Muita emoção nas homenagens a Mano Décio


21/07/2009


Haroldo Costa, Ricardo Cravo Albin , Maurício Azêdo, Raquel Valença e Sérgio Cabral

Amigos, sambistas, jornalistas, entre outros convidados, lotaram o Auditório Oscar Guanabarino da ABI, para participar das homenagens pelo centenário de nascimento do compositor Mano Décio da Viola (1909-2009). A programação foi inaugurada com um debate sobre a vida e a obra do emérito ex-integrante e fundador da Escola de Samba Império Serrano, com a participação dos pesquisadores Rachel Valença, Ricardo Cravo Albin, Haroldo Costa e Sérgio Cabral — que também é Conselheiro da ABI —, além do Presidente da Casa, Maurício Azêdo (moderador).

Na platéia foram destacadas pelo Presidente da ABI, Maurício Azêdo, as presenças do cantor Roberto Silva — grande amigo de Mano Décio da Viola, de quem gravou o samba-enredo “Exaltação a Tiradentes” (1958) — e do historiador Hiram Araújo, responsável pelo Centro de Memória do Carnaval Carioca da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa).

Também foram saudados o mangueirense Ed Miranda Rosa, Presidente da Associação das Velhas Guardas das Escolas de Samba do Rio de Janeiro; o Desembargador João Santana, benemérito e um dos fundadores da Império Serrano; além dos membros das Alas das Baianas e da Velha Guarda da verde e branco de Madureira.

O Presidente da ABI agradeceu ainda as presenças de Laerte Lacerda, Diretor da Capemisa, patrocinadora do evento; Elmo José dos Santos, ex-Presidente da Mangueira e Diretor da Liesa; do jornalista José Carlos Netto, Diretor da Mangueira; e do também jornalista Paulo Francisco, Diretor da Associação das Velhas Guardas.

Abertura

Lênin Novaes

Um dos responsáveis pela programação que homenageia Mano Décio, o jornalista e Conselheiro da ABI, Lênin Novaes, foi quem deu início à solenidade:
— É com muita honra que a Associação Brasileira de Imprensa, o Instituto Cultural Cravo Albin, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano, com o apoio da Capemisa Vida e Previdência, orgulhosamente celebram o centenário de nascimento do compositor Mano Décio da Viola nesta noite. Mano Décio é co-autor de sambas antológicos como “Heróis da liberdade” e “Exaltação a Tiradentes”, entre outros.

Em seguida Lênin Novaes se referiu à data de nascimento de Mano Décio na cidade de Santo Amaro da Purificação (BA), em 14 de julho de 1909, e à sua morte no Rio de Janeiro, em 18 de outubro de 1984. Contou que a abertura oficial das comemorações do centenário do sambista teve início em 14 de julho, na Escola Municipal Mano Décio da Viola, em Jacarepaguá, com empolgada participação de professores e alunos:
— A direção do colégio produziu um esquete simulando um desfile de escola de samba. A atuação das crianças emocionou a todos, especialmente o cantor e compositor Jorginho do Império, um dos filhos de Mano Décio da Viola.

Saudações

Maurício Azêdo

Coube a Lênin Novaes a convocação dos integrantes da mesa de debatedores, mediados pelo Presidente da ABI, Maurício Azêdo. Antes de passar a palavra aos conferencistas, o jornalista disse que gostaria de fazer um registro especial sobre alguns dos convidados:
— Antes de tudo a Roberto Silva, grande intérprete do samba carioca, que como lembrava o nosso Sérgio Cabral, foi o primeiro a gravar o samba-enredo “Exaltação a Tiradentes”, em 1956. Queremos também saudar a presença do Dr. Hiram Araújo que foi e é um dos baluartes da preservação da música popular brasileira representada pelas escolas de samba. Queremos registrar a participação do Desembargador João Santana, um dos fundadores do Império Serrano nos anos 40 e que teve o privilégio de ser um dos criadores da Escola de Samba Prazeres da Serrinha, um embrião do Império Serrano.

Depois de destacar a figura do Desembargador João Santana, o Presidente da ABI disse que era com muito orgulho e satisfação que a Casa recebia a Diretoria da Escola Municipal Mano Décio da Viola, à frente sua Diretora, professora Rosana Oliveira e a comitiva integrada pela Vice-diretora Márcia Rodrigues, e as professoras Maria Helena Carvalho, Cristina Veluna e Ângela de Oliveira.

Maurício Azêdo explicou para a platéia o motivo de a ABI, uma entidade de jornalistas, prestar homenagem a uma figura da música popular. Segundo ele, esta história começa com a inauguração da sede, “que resultou da luta de uma geração de jornalistas e do entusiasmo, idealismo e capacidade do ex-Presidente Herbert Moses”. Para reafirmar a coerência da Casa com eventos de música popular brasileira, citou um período dos anos 40 e 50 que o 7º e o 9º andares do edifício-sede da ABI eram pontos permanentes de freqüência de grandes compositores:
— Alguns dos quais dividiam a condição de criadores da música popular com a condição de jornalistas militantes, entre os quais, o grande desenhista e cartunista Nássara, que sobreviveu até recentemente a ponto de poder receber as galas das homenagens da turma do Pasquim por inspiração de Sérgio Cabral e de Jaguar. E ainda Cristóvão de Alencar que foi também uma figura extraordinária da música popular brasileira.

O Presidente Maurício Azêdo encerrou o seu discurso falando sobre a vinculação que a ABI sempre teve com a música popular brasileira e a erudita, ressaltando que uma das grandes expressões da Casa foi o maestro Heitor Villa-Lobos, sócio da entidade durante 31 anos, que em 1959, ao falecer, “exibia com orgulho a sua condição de membro da ABI”.

História

Sérgio Cabral

Maurício Azêdo passou a palavra para Sérgio Cabral, que expressou a sua satisfação em falar sobre Mano Décio da Viola:
— É um personagem que me deixa muito feliz de falar sobre ele. Foi uma das primeiras figuras da música popular, especialmente da escola de samba, a quem me aproximei a partir do momento em que comecei a escrever sobre carnaval no Jornal do Brasil. Eu e Mano Décio ficamos amigos. Freqüentávamos um a casa do outro. Fui a um almoço na casa dele onde estavam reunidos Roberto Silva, Risadinha, entre outros. Ele me influenciou tanto que, quando sugeri que o violonista Paulo César Batista de Faria passasse a se chamar Paulinho da Viola, eu, na verdade, estava me inspirando em Mano Décio da Viola, por quem tenho grande admiração e afeto.

Sérgio Cabral disse que revendo os seus arquivos sobre Mano Décio da Viola encontrou muitos documentos escritos por ele sobre samba, Praça Onze e Império Serrano. Declarou que o sambista era um homem que se preocupava com a história. Revelou que quando escreveu o seu primeiro livro sobre escola de samba, Mano Décio foi um dos primeiros entrevistados, para falar sobre as origens da escola de samba que ajudou a criar:
— Ele falou das histórias do Império Serrano desde o Recreio de Ramos, a primeira escola onde ele esteve e conviveu com grandes sambistas, como Armando Marçal e Bide. Lá surgiu o samba “Agora é cinza”, que venceu o carnaval de 1935, desta dupla. Tive envolvimento com Mano Décio também em discos — dois dos quais ele escreveu as contracapas. —, em um deles com empenho especial para que saísse pela gravadora Polydor, dirigido por Luiz Roberto, violonista, cantor e compositor. A minha fala representa, portanto, uma manifestação de amor e admiração por Mano Décio da Viola.

Raquel Valença, pesquisadora de música popular e Diretora do Império Serrano, iniciou o seu discurso recordando o primeiro depoimento que colheu de Mano Décio, em 28 de novembro de 1978, para o livro “Serra, Serrinha, Serrano: O império do samba”, escrito por ela e o ex-marido Suetonio Valença.

Raquel Valença

As pesquisas para o livro, conta Raquel, começaram em 1978 por sugestão do amigo Humberto Soares Carneiro, atual Presidente do Império Serrano:
— Eu e meu ex-marido chegamos à escola em 1971. Humberto dizia que a nossa missão era preservar a memória da agremiação, que estava se perdendo com a morte de fundadores e demais integrantes. Mano Décio da Viola era citado por todos como parte da tríade sagrada de compositores imperianos, juntamente com Silas de Oliveira e Jorginho Peçanha.

Para conseguir a entrevista com Mano Décio, após várias tentativas frustradas, Raquel Valença decidiu aguardar a saída dele de uma gravação na TV Tupi, na Urca:
— Convidei-o para almoçar em minha casa, me identificando como amiga de Jorginho do Império. Ele aceitou. O depoimento em que ele fala da infância, da adolescência, da sua chegada ao Império Serrano, dos parceiros e baluartes da época foi um dos mais importantes para a elaboração do livro. Ele cita os sambas “Medalha e Brazões”, que precisou ser mudado por problemas com a Embaixada do Paraguai; e “Heróis da Liberdade”, que teve um trecho censurado pela ditadura militar.

Dando continuidade à produção da obra, no ano seguinte Raquel e Suetonio estiveram na casa de Mano Décio da Viola para gravar sambas inéditos, cantados por ele, com a participação do filho Jorginho do Império. A pesquisadora elegeu o samba “Obsessão” como a obra-prima de Mano Décio da Viola, uma parceria com Oswaldo Lima:
— Esta música trata da inspiração, da gênese do samba do compositor, sempre me faz chorar por causa da melodia maravilhosa, da letra inspiradíssima, e porque me lembra um tempo feliz, em que o Império Serrano e as outras escolas de samba eram mais ideal e menos pragmatismo e lucro.

Talento musical

Ricardo Cravo Albin

Penúltimo debatedor a se pronunciar, Ricardo Cravo Albin começou falando sobre o excelente trabalho de Lênin Novaes na organização dos eventos comemorativos ao centenário de Mano Décio da Viola, supervisionado pelo Presidente Maurício Azêdo, que, para sua surpresa e alegria, canta na íntegra vários sambas-enredo de autoria do compositor, muitos deles desconhecidos.

Ricardo disse que gostaria de enfatizar uma parte da história de Mano Décio da Viola, que começa com a sua chegada ao Rio de Janeiro quando criança, as suas passagens pelos morros de Santo Antônio e Mangueira, até ir se instalar na Serrinha.

Esta trajetória, segundo Ricardo, contribuiu para o desenvolvimento do talento musical de Mano Décio e também o de agregar pessoas, sambas, sambistas, ambientes:
— Mano Décio foi um dos primeiros compositores a dar depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS), por relevância histórica em relação ao carnaval, à musica carioca e ao samba-enredo. Em 1934, ingressa como um grande nome na MPB, ao lado do Bide e João de Barros, o Braguinha, com a adaptação de uma valsa que fez muito sucesso.

Na opinião de Ricardo Cravo Albin, a parceria com Silas de Oliveira deu início a uma grande história que marcou Mano Décio “como sacerdote do rito de passagem da criação do samba-enredo”:
— Digo isto porque os sambas-enredo dos anos 30 ficaram muito marcados pela ode a situações do cotidiano. A partir de Mano Décio e Silas de Oliveira, e outros poucos compositores, o samba-enredo ganha esta estrutura descritiva, uma seqüência de homenagens ao Brasil com a exaltação a Tiradentes, Carlos Gomes, Joana Angélica, Duque de Caxias e D. João VI.

Visão política

Haroldo Costa

Para Haroldo Costa estar na ABI tem um sabor muito especial, por causa da tradição da Casa de apoio às demandas e às iniciativas populares. Ele fez questão de destacar que a entidade sempre prestigiou todas as manifestações que envolviam a comunidade negra:
— Sou testemunha disto. Nesta sala, o Teatro Experimental do Negro (TEN) deu seus primeiros passos. Ensaiamos aqui o primeiro espetáculo. Aqui, Abigail Moura ensaiava e fazia os seus espetáculos da Orquestra Afro-Brasileira, uma das iniciativas mais sérias deste País, para a preservação e divulgação do imaginário musical do negro brasileiro. 

O pesquisador contou para a platéia que na ABI foi realizado o I Congresso Afro-Brasileiro, que contou com as presenças de Darcy Ribeiro, Guerreiro Ramos, Abdias Nascimento:
— Como vocês podem ver, é uma Casa que tem em seu arcabouço muitas das nossas lembranças, da nossa herança, do nosso passado. É uma honra estar aqui hoje para celebrar Mano Décio, exemplo de dignidade artística, de retidão de caráter.

Haroldo disse que conheceu Mano Décio e outros sambistas da sua época, como Mano Elói, Molequinho, Aniceto, entre outros, durante uma reportagem que fez para a revista O Cruzeiro.
Além de destacar o talento musical do sambista, afirmou também que Mano Décio não era um compositor alienado, tinha visão política:
— Nas eleições gerais de 1946, logo após o Estado Novo, Luís Carlos Prestes foi o Senador mais votado. Vespasiano Luz, membro do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB), criou um desfile no Campo de São Cristóvão, em homenagem a Prestes. Vários compositores concorreram, mas o vencedor foi Mano Décio da Viola, que disse certa vez: “Através do samba-enredo precisamos passar cultura para o povo”.

Show 

Ao final do debate, foram prestadas homenagens do Comitê Mano Décio é 100 (integrado pela Associação Brasileira de Imprensa, Instituto Cultural Cravo Albin e Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano), com a entrega de um troféu a personalidades que deram muitas e importantes contribuições para a memória e a divulgação do samba carioca. Entre os agraciados estavam Roberto Silva e Hiram Araújo.

Também integram a lista dos contemplados com o troféu — mas que devido a compromissos particulares estiveram ausentes na festa — Paulinho da Viola, Elza Soares, João Bosco, Martinho da Vila e D. Ivone Lara, que justificou a sua ausência por conta de uma forte gripe.

Jorginho do Império

Em seguida foi a vez de Jorginho do Império subir ao palco do Auditório Oscar Guanabarino, acompanhado da sua banda, para emocionar a platéia com um show magnífico intitulado “De pai para filho”, no qual interpretou belíssimos e antológicos sambas de autoria do seu pai, como “A paz universal”, “Antônio Castro Alves”, “Heróis da liberdade”, “Hora de chorar”, “Exaltação a Tiradentes”, “Exaltação ao Brasil holandês”, “Exaltação Bárbara Heliodora”, “Medalhas e brasão”, “Obsessão”, “61 anos de República” e “Rio dos vice-reis”.

Antes de iniciar o show, o cantor falou da sua alegria com as homenagens em memória do centenário do nascimento de Mano Décio da Viola, que para ele foi uma forma encontrada para evitar que a imagem do compositor não se perdesse e que o seu nome não entrasse para a lista dos artistas esquecidos:
— Realmente o papai era uma pessoa que merecia tudo isto que começamos a fazer por ele, aliás, que eu já venho fazendo há muitos anos, quando canto “O imperador”, de Paulinho Rezende e Paulo Debétio, que virou a música da nossa família, da minha vida, a gente vem mantendo esta chama acesa. Essa vinculação do nome Mano Décio da Viola com o Império Serrano, aos sambas-enredo que marcaram muito, como “Heróis da liberdade” e “Tiradentes”.

Segundo Jorginho, a melhor forma encontrada foi promover uma grande programação cultural:
— Para trazer os amigos para falarem da obra e do homem aqui na ABI, onde o Maurício Azêdo comprou a nossa idéia, com o apoio do Instituto Cravo Albin e da Capemisa, que há muito está ligada aos eventos culturais que promovemos no Império. Na quadra do Império também fizemos um grande evento para celebrar os 100 anos do Mano Décio, além da solenidade, na escola municipal que tem o seu nome, no dia 14 de julho, que era a data do aniversário do papai, declarou o cantor.

Outros eventos

Com a chancela do Comitê Mano Décio é 100, as homenagens ao sambista se estenderão até julho de 2010. Está prevista a realização de um festival, no Teatro João Caetano, no mês de setembro. Em novembro haverá também um show na Praça da Apoteose. No mesmo período será lançado um CD duplo, gravado pelo selo Lumiar, com a seleção dos melhores sambas de Mano Décio da Viola, interpretados por Jorginho do Império

Na opinião do Diretor de Cultura e Lazer da ABI e produtor fonográfico, Jesus Chediak, o CD “resgatará um dos mais expressivos poetas da maior manifestação cultural popular brasileira: o samba; ilustrado com a arte do cartunista Ziraldo”.

Por iniciativa do Deputado federal Edmilson Valentin (PC do B-RJ), será conferida ao compositor, em homenagem póstuma, a Medalha do Mérito Cultural do Ministério da Cultura. Na Câmara dos Vereadores do Rio e na Assembléia Legislativa (Alerj), parlamentares também propõem homenagens ao baluarte do samba.

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