Marcelo Auler – Jornalismo polêmico e investigativo


19/10/2006


Rodrigo Caixeta
20/10/2006

Foi como integrante do grêmio do Colégio Marista São José, na Tijuca, Zona Norte do Rio, que Marcelo Auler começou a escrever para divulgar eventos na imprensa — e não gostou apenas de ver seus textos publicados, mas também do ambiente das redações que visitou. Em 1974, aos 18 anos, já cursando Jornalismo na Faculdade Hélio Alonso (Facha), foi estagiar na Rádio Globo. Em seguida, sem sair da Rua do Russel, mudou de endereço, indo trabalhar na antiga revista Manchete. Viagens a São Paulo e a Brasília o fizeram transferir a faculdade duas vezes para, por fim, abandonar o curso de vez, ao descobrir que tinha direito ao registro profissional. Passou pelo JB, O Pasquim, IstoÉ, Folha de São Paulo, Gazeta Mercantil, Veja, O Dia e, agora, está na sucursal Rio do Estadão.

Marcelo viveu em Brasília os instantes finais da ditadura, “quando Geisel começava a falar em abertura gradual”. Cobriu a campanha das Diretas Já, o julgamento dos assassinos de Chico Mendes e o impeachment de Fernando Collor — que lhe valeu o primeiro Prêmio Esso de Jornalismo:
— O segundo veio com a matéria “Sangue dos inocentes” — sobre o linchamento de jovens em Olaria — e com ele me tornei a primeira pessoa física a receber o Prêmio de Melhor Contribuição à Imprensa. Depois, no Dia, foram oito anos de muitas matérias exclusivas e polêmicas, como aquela em que denunciei mais de 90 policiais federais envolvidos em inquéritos e processos criminais. Consegui um grande tento junto com o Marcos Tristão, na cobertura da morte de PC Farias: a foto, em primeira mão, dos dois corpos estirados na cama da casa do tesoureiro da campanha de Fernando Collor.

                      1975


O jornalista destaca, no entanto, que a matéria “Sangue dos Inocentes” teve conseqüências negativas.
— Toda a imprensa apresentou os jovens como batedores de carteira, tentando explicar o linchamento deles. Demonstrei que eles foram vítimas de uma perseguição dos bicheiros da região. Ninguém foi punido, embora os responsáveis tenham sido identificados. Na verdade, houve sim uma punição: o porteiro da Clínica Bambina, que me revelou que os médicos dali haviam sido impedidos de socorrer as vítimas, acabou demitido.

Ele lembra também a reportagem que fez para O Dia, relatando uma ação movida pela Procuradoria da República contra o Juiz, recentemente falecido, Mello Porto. Apesar de ter apenas descrito a ação movida pelo Procurador Daniel Sarmento, Marcelo acabou condenado, no Tribunal de Justiça do Rio, a pagar mil salários mínimos, mais 20% de honorários advocatícios, como indenização por danos morais — “esta decisão ainda será revista pelo STJ”, explica.

 Revista Veja

Desinteresse

Aos 51 anos, ele aponta como o mais difícil na sucursal Rio do Estadão a cobertura da Política “num estado em que os representantes do povo perderam representatividade e expressão”:
— Infelizmente, com raras exceções, nossos políticos, deixam muito a desejar e, por isto, não despertam o interesse dos leitores de São Paulo e outras regiões do País. Descobrir fatos que possam ser notícia fora das divisas do Estado do Rio é que é o grande desafio.

Marcelo Auler não costuma escrever fora da atividade profissional, mas devora os jornais diários e, com alguma regularidade, procura bons livros.
— Porém, sou fanático mesmo é por processos judiciais. Se o caso for bom, não me incomodo de ler, tenha quantos volumes tiver.

Sobre o uso das novas tecnologias em confronto com o jornalismo tradicional, ele vê a competição como positiva. Alerta, no entanto, para o risco do superficialismo da web. Segundo Marcelo, a exigência da agilidade neste novo meio tem provocado a preguiça dos profissionais de apuração.
— Muita coisa é repassada sem uma melhor checagem. Mas a internet, como não tem a limitação do papel, tem permitido também matérias mais desenvolvidas. Ou seja, tem o seu lado positivo. Basta saber usar.

Exemplo disso foi seu levantamento sobre os policiais federais que respondem a processos ou são investigados, em que a consulta online foi fundamental:
— Levei meses freqüentando a sala de consultas da Justiça Federal do Rio, único lugar, na época (final de 1996), com esse tipo de acesso. Hoje, faria isto de casa, pela internet, numa única madrugada, sem maiores problemas. Lembra do sofrimento de emendar texto quando se escrevia em laudas? Agora mesmo, lendo o livro do Ricardo Kotscho “Do golpe ao Planalto, uma vida de repórter”, a gente vê a dificuldade que era passar matérias por telex — o que cheguei a sentir na pele no início da carreira. Com computadores e internet, isto já não acontece mais. As comunicações telefônicas hoje são facílimas. A internet permite contato rápido, pesquisas enormes, e facilita até as entrevistas. As gravações digitais, as máquinas de foto instaladas em celulares, tudo isto só ajuda. Não sei como a tecnologia pode atrapalhar.

 

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