30 de setembro de 2022


Relatório da CPI desnuda um tempo que nunca esqueceremos


23/10/2021


Por Eliara Santana, jornalista, Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), com especialização em Análise do Discurso. Ela atualmente desenvolve pesquisa sobre a desinfodemia no Brasil em interlocução com diferentes grupos de pesquisa. Publicado no portal GGN.

É um documento robusto que nomeia os responsáveis pela tragédia da Covid no Brasil e os acusa de terem cometido crimes contra a população.

O senador Renan Calheiros , na leitura do Relatório final da CPI da COVID, disse que toda a investigação feita foi muito importante para que nós nunca nos esqueçamos do que aconteceu neste país. E acho que nunca nos esqueceremos.

Será difícil esquecer mais de 603 mil vidas perdidas. Pais, mães, namoradas, namorados, amores, filhos, filhas, sobrinhos, sobrinhas, tios, tias, amigas, amigas… gente amada que faz falta na vida da gente. Será difícil esquecer as cenas de pessoas sem oxigênio, as cenas de médicos e enfermeiros em pânico, as imagens de parentes desesperados porque seus entes queridos não tinham como respirar. Será difícil esquecer, sobretudo, o escárnio, o deboche e a perversidade do atual ocupante do Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro. Que levou a população a acreditar em medicamento comprovadamente ineficaz contra a Covid, que desdenhou da dor das pessoas dizendo que não era coveiro, que fez piadas idiotas contra as vacinas, que fez campanha aberta e irresponsável pelo uso e pela divulgação da cloroquina e da hidroxicloroquina.

E exatamente porque não podemos esquecer é que o Relatório da CPI da Covid é um documento marcante e preciso. Claro que há questionamentos e inquietações, há jogos políticos, arranjos de última hora, a retirada da perspectiva do crime de genocídio contra os povos indígenas mas, ao final,  é um documento robusto que nomeia os responsáveis pela tragédia da Covid no Brasil e os acusa de terem cometido crimes contra a população.

Na leitura feita hoje no encerramento dos trabalhos da CPI, o relator Renan Calheiros destacou os pontos essenciais que resumem muito bem o absurdo inaceitável que vivemos até este momento. Lendo o relatório e, depois, ouvindo o resumo do relator, a impressão que tenho é de que estivemos numa realidade completamente distópica, típica de blockbusters como Divergente e Jogos Vorazes, em que forças do mal tomam o país e o destroem completamente, instaurando o caos. Infelizmente, não era um blockbuster, era a nossa realidade dura batendo à porta, sintetizada por um documento bastante completo que dimensionava para nós o que significou o Brasil enfrentar uma pandemia tendo um genocida negacionista no comando central. Entre outras coisas, significou a perda de mais de 600 mil vidas, 600 mil pessoas amadas por outras.

Pontos em destaque

Na leitura resumida, Renan Calheiros destacou aspectos essenciais, sobretudo em referência ao presidente Bolsonaro, como:

  • Aumento de 50,6% no número de casos  em seis meses, desde que a CPI foi instalada (abril de 2021);
  • Estímulo do presidente da República pra que a população seguisse sua rotina, de forma descuidada, como se tudo estivesse normal;
  • Busca pela chamada imunização de rebanho;
  • Incentivo à manutenção das atividades comerciais em todo o pais, em pleno aumento do número de casos, sob o mote “O Brasil não pode parar”
  • Incentivo ao uso de cloroquina e hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina, todos medicamentos comprovadamente ineficazes no combate ao coronavírus;
  • Atuação intensa do gabinete paralelo que participava de decisões sobre políticas públicas.
  • Enquanto o mundo já tinha abandonado o uso de cloroquina, o Brasil permaneceu defendendo o medicamento;
  • Incapacidade do presidente brasileiro em lidar com a pandemia;
  • Atuação do presidente no fomento da disseminação de fake news, desinformação, propaganda contra vacina;
  • O presidente gerou clima de desconfiança e levou as pessoas a agirem com leviana normalidade – o que provocou uma exposição perigosa da população;
  • Ausência de política de testagem;
  • Falta de planos táticos e operacionais – inexistência de planejamento do Ministério da Saúde;
  • Há evidências de que o governo desestimulou a população a adotar medidas farmacológicas e a não seguir distanciamento, uso de máscaras, além de que o presidente promoveu aglomerações.

O relatório também enfatizou que o atraso na vacinação foi bastante prejudicial para o país e citou atuação bastante negligente do ex-ministro Pazuello e de Élcio Franco na negociação para aquisição de vacinas, o que impactou o cronograma de imunização. Citando reportagens e pesquisas, Renan afirmou que o Brasil poderia ter sido o primeiro país do mundo a começar a vacinação e salientou que a compra de vacinas não foi prioridade – um erro de estratégia que custou caro ao país, ressaltou o relator. Ele apontou também a existência de diversas irregularidades e crimes envolvendo a compra de vacinas, com vários vícios, “num esquema de corrupção nunca visto”.

O relator disse ainda que o povo amazonense foi “feito de cobaia” e “deixado à própria sorte”, além de ressaltar os crimes contra os povos indígenas e afirmar que “não é segredo que o governo fez atos deliberados contra os direitos dos indígenas”.

O caminho da corrupção teve espaço no relatório, e na leitura do documento, Renan Calheiros afirmou que o governo destinou dinheiro para a fabricação de cloroquina e que as despesas multiplicaram 17 vezes para aquisição do medicamento. Bastante enfático, ele disse que todo aquele trabalho da CPI era para que nunca fosse esquecido o que aconteceu no Brasil.

Ao final, disse que inocentes pagaram com a vida a irresponsabilidade do governo.

O relatório é de fato muito completo, elucidativo e recheado de tristes exemplos e de farta documentação. É um marco nessa trágica história recente que o país viveu.

Um novo momento começa agora

“A história não perdoa os omissos e condenará os culpados”, ressaltou o relator na leitura da sessão da CPI. E Renan não poupou, em nenhum momento, os culpados, especialmente o presidente Jair Bolsonaro, que foi apontado como negligente, irresponsável  e que está sendo acusado de 11 crimes. Ou seja, com toda a descrição minuciosa, não há brecha para Jair alegar que não sabia ou que foi enganado. A perseguição às emas com a caixa de cloroquina está documentada devidamente, assim como todos os deboches e o negacionismo explícito. Não há um bom caminho para Jair, nem para os filhos, que foram incluídos em função da disseminação de desinformação e fake news.

A finalização do relatório e a culpabilização explícita do presidente e de outros ex e atuais integrantes do governo coloca um carimbo pesado em Jair, na família e no próprio governo, sem dúvida, que já está fragilizado pelo desastre da economia. Além disso, o relatório marca um momento de largada para 2022.

O dia de hoje foi triste, muito triste, pois a leitura do relatório escancarou um período terrível do país e, mais do que isso, revelou o absurdo de o Brasil ter levado à presidência um ogro genocida. Afinal, não era uma escolha difícil. E nós avisamos.

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