19 de agosto de 2022


Deleite e denúncia nas
telas do cinema


03/11/2020


Mães de Verdade: As mulheres são assunto da 44ª Mostra internacional de Cinema de SP

DELEITE E DENÚNCIA NAS TELAS

44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Por Norma Couri, diretoria de Inclusão Social, Mulher e Diversidade da ABI

Marx é companheiro de toda uma geração que o jornalista Eugenio Bucci, no documentário Libelu- Abaixo a Ditadura, declarou como derrotada. Nossa geração não conhecia outra Marx, Eleanor, uma das três filhas de Karl e Jenny, ponto alto da 44 Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em cartaz até quinta-feira, 5. Trata-se de uma ficçãoítalo-belga dirigida pela italiana Susana Nicchiarelli. Revela a mulher independente e solidáriaque, como o pai,viveu a vida lutandocontra o trabalho infantil e pela liberdade dos trabalhadores, igualdade de direitosdas mulheres. “Asinglesas ainda dependem moralmente dos homens, e são oprimidas por eles”. Miss Marx começa em 1883 com a morte de Karl(Phillip Gröning) e Eleanor (RomolaGarai), 28 anos, faz a elegia. Em 1h48 o filme percorre sua vida de pioneirismo ao associar socialismo a feminismo, com suas leituras desde a adolescênciapendendo mais para a poesia de PB Shelley do que a de lord Byron por considerar o primeiro mais revolucionário.

Eleanor panfletou, discursou, lutou no Partido Socialista, organizou o legado de seu pai e foi investigada por interferir no funcionamento insalubre das fábricas e maquinário inglesesque  matavam milhares e amputavam mais de mil operários com salários de 3 a 4 pences a hora. Ela descobre a infidelidade do pai e do marido. O marido já era casado mas a apaixonada Eleanor escolhe morar com ele, o dr Edward Aveling (Patrick Kennedy), que suga a herança de Friedrick Engels herdada de Karl Marx, e leva uma vida de bom vivant independente. Como acontece com muitas mulheres, Eleanor aceita em casa o contrário do que prega às mulheres lá fora e por não conseguir conviver com essa contradição, traça um destino trágico.

As mulheres são assunto desta Mostra. Em Mães de Verdade Naomi Kawase revela o drama das adolescentes que engravidam e são obrigadas a se mudar para uma ONG que organiza doações dos bebês a casais que sofrem com infertilidade. Nesse caso, o bebê não é tão indesejado a ponto da mãe verdadeira, HikariKatakura, grávida aos 14 anos, nunca encontrar a paz e perseguir o pequeno Asato para desespero da mãe de adoção, SakotoKurihara.. O drama aumenta porque a adoção é um tabu no Japão. A delicadeza da direção de uma mulher nesse tema feminino faz a grandeza do filme num final inesperado.

Em outro filme da Mostra, a mulher só aparece no começo atrelada a dois filhos quando resolve atear fogo nela mesma e nos filhos pelo desespero da pobreza e da fome, traumatizando a família mas não o Estado. O marido está desempregado há dois anos mas não recebeu indenização e vive de bicos, o que autoriza o governo a retirar sua guarda dos filhos e manter a mulher isolada num hospital psiquiátrico. Não é à toa que o filme, sérvio, se chama Pai (SrdanGolubovic). Nikolapena 1h20  caminhando cinco dias a pé até Belgrado, vendo sua casa saqueada pelos vizinhos para denunciar num silêncio digno de Ghandia injustiça, crueldade e  indiferença das autoridades. O  Serviço Social  só se comove quando a imprensa o entrevista na TV sentado à porta do Ministério há dias para ser recebido e clamar por uma visita à mulher no hospital e ter seus filhos de volta. “Pobreza é uma forma de violência contra crianças”, alguém descobre. Foi vencedor do premio de Juri e de Público no Festival de Berlim.

No campo das denúncias a Mostra é farta. Nadando Até o Mar se Tornar Azul traça a história da China desde a revolução maoísta de 1949 por meio do depoimento de três grandes escritores, todos denunciando arbitrariedades e punições em 18 capítulos. São 70 anos em que os personagens viveram transformações, derrotas e mudanças na revolução cultural enterrada com a prisão do Grupo dos 4. Foi quando a China começou a mudar até se estabelecer num governo comunista de economia liberal. Os protagonistas são três escritores excepcionais pinçados a dedo por Jia Zhangkeque apesar de tudo são profundamente devotados ao país,  “o lugar onde você nasce é o lugar que o enterra pela metade”

Não há como não associar Amazonia às estepes da Mongólia em As Veias do Mundo (ByambasurenDavaa) onde Amra, de 11 anos, assume a luta do pai, morto num acidente, contra a invasão de companhias mineradores de ouro que querem expulsá-los das terras.Ounão pensar nos nossos sensitivos no filme theco O Charlatão (AgniezkaHolland) que mostra o brilho e desgraça do herborista Jan Mikolasek pelas seu excepcional conhecimento de ervas que mistura em unguentos tomilho com casca de carvalho e groselha preta com raiz de dente de leão ou absinto. Só que seu tratamento médico não invasivo salva a perna que seria amputada da irmã e doenças tanto de nazistas na Segunda Guerra como de comunistas. O filme é baseado numa história real. No final, quando Mikolasek perde seus protetores, passa de detentor de poderes divinos a curandeiro charlatão e enfrenta um julgamento nunca imaginado, arrastando para a desgraça seu companheiro de trabalho e de cama, outra heresia nos dois regimes.

Baseado no clássico de Nikolai Gógol de 1836, O Nariz (Andrey Khrzhanovsky) é um filme de animação e ópera que denuncia com humor, horror, cortes e imagens de Eisenstein, as censuras, suicídos, exílios e fuzilamentos de alguns dos maiores expoentes da cultura russa . Quando o realismo soviético tornou-se implacável e Joseph Stálin assumiu o superpoder(1941- 1953) tudo foi possível. A obra de Dmitri Shostakovitch destinada a criar a ópera soviética soou como “broca de dentista e máquina de tortura musical” aos ouvidosstalinianos que chamaram a rara linguagem harmônica de “formalismo”. Exigiam “a música caucasiana popular, agradável e nobre”. “Stalin nos ensinou a não deixar qualquer tentativa de ideologia burquesa abraçar nossos jovens. [Os autores] serão levados à prisão, a campos de segurança máxima”. Nessa leva varrerame calaram não só Shostakovitch, Sergei Prokofiev, Aram Khachaturian mas os mestres do passado glorioso como Tchaikovisky e afins. “Vigilância em todas as coisas”, era o lema. Milhares foram torturados e fuzilados como EmilyevichMeyerhold-Reich mesmo depois de uma confissão forçada. E muitos outros condenados por não serem “civilizados”. Imperdível.

Portugal continua a dar sinalde que não só de Manuel de Oliveira vive seu cinema. Na Mostra está disponível o documentário Prazer, Camaradas (José Filipe Costa) sobre a retomada do país com a Revolução dos Cravos em 1974 depois de quase 40 anos de salazarismo. E O Ano da Morte de Ricardo Reis (João Botelho) sobre o genial livro de José Saramago, onde seu heterônimo(Chico Diaz) encontra-se com Fernando Pessoano Martinho da Arcada onde escreveu parte dos poemas, no Hotel Bragança, no Alto de Sana Catarina. A conversa se dá entre poemase  delírios. E a epígrafe do livro de Saramago “aqui o mar acaba e a terra principia”, inversão do poema de Camões fincado no Cabo da Roca, “aqui a terra acaba e o mar principia” que é o simbolismo da vida e da morte.O ano é 1936 em pleno de fascismo de Mussolini na Itália, Hitler na Alemanha, Franco na Espanha e Salazar em Portugal.  Em preto e branco,  alírica ficção inclui até uma cena com Pilar del Rio, mulher de Saramago, numa saída de teatro.

Mas onde Portugal se iguala ao épico 1917 de Sam Mendes, aliás outro português, é no filme de guerra “sem guerra” Mosquito (João Nunes Pinto), na trajetória de Zacharias, 17 anos,em busca das glórias do combate pelo amor à pátria. Zacarias é enviado a Moçambique para livrar a colônia da invasão alemã na Primeira Grande Guerramas se perde do seu pelotão e sofre a guerra em forma de solidão, frio, fome, malária, alucinações, ataques de animais selvagens. Além do cinismo rude do sargento Justino e da súbita confraternização com um soldado alemãodesertor que acabam de vez com a ilusão de que a guerra possa ter algum sentido. O filme é embalado por belas imagens. Epelocanto do famoso fadista Camané tornado soldadoque dá algumas máximas, “ poucos padecem na ida o que na volta se sente”, “a música é o caminho dos homens para explicar Deus, a matemática é o caminho de Deus para explicar os homens”, “ sinto nas penas perdidas saudades da pátria ausente”.

Os filmes da Mostra estão disponíveis na plataforma www.44.mostra.org com quase 200 filmes a R$ 6,00 cada.

 

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