Cota: um tema malvisto nas redações


16/10/2009


Ancelmo Gois, Jesus Chediak, Carlos Medeiros, Kássio Motta e Angélica Bashti

Os resultados de três pesquisas apresentados durante o Seminário “Comunicação e Ação Afirmativa: O Papel da Mídia no Debate sobre Igualdade Racial” alertam para uma questão preocupante sobre a mídia brasileira. Diante dos dados apresentados, a impressão que se tem é de que o noticiário dos veículos de comunicação é parcial, e não esclarece, positivamente, o ponto de vista das fontes favoráveis às políticas de Ação Afirmativa e ao sistema de cotas para negros nas universidades públicas.

Um dos estudos demonstrados foi a pesquisa “Da opinião publicada à opinião pública; a fabricação de um consenso anticotas no Brasil”, da Prof. Doutora em Comunicação, Rosangela Malachias, do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdade (Ceert), que no período de 2001 a 2008 fez um monitoramento do noticiário do Globo, Estadão e da Folha de S. Paulo, além das revistas Veja, IstoÉ e Época.

A análise incluiu 1.029 matérias dos três jornais e 121 nas três revistas, e concluiu que “os jornais são contra a criação de políticas que incentivem a mobilidade social dos negros”. De acordo com o estudo do Ceert, na Folha 46,7 % dos textos tinham viés contrário às cotas, contra 20% favoráveis. No Estadão, 100% dos artigos de Opinião e editoriais foram contrários. No Globo, 56,5% dos textos tiveram um enquadramento desfavorável às cotas. O cientista social João Ferez, pesquisador do Iuperj apresentou o trabalho “A grande mídia e as cotas: um estudo preliminar”. Analisado o noticiário do Globo, de 2005 a 2009, verificou-se que 46% dos textos eram contrários a Ação Afirmativa, sendo 24% a favor.

Juntando todos os formatos de textos — entrevistas, editoriais, cartas, colunas, notas, reportagens e artigos de Opinião — a pesquisa dos pesquisadores do Iuperj revela que 50% do material produzido no Globo no período citado foram desfavoráveis às políticas de cota, 23% a favor e 27% ambivalente e/ou neutro. No caso da revista Veja, no período de 2001 a junho de 2009, o tema Ações Afirmativas com viés racial teve 77% de textos contrários, contra 14% favoráveis.

O seminário foi promovido pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), em parceria com o Conselho Municipal dos Direitos do Negro (Comdedine) e a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira), com apoio da Coordenadoria Especial de Promoção da Igualdade Racial do Município do Rio de Janeiro (Cepir). E contou com a participação de jornalistas, acadêmicos, professores, ativistas sociais, representantes de organizações do Movimento Negro, que lotaram a Sala Belisário de Souza da ABI, nos dias 14 e 15 de outubro, para debater sobre o tema.

No primeiro dia do encontro, o painel em debate foi “Cobertura da Ação Afirmativa”, cujos palestrantes foram Jesus Chediak, Diretor de Cultura e Lazer da ABI; Ancelmo Gois (Globo), Kassio Motta, jornalista e antropólogo; Carlos Alberto Medeiros, Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e coordenador da Cepir; Angélica Bashti, membro da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira), que atuou como mediadora.

No segundo dia foram formadas duas mesas. A primeira para debater o painel “A responsabilidade social da mídia e o debate sobre raça”, com as participações de Muniz Sodré, professor titular da UFRJ e Presidente da Fundação Biblioteca Nacional; e Márcia Neder, diretora de redação da revista Claudia. A mesa seguinte — “Da opinião publicada à opinião pública: A fabricação de um consenso anticotas no Brasil” — contou com os debatedores Miriam Leitão, colunista de Economia do jornal O Globo; Rosângela Malachias, Doutora em Comunicação e membro do CEERT; e João Ferez, Prof. Doutor e pesquisador do Iuperj.

Com base nos estudos que foram apresentados durante o Seminário, a visão que se tem coincide com a do jornalista norte-americano Elis Cose, ex-editor para a América Latina da revista Newsweek, de que “a mídia nacional é virtualmente branca”. Cose acha que na maioria dos veículos de comunicação brasileiros, como rádio, televisão, jornais, revistas, sites e livros os negros recebem tratamento editorial desigual.

No seminário realizado na ABI debatedores e platéia avaliaram que o acesso da população afro-brasileira à mídia é reduzido. E a cobertura que os veículos dedicam aos cidadãos de origem africana é geralmente desfavorável. Todos concordam que a comunicação é uma ferramenta com poderes ilimitados. Fatores como a influência que os veículos de mídia exercem sobre os fatos que cobrem; a capacidade que têm de formar opinião e o controle que o setor político mantém sobre eles foram apontados como elementos que comprovam esta teoria.

Diálogo

Jesus Chediak abriu o seminário falando sobre o sigbificado da sua realização na sede da ABI, entidade que nos seus 101 anos de existência sempre foi defensora dos direitos humanos e das liberdades de imprensa e de expressão.
— Acho importante que a ABI acolha esse seminário sobre a liberdade de expressão dos negros nos meios de comunicação. Sobre esta questão eu acho que na medida em que a população negra consiga ganhar espaços na sociedade ela terá uma exposição mais aberta e favorável na mídia.

Citando o exemplo da eleição de Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos, Chediak disse acreditar que no Brasil também os negros possam ter mais visibilidade na mídia:
— Vejamos o caso do Obama, que é um negro ocupando o mais alto cargo do planeta. No Brasil pela primeira vez estamos tendo duas novelas com protagonistas negras. Isto é um fato importante porque a auto-estima da população negra é fundamental para que ela possa crescer dentro da sociedade que nós vivemos, que como sabemos é racista.

Ancelmo Gois

A palavra foi passada para o jornalista Ancelmo Gois. O colunista fez uma exposição curta, ressaltando de início que o auditório lotado era uma prova de que a sociedade vem alcançando avanços na sua luta pela democratização da informação e pela solidariedade aos segmentos que sofrem com o preconceito.

Ancelmo disse que procura fazer com que diariamente a sua coluna seja um espaço para este debate democrático, além de transmitir um pouco mais de compreensão sobre a sociedade brasileira. Com relação às políticas de Ação Afirmativa o colunista de o Globo falou o seguinte:
— Desde o início eu fui a favor das cotas, apesar de achar que esta não é a solução perfeita, mas vamos trabalhar nisto. Quem me manda sempre notícias sobre essa questão é o Frei David, e não tem uma delas sobre o desempenho dos alunos cotistas que eu não publique e faço isto animado de estar abrindo esse espaço.

Ancelmo Gois defendeu a idéia de que é possível reverter a posição da maioria dos veículos de comunicação, em relação às notícias do interesse da população negra. Segundo ele, ao invés de “satanizar as grandes organizações de mídia”, o melhor caminho a fazer é tentar uma aproximação com vistas a conseguir o diálogo: “O Betinho fez isso e conseguiu abertura para conversar com gente que pensava diferente dele, e o Frei David, a meu juízo, também faz isso muito bem. Dentro do Globo ele tem conseguido dialogar.

Em relação ao jornal O Globo, Ancelmo Gois fez questão de citar os exemplos do jornalista Elio Gaspari e Miriam Leitão:
— O Elio já escreveu mais de uma vez sobre o sistema de cotas, inclusive duelando intelectualmente com duas pessoas dentro do jornal. A Miriam Leitão, a jornalista mais importante de Economia do País, também está no jornal trabalhando nesse assunto muito bem. Temos o Roberto da Matta, cientista político que consegue falar a linguagem do povo, e a minha coluna, que como em qualquer outro veículo de imprensa, é um dos espaços mais lidos do jornal. Abrimos muitos espaços para fotografias de artistas e personagens negros e sambistas da Lapa e nunca ninguém veio pedir que eu não fizesse isto.

Teoria conspiratória

Kassio Motta

Segundo palestrante do primeiro dia de debates, o antropólogo Kassio Motta discordou de Ancelmo Gois em relação à “satanização da mídia”. Ele acha que o conceito que as pessoas favoráveis a cotas têm sobre o critério editorial dos veículos é pertinente. Em seguida, para balizar o seu ponto de vista, apresentou dados da sua pesquisa “Análise quali-quantitativa dos textos publicados pelo jornal O Globo sobre políticas de cotas para negros nas universidades públicas”, que faz uma análise das notícias sobre políticas de Ação Afirmativa publicadas no jornal carioca, entre os anos de 2002 e 2004.

Kassio Motta disse que fez esse estudo porque tinha o interesse de ter uma análise mais profunda para entender o discurso racial que é apresentado dentre dos veículos. Escolheu o Globo porque na época que fez o trabalho de final de graduação este era o jornal de maior circulação dentro do Rio de Janeiro, e o segundo maior do Brasil. A circulação do veículo era de 230 mil jornais/dia, atrás apenas da Folha de S. Paulo.

O pesquisador usou como metodologia fazer um corte temporal que abrange o período de março de 2002 — ano em que a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e a Universidade do Norte Fluminense (UENF) divulgaram os primeiros vestibulares com reservas de vagas para negros — até junho de 2004.

Foram analisados 311 textos, distribuídos em três diferentes categorias (reportagens, entrevistas, notas de coluna), considerando aqueles que continham palavras ou expressões como “reserva de vagas”, “cotas”, “cotistas” e “SADE” (Sistema de Acompanhamento de Desempenho do Ensino Médio). A pesquisa também usou a seguinte classificação para matérias: neutra, positiva e negativa. De acordo com Kássio Motta, os textos foram classificados de acordo com seus conteúdos.

Em relação à classificação dos editoriais e artigos de Opinião, a pesquisa do antropólogo demonstrou que entre 2002 e 2004, de um total de 41 textos, 27 foram negativos, contra 14 positivos. Quando se trata das matérias, o estudo mostra que de um total de 141 reportagens, 48 foram negativas, 85 neutras e apenas oito classificadas como positivas.

Kassio Motta despertou mais ainda a curiosidade da platéia e dos colegas de mesa sobre o seu estudo quando demonstrou que na seção Cartas, os textos seguem a mesma tendência dos editoriais e dos artigos: “As cartas normalmente seguem a linha dos editoriais publicados anteriormente, isso esclarece a força do editorial na opinião pública”, afirmou o antropólogo. E concluiu:
— Eu confirmei com este trabalho que, no período que eu apurei, a cobertura do Globo é parcial, no sentido de mostrar com muito mais evidência, intensidade as opiniões contrárias ao sistema de cotas em matérias, cartas dos leitores e editoriais. Não vejo problema algum em um veículo se posicionar contra uma política pública qualquer, mas o problema é a parcialidade como a questão é apresentada.

Carlos Alberto Medeiros elogiou o trabalho apresentado por Kassio Motta dizendo que era uma contribuição que fazia do debate “um ato potencial de profunda riqueza”. Segundo o coordenador da Cepir, desde que o Brasil adotou as políticas de Ação Afirmativa percebe-se que no campo contrário há um segmento que nega ou reduz o preconceito racial na sociedade brasileira como se isso isentasse o Brasil de fazer alguma coisa contra:
— Essa é a visão menos sofisticada e mais fácil de ser enfrentada do ponto de vista teórico, já que eles têm aversão a pesquisas, a ponto de desqualificar os institutos que as realizam, como Ipea e IBGE, e os pesquisadores, afirmou Medeiros que chama essa prática de teoria conspiratoria.

Miriam Leitão, Carlos Medeiros, Rosângela Malachias e João Feres

Monopólio da fala

Na quinta-feira, 15 de outubro, segundo dia de debates, a primeira pessoa a se pronunciar foi Márcia Neder, Diretora de Redação da revista Claudia, publicada pela editora Abril, que recentemente aderiu a uma campanha contra o preconceito racial na mídia. Márcia disse para a platéia que lotou a Sala Belisário de Souza, que essa não é uma questão isolada, pois em 48 anos, desde a sua criação, a revista Claudia tem como principal compromisso a defesa das liberdades da mulher de maneira geral, de respeito às diferenças:
— Nós sempre falos de racismo e do preconceito nas suas várias formas. Nós estamos muito atentos a essas questões polêmicas . Mas é preciso entender que a mídia não é uma ONG. Ela reflete a sociedade e a sociedade brasileira é racista. Mudar um comportamento social e uma cultura é algo difícil. A mídia tem o papel de lutar contra essa questão. Nós na Claudia fazemos isso de forma cuidadosa, por causa do posicionamento do mercado. Mas isto nunca nos impediu de, em quase meio século, lutarmos contra as desigualdades. Acredito em mudanças na sociedade, os contatos com as nossas leitoras nos apontam isso.

Muniz Sodré

Para o Muniz Sodré o racismo é um mal-estar civilizatório, que está no Brasil como em todo o mundo. Segundo o professor, a escravidão foi um processo marcado por anacronismo e mácula. Ele citou o livro “O problema nacional brasileiro”, de Alberto Torres, um autor do século XIX, que escreveu que uma das poucas coisas organizadas no Brasil foi a escravidão. afirmou Muniz Sodré, lembrando que algumas questões oriundas do período escravocrata reverberam até hoje, uma espécie de saudade do escravo que se deu inclusive com Joaquim Nabuco, o grande abolicionista, quando disse: “A escravidão permanecerá por muito tempo como uma característica nacional do Brasil. Ela envolveu-me como uma carícia muda, toda a minha infância”.

Para Muniz Sodré a grande questão é entender como esse pensamento manifestado por Alberto Torres e Joaquim Nabuco repercutem atualmente:
— Eu diria que a base da organização nacional continua sendo dada pela escravidão. Ou seja, essa estrutura não desapareceu juridicamente ou economicamente.

Muniz provocou a atenta platéia com o seu discurso quando se referiu ao monopólio da fala que acontece no Brasil, com uma prática muito comum nos meios acadêmicos e formadores de opinião em relação aos cidadãos dos segmentos discriminados. Disse que a saudade da escravidão continua no negro “como bom objeto de ciência”:
— O bom objeto de ciência para sociólogos e antropólogos é aquele que é mudo. Porque quando o objeto que se está começando a entender não fala é possível dizer qualquer coisa sobre ele. Podemos matematizar, formalizar, fazer estruturalismo e funcionalismo em cima dele. Daí que o bom objeto de ciência é como índio em filme americano: só é bom morto.

Outra questão que Muniz Sodré compara com a saudade da escravidão é a questão da cidadania negra, que se manifesta tanto por parte de mídia quanto pela classe dirigente, ou mesmo nas pessoas que têm posição de poder ou não:
— Este é um país patrimonialista e no patrimonialismo o capital chega às suas mãos por família, compadrio, casamentos. Nesse patrimonialismo além do capital tem um objeto patrimonial que é a cor. Quem nasce com a pele clara não precisa necessariamente ser racista, porque a ordem social já o coloca bem mesmo quando ele é pobre. Por isso é uma falácia a redução da questão racial a uma questão de classe social. Esta não esgota a questão étnica.

Reportagem editorializada

Miriam Leitão

Miriam Leitão disse que o grande problema sobre a postura editorial dos veículos ultrapassa a questão de ser contra ou a favor das cotas e políticas de Ação Afirmativa. Para ela o caso mais grave é quando a opinião do editorial extrapola para a reportagem:
— Houve um momento em que as empresas tomaram a sua decisão de escrever editoriais contra as cotas, o que é um direito. Mas aí aconteceu uma coisa pior que foi extravasar o espaço do editorial para o da reportagem, que passou a ficar também editorializado.

Ao final do seminário, Carlos Alberto Medeiros elogiou a iniciativa da ABI em abrigar o evento, ressaltando os seus aspectos positivos, como a oportunidade de reunir jornalistas, pesquisadores e militantes para discutir um tema importante que é o papel da mídia em informar sobre as questões que envolvem Ação Afirmativa.

Na opinião do coordenador da Cepir outros elementos que devem ser destacados a favor do encontro foram o bom comparecimento do público — que mostrou o interesse que a questão desperta —, e a alta qualidade dos trabalhos apresentados e das intervenções dos debatedores:
— O conjunto dos trabalhos corrobora a visão de que a mídia de maneira geral está comprometida com uma visão específica da sociedade brasileira, que é o ponto de vista da elite sobre excepcionalidade brasileira em termos das relações raciais.

Medeiros disse que tinha apenas uma coisa a lamentar:
— Não alcançamos todos os objetivos porque não conseguimos romper o bloqueio, a própria mídia, apesar de pautada, não compareceu para cobrir o evento.

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