a cobertura jornalística da política brasileira e apóia a decisão do Governo em vetar o projeto de lei complementar que amplia as funções do jornalista. 

ABI OnlineAos 19 anos, o senhor estreou como jornalista do Diário Comércio e Indústria, antes mesmo de se formar em Jornalismo. Quando percebeu que tinha vocação para a profissão?
Paulo Markun — Não sei se em algum momento senti a tal vocação. Com 15 anos, fiz um teste vocacional e me indicaram a Escola de Comunicações da USP, que acabara de ser criada e era mais elástica. Como alternativa, apontaram Letras e História. Mas como cresci na casa do arquiteto Villanova Artigas, que aglutinava uma rapaziada em busca de conhecimento e militância, entrei para o cursinho de Arquitetura. Seis meses depois, desisti — era e sou péssimo em qualquer coisa que dependa de desenho. Acabei prestando vestibular para a ECA e escolhi Jornalismo. Isso em 1970, 71, quando o que me motivava era o movimento estudantil, quase desaparecido depois do boom de 1968. No primeiro ano de faculdade, consegui esse emprego de um mês no DCI e não larguei mais a profissão. Mas só depois de 1975 é que me dediquei integralmente — ou quase — ao ofício.

ABI OnlineAo longo desses anos, o senhor foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem, diretor de Redação em emissoras de televisão, jornais e revistas e também apresentador. Qual dessas funções mais gosta de exercer? Por quê?
Markun — Gosto muito de editar revista e de dirigir documentários. São atividades que têm semelhanças, na medida em que você mexe com texto e imagem e precisa editar realmente, manter o interesse do leitor/espectador e dar seu recado. Nos últimos anos, escrevi alguns livros e viveria disso, se fosse possível no Brasil de hoje.

ABI OnlineO “Roda viva” é considerado um dos melhores programas de entrevistas da TV brasileira. A que se deve a fórmula do sucesso do programa, que está prestes a completar 20 anos no ar?
Markun — O “Roda viva” é uma entrevista coletiva em que ninguém tem o controle do que se passa. Essa incerteza — bem como a certeza de que a escolha de entrevistado e entrevistadores só obedece ao critério do interesse público — é que faz seu sucesso. O que dificilmente seria reproduzido numa TV comercial, por vários motivos.

ABI Online/EM> — Este ano o senhor lançou a série “O melhor do Roda viva”, com os temas Cultura, Poder e Internacional. Como surgiu a idéia de registrar em livro as principais entrevistas do programa?
Markun — De tanto assistir a entrevistas antigas — quase todas correndo o risco de desaparecer em razão da precariedade de sua conservação — achei que valia a pena transferir parte delas para o formato livro, que é o mais duradouro já inventado. Foi o começo de um projeto que consumiu dois anos, até ser lançado, e só se viabilizou graças ao apoio da Direção da Fundação Padre Anchieta e dos patrocinadores: Volkswagen, Tractebel e Atento.

ABI OnlineQue entrevista o senhor julgaria a melhor ao longo da existência do programa?
Markun — Não sei apontar uma só. Seria injusto com muita gente. Nem mesmo as 60 relacionadas nos três volumes do “Melhor do Roda viva” resolvem essa questão. Isso porque há entrevistas memoráveis no quesito relevância política, outras quanto à densidade das idéias, mais um bocado em razão da alta voltagem emocional. Não estou fugindo da resposta, mas uma só é muito pouco mesmo.

ABI OnlineO senhor tem vasta experiência como autor e a maioria dos seus livros é de caráter biográfico, como os que retratam Dom Paulo Evaristo Arns, Anita Garibaldi e Vladimir Herzog. Ao reunir em “O sapo e o príncipe” a trajetória de dois importantes personagens da História política brasileira, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso, qual foi o seu maior trabalho?
Markun — Foi resumir os fatos do período em 300 e poucas páginas. A primeira versão passou de mil páginas, mas quem lê tudo isso? Ao mesmo tempo, fiz um esforço para produzir um relato equilibrado, deixando de lado minhas preferências e opiniões.

ABI OnlineEm “Meu querido Vlado”, lançado ano passado em memória dos 30 anos do assassinato do jornalista, o senhor faz um relato pessoal daquele momento da História brasileira, que representou um marco na conscientização da sociedade em relação à tortura e aos maus-tratos a presos políticos. Como era a sua convivência com Vladimir Herzog?
Markun — Conheci Vlado em março de 1975 e ele morreu oito meses mais tarde. Nesse curto período, e particularmente no mês e pouco que trabalhamos na TV Cultura, tivemos um intenso convívio, profissional, político e pessoal. Ele era um sujeito crítico e bem-humorado, perfeccionista e satírico, militante e anti-sectário. Como qualquer pessoa, estava longe de ser um santo, mas acreditava que o jornalismo era um tipo de missão. Faz falta hoje em dia.

ABI OnlineQual foi o maior tipo de violência que o senhor sofreu durante a ditadura?
Markun — Nem foi a tortura, mas a tentativa de desmoralizar a mim e outros companheiros presos dias antes do Vlado — tentativa que contou com o respaldo entusiasmado da Folha da Tarde. Claro que a tortura é inesquecível. Mas igualmente inesquecível — embora fisicamente indolor — foi o que o governo Geisel fez com os militantes presos naquele outubro de 1975, com a ativa participação do jornal.

ABI OnlineDe que forma o jornal atuou nesse episódio?
Markun — O General Geisel mandou instaurar um inquérito policial militar para apurar as circunstâncias do suicídio de Vladimir Herzog. A ordem, que o Comandante do II Exército tentou deixar de cumprir, foi publicada no dia 30 de outubro e o General-de-brigada Fernando de Cerqueira Lima foi encarregado do IPM. Diante dele e do promotor militar Durval A. Moura de Araújo, companheiros e parentes de Vlado tentaram afirmar que ele fora torturado, que haviam presenciado parte de seu interrogatório e que a violência era a regra no DOI-Codi. Nada ficou registrado. Ao contrário, o documento foi forjado para mostrar que o que havia ocorrido fora o suicídio de um comunista atormentado pela delação de seus companheiros.

No meu depoimento, ficou registrado que eu não tinha “conhecimento de qualquer induzimento, instigação ou auxílio material por parte das autoridades do DOI-Codi” em relação ao suicídio e que não tinha também conhecimento de que Vlado teria recebido maus-tratos ou tratamento desumano ali. Todas as minhas afirmações sobre a tortura a que fora submetido, com minha mulher e outras dezenas, talvez uma centena de companheiros, foram desprezadas. No dia 20 de dezembro de 1975, a Folha da Tarde ofereceu oito páginas para publicar a íntegra da acusação, em que éramos apontados como delatores do Vlado. A manchete do jornal não podia ser mais eloqüente: “Desbaratada a gangue do nazismo vermelho”. Essa mancha só começou a ser eliminada no início de 1976, quando o Estadão publicou um depoimento extrajudicial de Rodolfo Konder, que recolocou os fatos em seus lugares, antes de partir para o Canadá. 

ABI OnlineO senhor também enveredou na linha dos documentários e lançou, este ano, títulos como “De amores e guerras”, em que conta a história de Anita e Giuseppe Garibaldi, e “Timor Lorosae, o nascimento de uma nação”, em que relata o esforço das Nações Unidas e dos timorenses para reconstruir o país, após a sua independência da Indonésia. O que o levou a investir nesse segmento?
Markun — O documentário é a reportagem na sua mais perfeita tradução para a telinha — nunca tive a oportunidade de produzir um para a telona, mas quem sabe um dia? Pretendo retomar esse tipo de trabalho sempre que consiga os recursos para isso.

ABI OnlineO que o inspirou a criar publicações como o Pasquim São Paulo, as revistas Imprensa e Radar e o Jornal do Norte, de Manaus?
Markun — Cada caso foi um caso. O Pasquim surgiu quando o Jaguar me procurou na TV Record e propôs uma espécie de franquia paulista, que virou realidade com a participação de Manoel Canabarro, principalmente. Dante Mattiussi também atuou nos primeiros números. Juntamos um time de colaboradores competente e diversificado e o projeto acabou naufragando como tantos outros nanicos. A Imprensa nasceu depois da morte do Pasquim São Paulo, com Canabarro, Dante e Sinval de Itacarambi Leão, que continua à frente da revista. Muita gente achava que não duraria dois meses e ela continua aí. Radar foi uma tentativa de criar uma revista sobre a mídia, já abrangendo TV, Internet, novos veículos. Teve seus momentos e deixou um rombo gigantesco, que demorei a pagar. O Jornal do Norte, feito por encomenda de um poderoso local, permitiu criar uma publicação da estaca zero, sem grandes problemas de recursos. Mas durei só quatro meses no comando do projeto, depois do número um. Quem buscar a coleção logo vai perceber por quê. 

ABI OnlineNeste momento, o senhor se dedica a outros projetos editoriais? Qual (ou quais)?
Markun — Ando matutando dois produtos para a internet, que devem estar no ar ainda este ano. E, como você sabe, o segredo é a alma do negócio. Não é segredo porém, que ganhei um concurso internacional da Ibermedia, para transformar em roteiro cinematográfico de um longa de ficção a história do conquistador Alvar Nuñez Cabeza de Vaca. E que história!

ABI OnlineComo o senhor analisa a cobertura jornalística atual da política brasileira?
Markun — A TV sofre por causa da legislação que pretende garantir democracia e equilíbrio, mas amarra o noticiário e a cobertura. Foi assim no primeiro turno. Espero que agora, com a polarização e exigências menores, o debate se amplie. Mas temo que fique numa espécie de cabo-de-guerra entre tucanos falando de ética e petistas, do governo FHC.

ABI Online — Qual a sua opinião sobre a corrida presidencial deste ano? A partir de sua experiência na coordenação de campanhas políticas, como avalia a postura dos candidatos?
Markun — O jogo começou polarizado entre o Presidente, que precisa mostrar o que fez — e vai fazê-lo comparando resultados com a chamada era FHC, que continua mal avaliada — e Alckmin, que tentou virar Geraldo. O debate ético só tornou-se a peça chave depois da publicação da foto da dinheirama usada para a compra do dossiê contra Serra. Agora vem o segundo round. Com resultado imprevisível.

ABI OnlineO senhor disse em uma entrevista que “jornalismo isento é utopia, deve ser meta a se alcançar, mas não existe”. Por quê?
Markun — Ué, porque não vou enganar ninguém. Isenção pode funcionar em física, química, matemática. No nosso mundo, dois e dois podem ser quatro, três ou zero. Mas quem parte para o trabalho usando suas definições e preferências como uma espécie de lanterna não irá muito longe.

ABI OnlineQual sua opinião a respeito do Projeto de Lei Complementar n° 79/2004, de autoria do Deputado Pastor Amarildo (PSC-TO), que amplia as funções do jornalista e foi vetado integralmente pelo Governo após gerar tanta polêmica?
Markun — Fez muito bem o Presidente em vetar tal projeto. É só uma demonstração de corporativismo, em minha opinião. Mas melhor teria sido se o projeto tivesse sido debatido e abatido — ou confirmado — no Parlamento, onde passou sabe-se lá como.

ABI OnlineE qual é a sua posição em relação à obrigatoriedade do diploma para jornalista?
Markun — Fui a favor dessa obrigatoriedade e hoje sou contra. Acho que qualquer jornalista formado por uma boa faculdade será igual ou melhor do que aqueles sem formação específica. Mas não creio que essa exigência seja condição necessária ou suficiente para assegurar uma imprensa de qualidade, responsável, ética, competente.

ABI OnlineQuais os caminhos da imprensa na geração da internet? Qual é o perfil do repórter do futuro?
Markun — Não tenho a menor idéia dos caminhos da imprensa. Como a maior parte da minha geração, tenho acompanhado o que se passa e me preparo agora para dar um pitaco mais abusado. O repórter do futuro não deixará de ser repórter, ainda que use outros meios e que enfrente a concorrência de milhões de blogs.

ABI OnlineO que acha que há de melhor e pior na mídia?
Markun — Como seria o escândalo do mensalão ou dos sangessugas sem a mídia? Como seria a mídia sem um escândalo atrás do outro? Parece um jogo de palavras, mas indica que o melhor e o pior coexistem o tempo todo. O Congresso é mais importante que a Presidência da República e tem uma cobertura muito ruim, até hoje.

ABI OnlineQual é sua a relação com a ABI atualmente?
Markun — Espero que a entidade coloque um pé efetivo em São Paulo, onde exerço a profissão. Tem condições de fazê-lo, sob o comando de Audálio Dantas, que acaba de assumir o escritório paulista da ABI. Acho que a entidade tem muito a fazer no Brasil de hoje. 
 

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