Momentos da história centenária do Botafogo


11/08/2009


 O primeiro título

Conquistado em 1907, o primeiro título do Botafogo Futebol Clube somente foi reconhecido em 1996 por ato administrativo da Federação Estadual de Futebol do Rio de Janeiro. 

Após memorável vitória sobre o Fluminense por 4 a 2, em seu penúltimo jogo do campeonato carioca de 1907, o Botafogo somou oito pontos ganhos contra dez do tricolor. O regulamento estabelecia que em caso de empate entre duas agremiações, ficaria com o título aquela com maior número de gols a favor no decorrer do certame. O Botafogo tinha feito 14 gols e o Fluminense 16. Na última partida do campeonato, o Botafogo enfrentaria a fraca equipe da Associação Atlética Internacional e teoricamente era grande a possibilidade do time botafoguense superar os tricolores na soma de gols. A Associação Atlética Internacional que não enfrentou o Fluminense no returno, porque estava suspensa pela Liga, não compareceu para jogar com o Botafogo, tirando a chance alvinegra de tirar a diferença de dois gols. A confusão estava formada e os dois clubes interessados não chegaram a um acordo para a decisão do título. A Liga Metropolitana de Futebol foi dissolvida e somente 89 anos depois a FEFRJ declarou o Botafogo e o Fluminense campeões cariocas de 1907. 

A equipe base alvinegra que conquistou o primeiro título carioca era formada por: Álvaro, Raul e Otávio; Norman, Antônio Luís e Lulu; Ataliba, Flávio, Canto, Gilbert e Emanuel. 

Surge o Glorioso 

A denominação de Glorioso surgiu na imprensa após a belíssima campanha no campeonato carioca de 1910. Depois da desastrosa estréia contra o América quando foi derrotado por 4 a 1, o Botafogo logo no jogo seguinte se reabilitou, aplicando uma goleada por 9 a 1 no Riachuelo. Daí por diante as vitórias se sucederam. A mais importante foi sobre o Fluminense por 6 a 1 , no dia 25 de setembro, quando garantiu o título. 

Os componentes do glorioso time alvinegro eram: Coggin, Pullen e Dinorah; Rolando, Lulu e Lefevre; Emanuel, Abelardo, Décio, Mimi e Lauro. 

O último campeão da era amadorista

Disputado em 1932, o último campeonato carioca da era amadorista teve o Botafogo como campeão. Não dava mais para esconder o “amadorismo marron” com os clubes pagando aos seus jogadores e os remunerando com “bichos” cada vez mais elevados. 

Com o ingresso do Olaria, o número de participantes no campeonato carioca de 32 passou de onze para doze. Faltavam quatro rodadas e o Botafogo mantinha a vantagem de sete pontos sobre o 2o colocado. A derrota diante do América por 4 a 2 adiou a festa para a rodada seguinte. No dia 2 de outubro, os alvinegros venceram o Bonsucesso por 5 a 4, no campo do adversário, sagrando-se campeões cariocas. 

A cisão e o tetra campeonato 

O racha que já se previa no futebol carioca aconteceu em 1933. De um lado América, Bangu e Fluminense, praticantes do “amadorismo marron”, defendiam a implantação do profissionalismo. O Botafogo, em cujo elenco muitos jogadores eram contrários a profissionalização, sentia-se prejudicado. 

No início, o Botafogo teve o apoio do Flamengo e do São Cristóvão que, depois de disputarem alguns jogos no campeonato da AMEA, mudaram de idéia e aderiram à Liga Carioca, nova entidade fundada pelos clubes favoráveis ao profissionalismo. 

O Botafogo permaneceu na AMEA juntamente com o Andaraí, Olaria, Confiança, Portuguesa, Engenho de Dentro, Cocotá, Mavilis, Brasil e River. 

Os alvinegros foram bicampeões em 1933, tricampeões em 1934 e tetracampeões em 35. A saída do Bangu, São Cristóvão e Vasco enfraqueceu a Liga Carioca e a AMEA se transformou na Federação Metropolitana de Desportos com os três novos filiados. 

O elenco botafoguense, primeiro campeão da FMD, era composto por grandes jogadores: Carvalho Leite, Álvaro, Martim, André, Leônidas, Russinho, Patesko e M. Costa; Otacílio, Alberto, Canali e Afonso.

Surge um mito, Heleno de Freitas

Encerrando a temporada de 1939, o Botafogo participou de um Torneio Internacional, reunindo Flamengo, Vasco e os clubes argentinos San Lorenzo de Almagro e Independiente. No dia 21 de dezembro, em São Januário, Heleno de Freitas estreava no time alvinegro. Os argentinos venceram por 5 a 1.
Alto, elegante, Heleno tinha como característica a matada de bola no peito e o rápido chute sem que a bola tocasse no campo. Suas cabeçadas também eram certeiras. Com 28 gols em 27 partidas, Heleno liderou a artilharia do campeonato carioca de 1942. 

Após dez anos vestindo a camisa alvinegra, o craque deixou o clube ao ser vendido para o Boca Juniors, da Argentina. No dia 29 de maio de 1948, Heleno jogou a sua última partida pelo Botafogo. Na inauguração dos refletores de General Severiano, o time da estrela solitária empatou com o Atlético Paranaense por 0 a 0. 

As atitudes de Heleno dentro de campo, fruto de seu desequilíbrio emocional, terminaram em muitas expulsões. Para irritá-lo os torcedores adversários o chamavam de Gilda, personagem temperamental da atriz Rita Rayworth, no filme de mesmo nome e de grande sucesso de bilheteria na época. 

No dia 28 de setembro de 1947, em Álvaro Chaves, a torcida do Fluminense passou a gritar: Gilda, Gilda, Gilda…! Terminado o jogo com a vitória do Botafogo por 2 a 1, Heleno saiu carregado pelos torcedores botafoguenses, passando a mão no rosto como se estivesse colocando pó-de-arroz.

A fusão num momento de tristeza 

No dia 12 de junho, as equipes de basquete do Botafogo Futebol Clube e do Clube de Regatas Botafogo disputavam uma partida na quadra do Mourisco. De repente Armando Albano caiu e quando seus companheiros se aproximaram ele estava morto. A emoção tomou conta de toda a família botafoguense, especialmente, dos dirigentes do Clube de Regatas Botafogo e do Botafogo Futebol Clube. Aqueles que, de longa data, queriam a fusão entre os dois clubes, aproveitaram o momento e tudo fizeram para alcançar o grande objetivo. 

Carlito Rocha, adepto da fusão, sugeriu o nome de Clube Botafogo de Futebol e Regatas. Posteriormente, a palavra clube foi retirada e os Conselhos das duas agremiações reunidos, em 8 de dezembro de 1942, criaram o Botafogo de Futebol e Regatas. 

A partir daquele momento o uniforme preto e branco em listras verticais passava a ter do lado esquerdo do peito uma estrela branca, a tradicional estrela solitária, herdada do Clube de Regatas Botafogo.

Depois de muitos vices, finalmente o título 

O Botafogo interrompeu a incrível seqüência de quatro vice-campeonatos, entre 44 e 47, além de outro vice em 42, sob a presidência de Carlito Rocha. 

Carlos Martins da Rocha foi eleito em 12 de dezembro de 1947. Quando tomou posse em 2 de janeiro do ano seguinte, Carlito manteve João Saldanha como diretor de futebol, dispensou o técnico uruguaio Ondino Viera, substituindo-o por Zezé Moreira, e contratou Nilton Alves Cardoso, filho do conhecido Gentil Cardoso, para dirigir as equipes de aspirantes e juvenis. 

O primeiro jogador a ser contratado na gestão de Carlito Rocha foi o ex-rubro-negro Silvio Pirilo. Em março começaram as divergências entre Heleno e a diretoria alvinegra, culminando com a ida do atacante para o futebol argentino quatro meses depois. No dia 21 de março, em General Severiano,contra o América Mineiro estreava com a camisa da estrela solitária Nilton Santos. O mundo do futebol passava a conhecer aquele que seria o maior lateral de todos os tempos, a “Enciclopédia do Futebol”. 

Depois da desastrosa estréia diante do São Cristóvão, em General Severiano, no dia 11 de julho de 1948, quando perdeu por 4 a 0, o Botafogo não teve mais derrotas e conquistou o título carioca no dia 12 de dezembro, um ano após a posse de Carlito Rocha, numa empolgante final com o Vasco da Gama. 

O próximo adversário era o Canto do Rio, em Caio Martins. Zezé Moreira fez quatro alterações na equipe. Nilton Santos, Rubinho, Ávila e Pirilo entraram, respectivamente, em substituição a Sarno, Marinho, Nilton Cascão e Zezinho. O Botafogo ganhou por 4 a 2. Estava formada a equipe que ficou na história alvinegra: Osvaldo, Gerson e Santos; Rubinho, Ávila e Juvenal; Paraguaio, Geninho, Pirilo, Otávio e Braguinha. 

Na antepenúltima rodada, o Botafogo venceu o Flamengo por 5 a 3, em General Severiano. A mascote Biriba festejou com os jogadores o 5o gol alvinegro.
Botafogo e Vasco chegaram a última rodada do campeonato com 4 pontos perdidos. Os comandados de Zezé Moreira buscaram desde o início o triunfo sobre o “Expresso da Vitória”.
Osvaldo “Baliza” nos contou o pensamento dos jogadores botafoguenses antes do jogo:
“O Vasco veio com uma grande torcida para General Severiano. Aconteceu que nós chegamos, olhamos o ambiente na rua, muita gente não entrou e então o Pirilo e o Geninho, que eram os mais antigos, combinaram conosco que o negócio era partir direto. Tropeça, cai, levanta e vamos logo. Se nós fizermos o gol nos primeiros cinco minutos a partida é nossa. Foi o que aconteceu. Em três minutos fizemos dois gols.” 

Otávio falou sobre a contusão de Gerson no decorrer da partida: 

“Gerson teve um choque de cabeça com o Dimas. Quando o Dr. Paes Barreto foi socorre-lo, ele perguntou: “ Onde é que eu estou?”. Gerson teve que sair e nós passamos a jogar com dez. Só que o Rubinho queria ir para central de área, porque jogava nessa posição lá na Urca. O Paraguaio disse:“ Não, eu sou o melhor central da minha terra e vou substituir o Gerson.”. Eu cheguei e falei: vocês dois babacas discutindo quem vai ser o central de área. Geninho deu razão ao Paraguaio, porque nós mexeríamos em apenas uma posição. E fizemos apenas uma alteração.

Paraguaio cumpriu a missão sensacionalmente. O Pirilo voltou um pouco e eu fiquei na frente enfiado. Não ficava isolado porque o Pirilo sempre aparecia. Ele jogava xadrez. Se mexia bem, se deslocava bem. Quando eu pegava o marcador mano a mano, só ele aparecia. O marcador ficava numa merda muito grande. Porque se viesse em mim eu dava para o Pirilo. O Eli não saía de dentro da área. Vamos esperar. Se ele sair nós metemos para o Otávio por cima e fica só o Wilson. O Augusto pode vir também, mas se passarmos pelo Eli vai ficar um buraco entre o Augusto e o Wilson. Com dez nós cercávamos o time do Vasco. Eu não voltava. Quando queria ajudar, o Juvenal, o Geninho gritavam comigo: “Fica lá, fica lá”. Quando o Eli tentava sair, o Danilo alertava: “Volta, olha o Otávio lá”. Ficamos esperando, até que o Danilo ficou prensado e o Eli apareceu para receber. O Eli não sabia apoiar, meteu para o Maneca e o Juvenal cortou. O Juvenal deu para o Ávila que jogou por cima. O Augusto viu que eu entrava, mas chegou atrasado. Eu dominei no chão e não dei tempo para o Wilson chegar a mim. Correndo levei para a perna direita, a boa, e pensei que ao passar pela linha da grande área ia chutar, para não ser alcançado. Olhei para o gol e o crioulo estava apavorado. Olhei e vi o olho do crioulo. Pensei, ele vai me dar um lado e ficar no outro. Como entrei um pouquinho para esquerda, ele abriu para a esquerda. Levantei a cabeça, não precisei mais olhar para a bola. Olhei novamente para o olho do Barbosa. Só que eu pensei o seguinte: esse crioulo é um grande goleiro. Se deixou um canto é porque vai lá. Então, vou dar uma porrada no gol e se pegar nele, eu mato. Dei uma porrada que passou entre ele e o travessão.” 

O Botafogo ganhou por 3 a 1 gols Paraguaio e Braguinha, no 1o tempo. Na fase final, Otávio fez o 3o gol alvinegro e Ávila (contra) marcou para o Vasco.
A vibração após a conquista do campeonato começou ainda no gramado e o técnico Zezé Moreira saiu nos braços dos torcedores.
Na próxima semana, apresentaremos os momentos marcantes alvinegros na era Maracanã.

Centro Histórico-Esportivo

No dia 8o de setembro, segunda terça-feira do mês, terá prosseguimento a série “Futebol arte: a arte do futebol” com o tema “Futebol e Artes Plásticas”. Os palestrantes serão Cláudio Tozzi, artista plástico e Luiz Camilo Osório, da Unirio. Como mediadora estará presente a jornalista Bianca Ramoneda, da Globonews.
Local: Rua Aráujo Porto Alegre, 71 – 7o andar – Auditório Belisário de Souza – Centro
Informações: 22 82 12 92