Terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Entrevista - Audálio Dantas
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Na trincheira da liberdade

José Reinaldo Marques
9/06/2005

Nascido no interior de Alagoas, em 8 de julho de 1929, Audálio Dantas é conterrâneo de Graciliano Ramos. Além da admiração intelectual que tem pelo escritor, o jornalista costuma dizer que pertence ao mesmo pedaço de chão em que nasceu o autor de “Vidas secas”, com quem divide o mesmo tronco familiar materno, dos Ferreira Ferro.

Em 54, iniciou a carreira como repórter da Folha da Manhã — hoje Folha de S. Paulo —, passando em seguida pelas redações das revistas O Cruzeiro, onde foi redator e chefe de reportagem; Quatro Rodas, nas funções de editor de turismo e redator-chefe; Realidade, como redator e editor; Manchete, como chefe de redação; e Nova, como editor.

Entre os trabalhos mais importantes que realizou como jornalista e escritor, está "Quarto de despejo", da favelada Carolina Maria de Jesus — Audálio compilou do diário que ela escreveu e em 1960 o lançou como livro, que já foi traduzido em 13 idiomas. No sindicalismo e na política, também teve atuação destacada. Aliás, já fez tanta coisa que, ao ser convidado para dar esta entrevista, brincou: “Não sei onde vocês vão encontrar espaço para tanta conversa.”

ABI Online
O senhor foi recém-aprovado pelo Conselho Deliberativo, por unanimidade, como Vice-presidente da ABI. De que maneira encara esta responsabilidade?
Audálio Dantas — Assumo com grande satisfação, pela importância da ABI como entidade das mais representativas da sociedade civil e, historicamente, uma trincheira da liberdade de informação, fundamental para a defesa das demais liberdades públicas.

ABI OnlineO que o levou a aceitar esse convite?
Audálio — A ABI passa por uma importante renovação. O processo eleitoral, com a vitória de Maurício Azêdo e outros companheiros identificados com essas lutas, abriu perspectivas de avanços, para o que é fundamental a reorganização da entidade que já está em curso.

ABI Online — Como foi sua primeira aproximação com a ABI?
Audálio — Ocorreu em 29 de outubro de 1975, num momento crucial: o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, do qual eu era presidente, denunciou o assassinato do jornalista Vladimir Herzog. O então Presidente da ABI, Prudente de Moraes, neto, visitou o Sindicato e manifestou o apoio e a solidariedade da entidade aos colegas de São Paulo. Mas só agora ocupo um cargo na ABI.

ABI OnlineQual é a sua relação com o Presidente Maurício Azêdo e os outros membros da Diretoria?
Audálio — Conheço de perto o trabalho de Maurício Azêdo e a sua capacidade profissional. Acompanho de longa data a sua participação nas lutas democráticas, especialmente no que se refere à resistência ao arbítrio do regime militar. Sua presença na ABI, assim como a de outros companheiros, como o Domingos Meirelles, é a garantia de uma administração séria e profícua na entidade.

ABI OnlineO que a classe jornalística pode esperar do senhor como membro da atual Diretoria da ABI?
Audálio — Dedicarei à ABI o melhor dos meus esforços. A questão da liberdade de expressão exige vigilância permanente. Não se pode ignorar que, apesar de termos superado o autoritarismo dos golpistas de 64, temos hoje uma nova forma de censura no País, exercida por membros do Poder Judiciário, em flagrante desrespeito à Constituição.

ABI Online O senhor reside em São Paulo. Qual o impacto que sua eleição poderá ter no processo de expansão da ABI no Estado?
Audálio — A ABI sofreu graves prejuízos em São Paulo, em função de desmandos em sua representação no Estado. A maioria dos jornalistas se afastou. Por isso, antes de expandir, temos de trabalhar para trazer de volta esses associados.

ABI OnlineSeria importante a ABI abrir uma sede na capital paulista?
Audálio — Muito, para dar condições à necessária reorganização no Estado. Mas isso depende, naturalmente, de decisão da Diretoria e, principalmente, da existência de recursos financeiros. Na medida do possível, seria bom a ABI ter representação em todos os Estados. 

ABI OnlineAlgumas vezes o senhor trocou o jornalismo pela política.
Audálio — Sim, mas mesmo quando exerci atividades políticas, não deixei de dar a minha contribuição à profissão, lutando pela liberdade de informação e pelo estabelecimento de políticas democráticas de comunicação.

ABI OnlineQuais foram seus trabalhos mais importantes como jornalista?
Audálio — Sempre me dediquei às reportagens. Algumas tiveram grande repercussão e estão reunidas num livro “O circo do desespero”, publicado em 1976. Em tanto tempo, é difícil apontar esse ou aquele trabalho, mas acho que a cobertura do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, no DOI-Codi de São Paulo, em 75, foi a mais importante reportagem que fiz.

ABI OnlinePor que a Comissão de Liberdade de Imprensa, criada em São Paulo em 1967, teve uma atuação independente do sindicato?
Audálio — A constituição da comissão foi, em si, uma vitória, pois a direção sindical da época considerava a luta pela liberdade de imprensa uma questão política, na qual não devia se envolver. Quando o regime militar propôs a Lei de Imprensa, conseguimos número suficiente de assinaturas de jornalistas para convocação uma assembléia, em que se elegeu a comissão. Em seguida, partimos para uma campanha que culminou com um ato público, no Teatro Paramount, com a presença de 2 mil pessoas.

ABI OnlineComo o senhor mobilizou o Sindicato dos Jornalistas para enfrentar a morte de Vladimir Herzog?
Audálio — A linha de atuação da Diretoria que eu presidia foi fundamental para que o sindicato fosse preservado como espaço para a luta contra a repressão ao mesmo tempo em que fazíamos a denúncia do episódio que foi o ponto de partida para as lutas que se seguiriam até a reconquista das liberdades públicas.

ABI OnlineA postura da entidade provocou alguma mudança no processo político da época e no próprio meio sindical?
Audálio — De imediato, detivemos o ímpeto dos militares da ultradireita, que se opunham ao projeto de abertura política. Mesmo assim, houve o assassinato do operário Manoel Fiel Filho, encontrado morto nas mesmas circunstâncias e na mesma cela em que morreu Herzog.

ABI OnlineEntão, qual foi a mudança?
Audálio — Primeiramente, a destituição do Comandante do II Exército, General Ednardo D’Ávila Melo. Depois, o Fiel Filho foi o último preso político assassinado nos porões da ditadura e o episódio contribuiu para a organização de movimentos de oposição nos sindicatos de jornalistas em todo o País. Não tenho dúvidas de que isso também levou ao ressurgimento do movimento operário no ABC.

ABI OnlineO senhor se lembra de ter sido eleito, entre 1981 e 1982, um dos mais influentes líderes sindicais do País, ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva?
Audálio — Sim, apareci por três anos nessa lista, que resultava de pesquisas feitas pela Gazeta Mercantil em setores diversos, entre os quais o sindical.

ABI OnlineO senhor manteve ou mantém relação pessoal com o Presidente Lula?
Audálio — Mantive contato com o Lula na época das greves de 1979 e 1980, quando, como Deputado Federal, acompanhei de perto os momentos mais agudos da repressão policial. Também estava lá a grande figura de Teotônio Vilela. Depois, participei, em São Bernardo, das primeiras reuniões para a discussão sobre a criação de um novo partido, que veio a ser o PT. 

ABI OnlinePor que o jornalista resolveu virar parlamentar?
Audálio — Foi uma conseqüência de minha atuação no sindicato e uma imposição da categoria, que me garantiu a eleição independentemente de recursos financeiros.

ABI Online — Foi uma boa experiência?
Audálio — O mandato de deputado me permitiu continuar, em situação privilegiada, a resistência à ditadura. Os quatro anos foram quase integralmente dedicados à luta contra a censura e a repressão política. Fui vice-líder do PMDB e trabalhei intensamente pela anistia.

ABI OnlineA função do jornalista é compatível com a carreira política?
Audálio — Enquanto se está no exercício de cargo político, há incompatibilidade. No mínimo, uma ou outra atividade será prejudicada se exercida ao mesmo tempo.

ABI OnlineQuanto a suas atividades culturais, são muitas?
Audálio — Além de pertencer ao Conselho da União Brasileira de Escritores, desenvolvo vários projetos culturais. É a minha principal atividade profissional, ao lado da comunicação. Tenho realizado várias exposições temáticas, entre elas "O chão de Graciliano" e "Macunaíma". Em abril deste ano, lancei um livro infanto-juvenil, “A infância de Graciliano Ramos”, e já estou trabalhando em outro, “A infância de Maurício de Sousa”, sobre o criador da Turma da Mônica. Depois, vou escrever sobre o caso Herzog e a minha visão daqueles dias de terror, 30 anos depois.

ABI OnlineO senhor ganhou o Prêmio Kenneth David Kaunda de Humanismo, da ONU, em 1981.
Audálio — Na medida do possível, dou a minha contribuição à luta em defesa dos direitos humanos, desrespeitados de várias maneiras no Brasil, em função das desigualdades que impedem o acesso de grande parte do povo a um mínimo de condições que lhe permita uma vida digna.



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