Relembrando o Mundial de 1950 com o jornalista e escritor Loris Baena


Por Claudia Sanches

24/07/2015


LorisBaena_evento2Loris Baena Cunha, que no último mês de maio completou 70 anos de jornalismo esportivo, é um dos poucos cronistas brasileiros ainda em atividade que entrevistou o instrutor do futebol, Charles Miller, e o ponta-direita Alcides Ghiggia, que marcou o gol da derrota do Brasil na Copa do Mundo de 50.

Perguntado se o famoso personagem daquele jogo que ao marcar o gol da história uruguaia era ele, o craque do Uruguai respondeu que compartilhava a a vitória com todos os seus companheiros, principalmente com o atacante Schiaffino:

— Ele afirmou não ter sido herói do jogo sozinho. Schiaffino marcou o gol do empate, quando o Brasil vencia de 1 a 0. Se Schiaffino não tivesse empatado, não valeria de nada o gol de Ghiggia. Então, quem abriu o caminho da vitória do Uruguai foi seu companheiro segundo Ghiggia, ainda mais que o Brasil jogava na vantagem, precisava apenas do empate.

Loris conta que outro assunto que magoou os jogadores do Uruguai foi a própria postura da imprensa brasileira, que no dia e na véspera do jogo, davam a vitória antecipada para o Brasil. “Brasil, campeão mundial de futebol”, “Hoje o Brasil vai comemorar o título” , “Brasil, campeão do mundo” entre outras manchetes antecipando a vitória da seleção brasileira.

Ghiggia também se lembrou do discurso do Prefeito do Distrito Federal, Ângelo Mendes de Moraes, que pronunciou palavras que mexeram com o brio dos uruguaios, conclamando 200 mil espectadores e dos times perfilados para entrar em campo: “Brasileiros, vós que daqui a alguns minutos sereis campeões do mundo; vós que não tendes rival em todo o planeta; vós a quem já saúdo como vencedores, cumpri a minha palavra construindo este estádio. Cumpram agora o dever de vocês conquistando a Copa do Mundo”.

O técnico da seleção uruguaia Jim López disse aos jogadores antes de entrarem em campo que “para que isso não aconteça só resta a dignidade e a fibra de vocês, nossos jogadores, para que as palavras de Ângelo de Moraes só aumente a ira dos uruguaios”.

Brasil não era favorito

Para Loris, a imprensa brasileira e o discurso do prefeito Mendes de Moraes cooperaram com a queda da seleção que, na opinião dele, não mostrava nenhuma superioridade sobre os rivais:

— Na véspera do jogo, dia 15 de julho, encontrei-me com alguns companheiros do Rio e São Paulo e repreendi vários órgãos da imprensa de publicarem a vitória brasileira sem o jogo ter sido efetuado e questionei a razão de tanta euforia. Lembrei que dois meses antes, Brasil e Uruguai tinham realizado três partidas pela Copa Rio Branco. Na primeira partida realizada no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, os uruguaios venceram por 4 a 3. A segunda partida aconteceu no Estádio do Vasco da Gama, e os brasileiros venceram por 2 a 1, havendo necessidade de um terceiro jogo para saber quem ficaria com a Copa, ganha por 1 a 0, a duras penas.

Equipe brasileira que enfrentou o Uruguai na Copa de 50. Em pé da esquerda para a direita: Barbosa, Augusto, Juvenal, Bauer, Danilo Alvim e Bigode; agachados: Johnson (massagista), Friaça, Zizinho, Ademir Menezes, Jair da Rosa Pinto, Chico e Mário Américo (massagista).

Equipe brasileira que enfrentou o Uruguai na Copa de 50. Em pé da esquerda para a direita: Barbosa, Augusto, Juvenal, Bauer, Danilo Alvim e Bigode; agachados: Johnson (massagista), Friaça, Zizinho, Ademir Menezes, Jair da Rosa Pinto, Chico e Mário Américo (massagista).

Na época, os brasileiros tinham conquistado três títulos sul-americanos, a atual Copa América, em detrimento de oito da seleção uruguaia. Para o jornalista, ninguém poderia falar em favoritismo para o Brasil.

Ao término do jogo, o jornalista recorda de milhares de pessoas saindo em silêncio profundo do estádio:

— Era como se a multidão estivesse acompanhando o enterro de um santo. Muitos torcedores exaltados destruíram a pauladas o busto de Mendes de Moraes. No início da noite os torcedores já tinham embarcado para seus estados, e ido para suas casas.

Ainda hoje, Loris, que teve oportunidade de conversar com o craque, de apensas 23 anos na épcoca, não se esquece da revelação que o jogador fez:

— Nós estremecemos de raiva ao ouvir o discurso do prefeito.

Barbosa, o bode expiatório

Enquanto todo o Maracanã já contava os minutos para celebrar o título, nos espaços deixados por Bigode, o atacante Schiaffino empatou o jogo aos 21 minutos. Com lançamento de Miguez, Ghiggia, aos 34 minutos, silenciou o Maracanã.

Gigghia gol Brasil x Uruguai Copa do Mundo 1950

Gigghia comemora o gol Brasil x Uruguai, Copa do Mundo 1950

Nos últimos dez minutos, a pressão da torcida foi insuficiente para alterar o placar que o Brasil carregaria para sempre como uma cruz. Orgulho do Vasco da Gama, Barbosa se transformou em vergonha nacional que seria criticado pelo resto de sua vida. Primeiro por ter supostamente falhado e depois pela forma com que foi condenado. Loris acredita que a imprensa começou a usar o goleiro do Vasco como bode expiatório depois de alguns dias da decisão:

— Inexplicavelmente os jornais começaram a culpar Barbosa. Enquanto outros, como eu, consideravam Bigode o responsável, já que o jogador era o marcador de Ghiggia. Em 2014 a mídia não crucificou nenhum dos jogadores pelo placar de 7 a 1 no jogo contra os alemães.

 

 

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