ABI celebra Moacir Werneck de Castro


01/12/2010


O jornalista Moacir Werneck de Castro recebeu homenagem póstuma na tarde desta terça-feira, dia 30, na Sala Heitor Beltrão, no sétimo andar do edifício-sede da ABI. Dezenas de pessoas participaram da cerimônia organizada pelo Conselho Deliberativo da ABI, entidade da qual Moacir era membro desde 1945.
 
A viúva, a jornalista e tradutora uruguaia Gloria Rodríguez, a Nenê, as netas Beatriz Lampreia e Adriana Vierci, e os sobrinhos Antônio Joaquim Werneck de Castro e Ione Werneck estiveram presentes à cerimônia, que contou com a participação de membros da Diretoria e do Conselho da ABI, entre os quais Rodolfo Konder, Pinheiro Júnior, Orpheu Santos Salles, Leda Acquarone, Ilma Marins, José Pereira da Silva, Mario Jakobskind, Silvio Paixão.
 
Representando a Academia Brasileira de Letras(ABL), compareceram o acadêmico e jornalista Cícero Sandroni, a escritora Nélida Piñon e o Embaixador Afonso Arinos de Melo Franco.
 
Amigos e admiradores de Moacir também prestigiaram o ato, entre os quais, Eric Nepomuceno, o cartunista Jaguar, Maurício Dias, Sônia Meinberg, Ricardo Cravo Albin, Beatriz Bissio, Rosa Freire D’Aguiar, Marcus Fernando Gasparian, Ovidio de Melo, Ligia Doutel de Andrade, Rafael de Almeida Magalhães.
 
Formaram a mesa de honra Maurício Azêdo, Presidente da ABI, Pery Cotta, Presidente do Conselho Deliberativo, Sérgio Caldieri e Arcírio Gouvêa Neto, Primeiro e Segundo Secretários do Conselho, o acadêmico e jornalista Cícero Sandroni e o Embaixador e imortal Afonso Arinos de Melo Franco.
 
Cícero Sandroni iniciou a cerimônia sublinhando a trajetória de Moacir Werneck de Castro nas letras:
— Dizer saudoso e querido amigo é um tanto clichê, mas não há como não dizer pela comoção que nós temos neste momento pela saudade e pela perda desse grande brasileiro que foi Moacir Werneck de Castro. Gostaria de lembrar que em seu livro “Ponte dos Suspiros” ele fazia uma ligação entre a Ponte dos Suspiros em Veneza com uma forma de ponte que o Presidente Tancredo Neves representaria quando eleito pelo Colégio Eleitoral. Moacir Werneck escreveu muitos livros, um deles sobre Fritz Müller, primeiro grande ecologista do Brasil. Escreveu “O sábio da floresta”, sobre a situação do Vale do Itajaí, antevendo as enchentes que vitimaram dezenas, centenas de pessoas em Santa Catarina. Mas em “Ponte dos Suspiros” ele traz uma informação que para ele seria ingênuo pensar que com Tancredo a aliança democrática escaparia de ruptura sob pressão dos interesses do conflito e das pressões regionais. Ou que o PMDB, palavras do nosso querido Moacir, fugisse ao seu destino de se fragmentar entre as disputas na hora das partilhas dos grandes atos do Governo federal. Escreveu isso há mais de 20 anos e é de uma atualidade impressionante e deveria ser reeditado.
 
O papel de Moacir Werneck de Castro na história da imprensa brasileira também foi destacado por Sandroni:
—O jornalismo, e estou falando na Casa dos Jornalistas, às vezes peca na apressada ligação ao fato do dia. E, paradoxalmente, essa sem dúvida é sua melhor qualidade. Mas o tratamento diário do fato os jornalistas de qualidade transformam em matéria. É nessa categoria de jornalistas na qual se enquadra e sempre atuou Moacir Werneck de Castro desde o inicio de sua carreira. E, ao fazer o jornalismo de análises, combina com a formação erudita, sem comprometer o prazer da leitura, Moacir fazia também ciência política, não aquela insípida de alguns poucos textos acadêmicos e pesquisas universitárias. A ciência de Moacir não renunciava à denúncia da injustiça social com sua palavra contundente contra o obscurantismo e a luta totalitária. Com seu estilo cativante, Moacir administrava ciência em verdadeiras aulas em que não dispensava pesquisas sempre renovadas em busca de novas fontes e novas informações para o leitor. Aos 95 anos, nós perdemos Moacir Werneck de Castro numa vida dedicada a pensar e interpretar o Brasil. E é essa a grande lição que ele deixa para todos os que exercem o ofício da qual esta Casa é síntese e símbolo. A profissão que exige arte, técnica, ética e uma apurada noção de realidade. Assim ele nos deixa, querida Nenê, ele nos deixa, além da saudade, uma herança moral que a morte não derrota; e a nós e aos que vierem depois, o testemunho de um jornalista exemplar. 
 
Na seqüência, o Embaixador Afonso Arinos de Melo Franco fez a leitura de um texto assinado pelo jornalista e pesquisador Ricardo Cravo Albin em homenagem a Moacir Werneck de Castro:
—Ele reunia uma canônica convergência das chamadas virtudes de essência, quase o homem quase perfeito: o caráter, a honradez e o trato pessoal. Caráter ele o tinha inatacável, e acima de todas as banalidades escorregadias da vida. Honradez ele exercia como referência pétrea e com a volúpia dos que não se curvam jamais. No trato pessoal destilava com modéstia, simpatia e luz, muita luz, que irradiava por todas as andanças de sua longa e bela trajetória. Espelho perfeito da sua alma sem jaça.
 
Dando continuidade à cerimônia, o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, discursou sobre o importante legado de Moacir Werneck de Castro:
—Querida amiga Nenê Rodríguez, minhas senhoras e meus senhores, eu teria pouco a acrescentar às palavras de Cícero Sandroni, exceto no que concerne à divida de carinho e admiração que nós, antigos companheiros de Moacir Werneck de Castro na Última Hora e em outros veículos de comunicação, temos com esse extraordinário jornalista que ele foi. Entre esses companheiros, Dácio Malta, Sílvio Paixão, Benício Medeiros, aqui presentes, que tiveram a honra de ser dirigidos por Moacir Werneck.
 
O início da carreira de Moacir Werneck de Castro na imprensa como foca do Jornal do Povo foi detalhado por Maurício Azêdo:
—O jornal foi fundado pelo Barão de Itararé, naqueles confrontos que se travavam nos anos 30 entre direita e esquerda e entre os que sonhavam com a democracia e os que propugnavam pelo nazismo ascendente na Alemanha de Hitler. Moacir foi cobrir uma assembléia do Sindicato dos Padeiros. A reunião foi dada como subversiva pelas chamadas autoridades constituídas. Prenderam os diretores do sindicato e membros da assembléia, e os repórteres, entre os quais o Moacir, que tinham a audácia de tentar projetar as conclusões de uma reunião de seres subversivos, como aqueles que participavam daquela assembléia. Foi então que Moacir Werneck teve o primeiro contato com a adversidade política, porque foi preso, e também com a Associação Brasileira de Imprensa, porque seu irmão, Luís Werneck da Silva, que era um jornalista já de grande conceito no meio profissional, entrou em contato com o então Presidente da ABI, Herbert Moses, que tomou as providências que resultaram na libertação do Moacir. Moses, além de conseguir a liberação do jovem repórter Moacir Werneck, dirigiu uma carta ao Luís Werneck, comprometendo-se a adotar todas as outras iniciativas que fossem necessárias para a segurança e proteção e da integridade física do jovem Moacir Werneck de Castro. Este foi o ponto de partida da trajetória de Moacir no meio profissional./DIV>

 
Maurício Azêdo exaltou o homenageado como um dos últimos sobreviventes de uma geração de jornalistas em atividade:  
—Hélio Fernandes e Villas-Bôas Correa são exceção nesse deserto em que se transformou o meio jornalístico, no que concerne à capacidade intelectual e ao brilho como os companheiros de Moacir Werneck, que integrou uma geração que para nós, que chegamos depois, é objeto de admiração até hoje. A geração que inclui Samuel Wainer, Octávio Malta, pai do nosso querido Dácio Malta, o próprio Carlos Lacerda, com todos os desvios, que acabou cometendo em relação a esse grupo, Joel Silveira, Edmar Morel e uma série de outros companheiros que deram ao jornalismo que se fazia no País uma densidade que hoje desapareceu. Nós tivemos a oportunidade de acompanhar o Moacir Werneck na Ultima Hora, nos últimos meses da gestão de Samuel Wainer, posteriormente ao período de privações que sucedeu ao golpe militar de 1º de abril de 1964, em que Samuel Wainer foi obrigado a se exilar. Ele foi o primeiro brasileiro a buscar asilo numa embaixada, porque sabia que sua vida sofreria riscos pesados. E o jornal foi entregue à competência, à lucidez e à serenidade política de Moacir Werneck de Castro e Jorge de Miranda Jordão. A Última Hora pôde atravessar esse período com coerência apesar das ameaças e dos arreganhos da ditadura militar, e Moacir, como sublinhou o nosso Cícero Sandroni, pôde oferecer ao público leitor da  Última Hora algumas preciosidades de definição política, de análise política social e, sobretudo, de liquidez de estilo. Moacir Werneck era um jornalista e escritor que dominava de forma extraordinária o idioma português e brindava os seus leitores com artigos realmente luminosos.
 
Ao final do discurso, o Presidente da ABI ressaltou a importância do resgate da memória da imprensa brasileira a partir do exemplo de Moacir Werneck de Castro:
—Vejo aqui também nosso companheiro José Alves Pinheiro Júnior, chefe de reportagem em diferentes momentos da Última Hora e que foi um dos colaboradores mais próximos de Moacir Werneck de Castro nesse exercício que ele fez de jornalismo brilhante na Última Hora. Nós queremos dizer, a ABI pela sua Diretoria e pelo Conselho ilustrado pelo comando do nosso companheiro Pery Cotta, que cumprimos com um dever que não é meramente protocolar, cumprimos uma obrigação ditada pelo nosso coração, pela admiração que tínhamos por Moacir Werneck de Castro, que foi, sem dúvida, um dos maiores jornalistas do País em todos os 200 anos de existência da imprensa entre nós. E para nós, seus contemporâneos, é um privilégio ter tido a oportunidade de conviver com um extraordinário jornalista como foi o nosso querido Moacir Werneck de Castro. É esta a saudação que a gente faz a Moacir Werneck, testemunhando o nosso carinho por Nenê Rodriguez, digna companheira desse admirável combatente da liberdade que foi Moacir Werneck de Castro.
 
A jornalista Beatriz Bissio falou, em seguida, sobre a atuação de Moacir Werneck de Castro nas questões relacionadas aos grandes temas do Brasil e do mundo:
—É um momento de emoção me dirigir a companheiros, amigos ilustres, em particular, a Nenê, uma amiga com a qual eu tenho compartilhado momentos inesquecíveis dos praticamente 30 anos da minha presença aqui no Brasil. Nenê estava me lembrando que é importante neste momento trazer recordações do legado e da solidariedade irrestrita de Moacir com as grandes causas do mundo do século 20. Compromissos internacionais com o Uruguai, um país com o qual ele tinha além de toda essa bagagem que vinha da sua vida compartilhada com a Nenê, um acompanhamento dos maiores e dos mais difíceis momentos, como a luta pela democratização e pela liberdade de imprensa. Vários momentos importantes que ele com a sua palavra, com sua análise, com seus contatos, conseguia abrir portas, que quem sabe de outra forma não teriam sido abertas. Outro compromisso do Moacir foi com a luta do povo cubano, com a coerência com que ele analisava a situação. Ele sempre viu com clareza que o regime cubano, no contexto em que ele sobrevivia, com as ameaças permanentes, merecia de todos os latino-americanos que lutam por um mundo melhor um maior respeito. E isso ele escreveu e disse todas as vezes que foi necessário. Moacir teve também um permanente compromisso com a causa da luta da Espanha pela democracia diante da ameaça do fascismo e também com a luta do povo palestino. Ele viajou ao Oriente Médio, enviado da nossa revista “Cadernos de Terceiro Mundo”. Em uma dessas viagens ele entrevistou Yasser Arafat, no Líbano, uma magnífica e importante entrevista. Esta é uma tarde do Moacir, importante para que possamos continuar a levantar essas bandeiras que são também nossas. 
 
Sobrinho de Moacir, Antonio Joaquim Werneck de Castro, relatou fatos que marcaram a sua convivência com o tio:
—Tinha duas coisas que ele me contava. Uma é que tinha que ir a uma assembléia para aprender a escrever sobre uma assembléia de luta de trabalhadores. A segunda lição que ele dizia que tinha que tomar, mas não o fez, que era fugir da polícia. Ele tinha que fazer as duas coisas: escrever bem e fugir bem. Outra coisa que ele contava era que a polícia, além de prender nas assembléias, ia depois na fonte, ia ao jornal e quebrava tudo. Nesta assembléia surgiu a questão do Herbert Moses, ele garantia a integridade da pessoa, não era só por causa do jornalista era por causa do escritório da empresa que tinha sido quebrado.
 
O cartunista Jaguar recordou, emocionado, os anos de amizade com Moacir Werneck de Castro e assinalou a sua valiosa contribuição à imprensa, com destaque para o jornal O Pasquim:
—Uma coisa que eu não me perdôo é que, às vezes, eu passava ali pela Rua Rainha Guilhermina, no Leblon, e falava com a minha mulher que há muito tempo eu estava devendo uma visita ao Moacir, que gostaria muito de conversar com ele. Pra mim, certamente, é o melhor texto da imprensa brasileira. Quando eu era diretor do Pasquim, ele publicou várias coisas. Na época em que a gente estava na maior dureza e não tinha dinheiro para pagar, ele ia lá e entregava de graça as matérias, que eram sempre as melhores do número. Todas as homenagens serão poucas para uma pessoa como Moacir. Na verdade, eu não venho ao Centro da cidade há uns cinco anos. Continuo trabalhando, mas mando tudo pela internet. Não saio do Leblon ou de Itaipava. Mas hoje vim até aqui porque me achei na obrigação de participar desta última homenagem a ele aqui na ABI, uma Casa em que ele sempre foi venerado e querido por todo mundo.
 
Companheiro de redação de Moacir Werneck de Castro na “Última Hora”, Pinheiro Júnior está reunindo em livro as experiências vivenciadas ao lado do colega que ajudou a consolidar a história deste importante jornal brasileiro:
—Trabalhei com Moacir cerca de 15 anos, mas eu teria muita coisa pra contar a respeito dele. Estou concluindo um livro sobre a velha Última Hora e o Moacir Werneck é senão o segundo ou terceiro personagem em importância do livro. Não tenho palavras para me referir ao meu grande companheiro. Fui o último diretor responsável da Última Hora depois do Samuel Wainer. Quem deveria ter assumido a direção era o Moacir Werneck de Castro. Ele não assumiu por impedimento político, porque o Samuel achava que ele era marcado demais pelo Dops. Eles jamais permitiriam que o Moacir assumisse a direção responsável do jornal. Ai, eu fui escalado e tive o desprazer e a desonra de fechar a Última Hora. Obrigado por esta oportunidade, obrigado Moacir Werneck.
 
*Colaboração de  Renan Castro, estagiário da Diretoria de Jornalismo da ABI.

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