17 de agosto de 2022


As dores e delícias de
trabalhar na EBC


25/06/2020


Reflexões de uma repórter – ou as dores e delícias de trabalhar na empresa de comunicação mais censurada do país

Carol Barreto, jornalista da EBC, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais  do Município do Rio de Janeiro e mestranda do programa de pós-graduação em mídia e cotidiano da UFF

Na EBC, cada mergulho é um flash, trabalhar lá é um verdadeiro carrossel de emoções. Esta é a treta do momento: https://blogs.oglobo.globo.com/lauro-jardim/post/justica-nega-pedido-da-ebc-para-que-facebook-exclua-grupo-de-funcionarios.html?fbclid=IwAR3G8cdKTbQuKbJlvheIMSoosgWg25RVSZ4YDa-EK_cl-OW4H53GXzvhDq8

Não satisfeita com a censura exercida sobre o jornalismo e a programação da empresa, a direção resolveu agora censurar também um grupo fechado de facebook dos funcionários. Não é exatamente uma novidade. O PT fez isso em 2015, e deu errado: https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,estatal-de-comunicacao-investiga-funcionarios-por-piadas-no-facebook,1659001?fbclid=IwAR2Sw9NKuz5mkFymL37qwUzjal5MYc4WnYH_rluxG-hRR_jBJgeZQyowfBk
Ainda faço um artigo acadêmico sobre essa estranha unificação de método da direção da EBC com relação a um grupo de trabalhadores no facebook em duas gestões tão diferentes à frente da empresa. Ambas gestões ruins, mas sem dúvida bem diferentes. Por que será que é tão difícil entender que trabalhadores de uma empresa de comunicação têm direito a suas opiniões? Por que é tão difícil conviver com a democracia? Por que toda essa tara em censurar? Muitas perguntas, nenhuma resposta por enquanto. Ainda bem que todo bom trabalho acadêmico começa com a formulação de boas perguntas.
Esta semana, escrevi por whatsapp ao diretor financeiro da EBC, mais um milico de pijama. Escrevi para ele que o PT passou, nós ficamos. Essa gestão de generais de pijamas também passará, nós ficaremos. Talvez passe inclusive mais rápido do que o previsto. A Terra plana, afinal, gira muito rápido… ele, por óbvio, não me respondeu. Assim tem sido há meses.
A direção da EBC printou uma bandeira antifascista que postei no grupo. Se sentiram ofendidos por uma bandeira antifascista. Por que será? Também se deram ao trabalho de decupar o conteúdo de uma live que fiz com o deputado Glauber Braga sobre a EBC. Aparentemente, se doeram porque usei o termo “milicos de pijama” para me referir aos milicos de pijama que hoje dirigem a empresa. Também se doeram porque eu disse que a EBC está sob censura desde o golpe de 2016. Sobre isso, se incomodaram não com a acusação de censura, mas com o uso da palavra “golpe”. Até nessa hora querem censurar, acho que sequer se dão conta… kafkiano, mas sobreviveremos. Não sem muita encheção de saco, consulta a advogados, intimações e todo tipo de maluquice que daí possa ser derivada.

A direção da EBC também se incomodou com as frequentes cobranças, feitas por diversos trabalhadores, a respeito das necessárias medidas que deveriam estar sendo tomadas no enfrentamento à pandemia. Apesar de a maioria dos trabalhadores da empresa estar em home office, cerca de 30% permanece em trabalho presencial. No Rio, os três trabalhadores do “Sem censura” que fizeram o teste por conta própria, o resultado deu positivo para Covid-19. Um teve 50% do pulmão comprometido. Diversos outros tiveram sintomas, mas a empresa não os testou. Alegando falta de recursos para custear os testes, na verdade o que a EBC faz é promover conscientemente a subnotificação. Notícias fresquinhas dão conta de que o ministério da saúde está estocando (sic) mais de 5 milhões de testes. Então, é só pedir ao ministério vizinho os testes. Só que para pedir, precisa querer. E eles não querem. Se as pessoas não testam, o resultado não dá positivo. E se não dá positivo, para todos os efeitos ninguém tem Covid, em que pesem os sinais. Se ninguém tem Covid, a empresa não precisa tomar providências para adequar sua programação a um formato inteiramente online, como temos pedido há meses e até TVs universitárias têm conseguido fazer. É o método Bozo de resolver problemas: se você os varre para debaixo do tapete, é como se não existissem. Mais ou menos como fizeram com o Queiroz. Mesmo que os problemas varridos para debaixo do tapete voltem para lhe assombrar, nesse caso vitimando algum trabalhador, coisa que por sorte ainda não aconteceu. Se acontecer, dirão que foi uma fatalidade. Só que não. Serão devidamente denunciados pela responsabilidade que têm – ou deveriam ter.

Num dia, retiram um colega da cobertura da coletiva diária do ministério da saúde por causa de uma pergunta absolutamente pertinente, sobre a competência técnica dos militares para assumirem os postos que têm assumido em meio à maior pandemia dos últimos 100 anos. No outro dia, resolvem processar a Comissão de Empregados por postagens feitas num grupo fechado de facebook. No meio disso tudo, altas doses de censura e desgaste em todos os veículos, em poucos dias. A intenção parece ser exterminar qualquer vestígio que ainda tenhamos de tesão por fazer comunicação pública. Querem nos transformar num protótipo daquele funcionário público padrão que todo mundo odeia: medíocre, faz sempre o mínimo para evitar a fadiga. Faz o que mandam, sem questionar, mesmo que as ordens sejam absurdas. Não tem qualquer compromisso com a missão pública[1] que se concursou para desempenhar. Para essa pessoa, tanto faz trabalhar numa empresa de comunicação pública ou numa fábrica de salsichas – afinal, já diz o ditado que os jornais são como as salsichas: se as pessoas soubessem como são feitos, não comprariam. Só que esqueceram de combinar isto com o corpo funcional. Uma parte dele resiste com bravura aos ataques, dá murro em ponta de faca como quem luta contra moinhos de vento. Conheço as dores e delícias de pertencer a este grupo. Um outro grupo aderiu de maneira acrítica à gestão da empresa, porque aderiu ao projeto bolsonarista, sendo hoje para esse segmento desculpáveis desvios que antes, na época do PT, eram alvo de duras críticas. Há um terceiro grupo, ainda – que eu chutaria ser o mais numeroso -, que vê o ambiente pesado e sente medo de lutar. Medo de que Bozo cumpra suas promessas e feche a empresa que é seu ganha-pão. O medo é o anticlímax da mobilização, porque ele simplesmente paralisa. Esse segmento não está satisfeito com os rumos da empresa, mas se sente acuado e sem forças demais para lutar. Só que o medo é diferente da covardia. O medo é um instinto de proteção comum a todos os animais, mas que pode ser superado pelos seres humanos. Já a covardia é uma espécie de “vocação” de seres menores que eu particularmente desprezo, um mal lamentavelmente insuperável para alguns. Há covardes na EBC também, muitos dos quais promovidos a chefes na “nova era” bolsonarista. Esses têm o meu combate diário. Já os colegas que estão amedrontados têm minha solidariedade. Quero que consigam superar o imobilismo, e sei que em algum momento o farão. O faremos juntos.

Tenho dito ultimamente que a EBC sobreviverá ao Governo Bozo muito mais por seus defeitos que por suas qualidades. Sobreviverá porque os cargos comissionados são atrativos para o centrão e porque é necessário aparelhar a empresa em defesa de um governo a cada dia mais indefensável. Parece bastante interessante, aos olhos do governo de turno, distribuir sua narrativa delirante de maneira inteiramente gratuita a diversos veículos de comunicação menores que distribuem o conteúdo produzido pela EBC por todo o país. Essa sobrevivência, dolorosa para quem luta pela comunicação pública, é quase como um coma. É doloroso, terrível, mas há de passar. E dos escombros deste desgoverno vamos reconstruir a comunicação pública. Num outro momento, num outro governo – e talvez o tenhamos mais cedo do que pensávamos inicialmente. Nada serão flores, mesmo que a esquerda ganhe as próximas eleições. Afinal, esquerda que não faz autocrítica está condenada a cometer sempre os mesmos erros, em looping eterno. Nosso papel, enquanto defensores do projeto que originou a EBC, é fazer ver a essa esquerda que já não é mais possível conciliar com os de cima, porque foram os de cima que romperam a conciliação em 2016 e nos jogaram na barbárie, entregando a administração do país aos protagonistas de “Narcos” para destravar a agenda ultraliberal de retirada de direitos e privatizações. Governar é escolher os enfrentamentos que se quer fazer. O resto é perfumaria, mero detalhe. Se é verdade que nada serão flores, também é verdade que nada será como antes. Nada será como agora. E isto, por ora, já me basta. E tenho certeza que a muitos colegas também.

[1] Nossa missão pública, no caso da EBC, é promover a formação crítica das pessoas por meio da comunicação pública. A comunicação pública se caracteriza por não responder nem às pressões editoriais de empresas e nem às necessidades de defesa de governos de plantão. Nisto ela difere fundamentalmente da comunicação privada e da governamental, pois o seu foco é o cidadão. Um instrumento fundamental nesse sentido é a constituição de órgãos de participação da sociedade civil, como era o Conselho Curador, instituído pela lei de criação da EBC, que debatia o conteúdo e a programação que a empresa produzia. A primeira medida tomada por Temer ao chegar ao poder foi acabar com o Conselho Curador com uma canetada. Isto mutilou nossas possibilidades de fazer comunicação pública, mas segue sendo um imperativo que se retome este projeto e o conselho indevidamente cassado. A comunicação pública cumpre papel fundamental nas principais democracias do mundo: é só pensarmos na britânica BBC, na portuguesa RTP, na alemã Deutsche Welle, na japonesa NHK e em muitos outros exemplos. No mundo desenvolvido, essas experiências têm décadas, estão consolidadas. No restante do mundo, também há iniciativas importantes em busca de consolidação, como na Argentina e no Brasil. Aqui, a importância da comunicação pública se torna ainda maior diante do oligopólio midiático privado vigente, que faz com que 80% do que lemos, ouvimos e vemos seja produzido por sete famílias. Não à toa a postura de boa parte da mídia privada desde a criação da EBC sempre foi de hostilidade.

Publicado em: 25 de junho de 2020 às 14:19

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