Cinegrafista da Band atingido por rojão tem morte cerebral


Por Cláudia Souza e Igor Waltz*

10/02/2014


O cinegrafista teve morte cerebral decretada (Crédito: Acervo Pessoal/TV Band)

O cinegrafista teve morte cerebral decretada (Crédito: Acervo Pessoal/TV Band)

Santiago Ilídio Andrade, cinegrafista da TV Bandeirantes atingido por um rojão durante um protesto contra o aumento das passagens, teve morte cerebral diagnosticada nesta segunda-feira, 10 de fevereiro. O repórter de 49 anos estava internado desde a última quinta, dia 6, no CTI do Hospital Souza Aguiar, no Centro. De acordo com informações da emissora, a família do profissional irá doar os órgãos de Andrade.

O repórter cinematográfico havia sofrido afundamento do crânio e foi submetido a uma cirurgia de aproximadamente quatro horas. Desde então, estava em coma induzido no CTI da unidade e seu estado de saúde era considerado grave.

A explosão foi registrada por fotógrafos, cinegrafistas e câmeras de vigilância instaladas nas proximidades da Central do Brasil. No sábado, 8 de fevereiro, pós a divulgação das imagens, o estudante universitário e tatuador Fábio Raposo, de 22 anos, se apresentou à 17ª DP (São Cristovão) e confirmou à polícia ter passado o rojão ao homem que acendeu o artefato que atingiu o cinegrafista, mas disse não conhecer sua identidade.

No domingo, 9 de fevereiro, a Polícia Civil do Rio de Janeiro prendeu Raposo, indiciado como coautor da explosão que matou o cinegrafista. Ele foi detido na casa dos pais, no Recreio dos Bandeirantes, e levado na manhã desta segunda-feira para o Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, na Zona Oeste. A polícia pedirá que seja feito um retrato falado na tentativa de identificar e localizar o responsável.

Pela explosão que feriu gravemente o profissional da Band, Raposo foi indiciado por homicídio qualificado pelo uso de artefato explosivo e pelo crime de explosão. Se condenado, ele pode receber uma pena de mais de 30 anos de prisão. Ele teve prisão preventiva decretada por 30 dias.

O advogado Jonas Tadeu Nunes, responsável pela defesa de Raposo, deu ao delegado Maurício Luciano o nome e o CPF do autor do disparo do rojão. O advogado disse que também se ofereceu para defender o autor do disparo e vai pedir que se entregue. “Acho uma bobagem ele continuar foragido”, disse o delegado.

Nunes afirmou que acredita que, com a apresentação do nome, Raposo terá o benefício da delação premiada. “O instituto da delação premiada, ela foi concluída, sim. Naquele momento, dentro da delegacia, passou a ser um momento muito tenso. Em um determinado momento em que eu fiquei sozinho com o Fábio, ele pediu que eu procurasse uma determinada pessoa e que essa pessoa ia me passar a identificação do rapaz. Eu já tenho essa identificação, mas eu vou passar para a autoridade policial. Eu já tenho o nome do rapaz, eu já tenho a qualificação dele e logo, logo vai estar nas mãos da autoridade policial para o cumprimento da delação premiada”, afirmou o advogado durante a entrevista.

O advogado aproveitou para reafirmar que Fábio não conhece o suspeito: “Esse rapaz que acendeu o rojão e o Fábio se conhecem apenas de manifestações. Eles não pertencem a nenhum grupo e não foram com nenhuma finalidade. Não levaram nenhum rojão. O que o Fábio declara é que o rojão foi achado. E, como eles se encontraram, o rapaz pediu que passasse o rojão. Aquilo tudo é verdadeiro. Foi apenas uma inconsequência, um ato de irresponsabilidade e de negligência de acender o pavio no meio daquela confusão toda e acontecer o que aconteceu de forma lamentável e triste com o cinegrafista”.

O advogado disse também que não tinha conversado até a tarde desta segunda com o rapaz que acendeu o rojão, mas ficou sabendo por uma pessoa que conhece seu cliente que ele está abalado.

“Os dois estão muito abalados com isso, e a verdade é essa. Não conversei com o rapaz, mas conversei com pessoa muito próxima a ele. Ele está muito abalado, muito nervoso, desesperado, já pensou até em suicídio e tudo. Eu estou aproveitando, por intermédio dessa pessoa, a oportunidade para convencê-lo a se entregar, a se apresentar espontaneamente à autoridade policial”.

Entidades pedem punição

Os presidentes da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert), Daniel Slaviero; da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Celso Schröder; e da Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio (Arfoc), Luiz Hermano, defenderam nesta segunda-feira, dia 10, punição aos responsáveis pelo ataque ao cinegrafista  da TV Bandeirantes.

“Nós, jornalistas de imagem, exigimos que as autoridades de segurança do estado do Rio de Janeiro instaurem imediatamente uma investigação criminal para apurar quem defende, financia e presta assessoria jurídica a este grupo de criminosos, hoje assassinos, intitulados black blocs, que agridem e matam jornalista e praticam uma série de atos de vandalismos contra o patrimônio público e privado”, diz o texto da Arfoc, assinado por Hermano.

A Abert e a Fenaj também se manifestaram sobre o caso após participarem, no Senado Federal, de uma reunião temática do Conselho de Comunicação Social (CCS) do Congresso Nacional. O presidente da Comissão Temática da Liberdade de Expressão do CCS, Alexandre Jobim, que é representante das empresas de imprensa escrita, vai pedir ainda a aprovação de nota de repúdio contra as agressões a trabalhadores da imprensa, na primeira reunião do órgão, no Senado. Após a aprovação pelo conselho, os conselheiros pretendem encaminhar a nota ao presidente do Congresso, senador Renan Calheiros, ainda nesta segunda-feira, dia 10.

Relatório da conselheira Wrana Panizzi, discutido pela Comissão Temática da Liberdade de Expressão na manhã de hoje, recomenda ainda a aprovação de três projetos de lei em tramitação no Congresso que prevêem o uso de coletes à prova de bala por profissionais da comunicação. São eles os projetos de lei do Senado (PLS) 743/11 e 699/11 e o Projeto de Lei 2.658/11, em tramitação na Câmara dos Deputados. Pelas propostas, os coletes teriam que ser fornecidos pelas empresas empregadoras quando o profissional fosse cobrir operações policiais. O relatório ainda precisa ser aprovado pela plenária do conselho. A intenção da comissão temática é evitar casos como o da agressão ao repórter cinematográfico da TV Bandeirantes

Para o presidente da Abert, o governo deve punir exemplarmente os responsáveis pela agressão. “Toda vez que um profissional de imprensa é impedido de exercer sua atividade, quem mais perde é a sociedade brasileira por deixar de ser informada”, disse Slaviero.

Celso Schröder lamentou a morte do jornalista e disse que o fato “não pode passar desapercebido, não pode ser mais uma estatística”. “Exigimos do Estado brasileiro uma pronta reação para barrar esse tipo de violência. Seja quem for – as investigações já têm um suspeito –, mas seja quem for o autor, é preciso chegar a um fim. Todos os mandantes, os responsáveis, todos os autores intelectuais ou físicos dessa morte devem ser punidos”, declarou.

Para o jornalista, “a democracia foi atingida” com a morte de Santiago. “A base democrática da informação foi atingida. Temos que reagir a isso”, disse.

A Abert, a Fenaj e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) pediram uma audiência com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para discutir o assunto. “Queremos externar nossa preocupação com essa escalada de violência e escutar do Poder Executivo quais são as medidas que eles pretendem tomar para que isso não ocorra mais no nosso país”, disse Slaviero. A audiência ainda não foi marcada, de acordo com o presidente da Abert.

O Conselho de Comunicação Social também poderá marcar uma audiência pública com presença dos ministros Cardozo e Maria d o Rosário (Direitos Humanos). “Queremos que o governo também crie e adote politicas e procedimentos necessários para que  garanta o trabalho dos profissionais e dos manifestantes que têm pacificamente demostrado a sua insatisfação e não desse grupo minoritário de baderneiros e arruaceiros”, afirmou Slaviero.

Carreira

Cinegrafista há mais de 20 anos, Santiago trabalhava na Band havia 10. Na emissora, participou de diversas reportagens sobre as dificuldades enfrentadas pelos usuários de transporte público na cidade. A cobertura jornalística do tema – que motivou o início dos protestos no Rio em 2013, após o anúncio do reajuste da tarifa de ônibus – lhe rendeu dois prêmios jornalísticos de Mobilidade Urbana, em 2010 e 2012, ao lado do repórter Alexandre Tortoriello.

Desde 2013, ele registrou para a TV Bandeirantes diversas manifestações na cidade e estava escalado para participar da cobertura jornalística da Copa do Mundo este ano.

Além disso, Santiago Andrade participou de grandes coberturas, eventos esportivos e incontáveis reportagens sobre a “guerra” contra o tráfico de drogas nos morros cariocas. No final de 2013, o cinegrafista participou do curso para jornalistas em áreas de conflito, ministrado pelo Exército.

O cinegrafista também atuou na área de cultura. Em 2012 e 2013, foi convidado para fazer reportagens, ao lado da repórter Camila Grecco, sobre o carnaval de San Luiz, na Argentina.

Carioca, criado em Copacabana, na Zona Sul do Rio, Santiago tinha outras duas paixões, além do jornalismo: o Flamengo, seu time de coração, e a música. Aficionado por discos, ele falava com orgulho da época em que foi DJ.

O profissional deixa uma filha e três enteados. Em entrevista emocionada, a mulher do cinegrafista, Arlita Andrade disse que “falta amor” às pessoas responsáveis por ferir gravemente seu marido. A declaração foi dada antes da divulgação da morte cerebral do cinegrafista. Eles destruíram uma família. Uma família que era unida, muito unida mesmo”, lamentou Arlita Andrade.

Depoimento Arlita Andrade

“Hoje [domingo], quando entrei, senti que ele não estava nem mais lá. Ele não estava lá. Eu fiquei pensando, eu tenho que botar para fora, tenho que mostrar que ele não pode estar indo embora em vão.”

A mulher do cinegrafista contou como soube que Santiago havia sido ferido.

“Deu 20h45 [de quinta-feira], eu liguei e não foi ele que atendeu. Eu falei: Santiago? Disseram: não, aqui é… falaram o nome do cinegrafista. Falei: onde está o meu marido? Ele falou: está no Souza Aguiar, ele levou uma bomba na cabeça e está em estado muito grave. Levei um susto e achei que não tinha entendido. Eu falei: ele foi fazer alguma matéria sobre alguém que levou uma bomba? A pessoa falou: não, foi ele mesmo”, disse a mulher de Santiago.

Arlita viu as imagens que mostram o marido sendo atingido por um rojão e disse que tem recebido informações sobre a investigação policial.

“Meu marido está indo embora, eles destruíram uma familia. Uma família que era unida. Acho que esses rapazes que fizeram isso, eles não tiveram, talvez, mães que não deram os ensinamentos que dei para os meus filhos. Como é que a gente vai ter paz no mundo se a gente não ensina para os filhos da gente? Então, isso é uma coisa que me deixou muito triste porque ele não merecia, é uma pessoa muito boa. Ele procurava sempre ajudar todos”.

Arlita disse ter visto a entrevista de Fábio Raposo, preso no domingo (9) após confirmar em depoimento à polícia que passou o rojão para outro homem responsável por acender o artefato em meio à manifestação.

“Eu vi ele pedindo desculpa, mas acho que o que falta neles é o amor, o amor pelas pessoas, porque a gente não faz isso. Ele disse que foi sem intenção. Que seja, mas meu marido estava trabalhando, estava mostrando uma manifestação. Manifestação pode fazer, mas não precisa dessa violência. Perdoar? Meu marido está indo embora, eles destruíram uma familia. Uma família que era unida, muito unida mesmo. Os médicos disseram que o estado dele é grave, disseram de manhã que teriam desligado os aparelhos porque estavam somente aguardando ou milagre ou a morte cerebral.”

De acordo com Arlita, Santiago fazia planos para a aposentadoria. “Ele tem 49 anos, então tinha muita coisa pela frente. Ele falou: quando me aposentar, você não vai mais trabalhar em creche, não. Você vai ficar comigo para a gente aproveitar a vida. O que mais me deixou triste é que ele estava fazendo trabalho para mostar para o mundo, ele não estava fazendo um trabalho para ele, ele estava fazendo trabalhando para mostrar para o mundo e ele mesmo não vai ver. Eu peço que essas pessoas não sejam violentas, que não façam isso. Isso não vai levar a nada. O nosso Brasil só vai ser mal visto, ninguém vai querer olhar depois para a nossa terra. Eu espero que esses rapazes pensem na mãe, pensem na família, que a família é tão importante. Meu marido está indo embora, podem ser outros, pode ter outra família que pode ser destruída com isso. Que eles façam uma coisa [manifestação] pacífica, porque só sendo pacífica a gente consegue as coisas. Não adianta essa violência toda. Meu marido é mais uma pessoa, mas não quero que o nome dele fique esquecido, porque ele fez muito mostrando tudo, mostrando as misérias, mostrando tudo que aconteceu no mundo, no Rio, nas tragédias, nos morros, nas manifestações. Ele fazia tudo com maior carinho, tanto que mesmo caindo a gente nota [nas imagens] que ele foi segurando a câmera. Meu marido está indo embora e não tem preço para isso. Eu queria o meu marido, junto com a minha família. Era uma família muito feliz”.

*Com informações do G1, UOL, revista Exame e Agência Câmara.

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