28 de setembro de 2022


A imprensa capixaba nas mãos da ditadura


03/04/2009


Muito boa a matéria de capa do terceiro número da revista a’angaba sobre a ação da censura nos jornais e veículos de mídia no Espírito Santo, no período da ditadura, cuja repressão impediu muitos jornalistas de exercerem a sua função.

De autoria de Álvaro José Silva, editor executivo da revista, a reportagem faz um relato sobre o duro golpe sofrido pelos jornalistas capixabas após a repressão implantada pelo regime militar, que governou o Brasil de 1º de abril de 1964 até o processo de restauração política, em 1985. Álvaro trabalhava no jornal A Gazeta, no Centro de Vitória, quando foi editado o Ato Institucional nº 5 (AI-5), em dezembro de 1968, que confiscou os direitos constitucionais dos brasileiros e instalou de vez a censura nos órgãos de comunicação social.

Conta que ao lado da sala onde ficava o editor chefe, na parede em frente às mesas dos secretários de redação, tinha um painel de cortiça, onde os censores afixavam as proibições. “Devidamente presas com alfinetes apropriados. E ficaram ali durante algum tempo, para lembrar a todos que esquecer as ordens recebidas podia dar problemas. E também provocar riscos de vida”, lembra Álvaro José Silva.

O jornalista recorda que as proibições eram apresentadas na forma de “bilhetinhos” com textos datilografados, cuja mensagem se iniciava com a frase “De ordem superior…”, para em seguida indicar o trecho ou o assunto que não poderia ser mencionado nas matérias jornalísticas.

Os bilhetinhos podiam informar desde a proibição de publicação ou veiculação de notícias sobre as arbitrariedades do próprio Governo, ou até mesmo a divulgação de um evento esportivo. Uma dessas mensagens, reproduzida pela revista, datada de 7 de maio de 1973, diz o seguinte: “Determino seja mantida a proibição, divulgação notícias (sic), comentários, transcrição e outras matérias, através dos meios de comunicação e meios social escrito (sic), falado, televisado, sobre apreensão, suspensão, censura prévia e outras medidas legais repressivas adotadas contra editoras, livros, revistas e jornais”.

Em 10 de julho de 1971, a Subdelegacia Regional da Polícia Federal no Espírito Santo expediu a seguinte circular: “Por ordem do Exmo. Ministro da Justiça fica proibido qualquer publicação que vise indispor o público desportivo com o Governo brasileiro, a respeito de declarações sobre o adiamento das homenagens oficiais ao jogador Pelé”. O documento foi distribuído aos jornais A Gazeta, O Diário, A Tribuna, além das emissoras Rádio Espírito Santo, Rádio Capixaba e Rádio e TV Vitória. 

Memória

Se hoje esses documentos puderam ser recuperados foi graças à iniciativa do jornalista Marien Calixte, que teve a boa idéia de guardar os bilhetinhos e circulares e levar para casa. Atualmente, ele prepara um livro sobre o assunto.

Marien Calixte nasceu no Rio de Janeiro, mas se transferiu para o Espírito Santo, onde dirigiu os jornais A Gazeta e O Diário. Como diretor deste último, esteve envolvido com o noticiário do caso da morte da menina Aracely Cabrera Crespo, que foi notícia na mídia no Brasil inteiro e durante muitos anos foi o foco das manchetes dos jornais do Espírito Santo, provocando a ira das autoridades de segurança locais. O filho de um dos proprietários de uma rede de lojas estava envolvido no assassinato da jovem, por causa disso os donos dos jornais receberam vários pedidos para que deixassem de noticiar o caso.

Marien Calixte não cedeu às pressões, nem quando foi agredido pelo Secretário de Segurança do Espírito Santo, o então coronel do Exército Hugo Eisenlohr, em uma festa nas dependências da Escola de Aprendizes de Marinheiros (Eames), localizada em Vila Velha. O Diário foi o único jornal a fotografar a menina morta. A polícia quis obrigar Marien a ceder os negativos, mas ele os escondeu em sua casa, onde estão até hoje.

Esta e outras histórias foram resgatadas pela matéria de Álvaro José Silva sobre a ditadura militar no Espírito Santo, que atingiu muitos profissionais de imprensa que foram violentamente afastados da profissão.

De acordo com a revista a´angaba, entre os jornalistas perseguidos pela ditadura no Espírito Santo — e que tiveram que abandonar as redações — estão Victor Costa, Antonio Germano, Darly Santos, Carlos Chenier, Zélia Stein, Otacílio Nunes, Audifax Amorim e Hermógenes Lima Fonseca. 

Pedro I foi censurado

Um fato curioso dá bem a medida do tamanho das arbitrariedades que foram cometidas na época do regime militar: o ofício do Departamento de Polícia Federal encaminhado a todos os jornais, cujo texto é o seguinte: “Está proibida a publicação do decreto de D. Pedro I, datado do século passado (l821), abolindo a Censura no Brasil. Também está proibido qualquer comentário a respeito”.

A reportagem de Álvaro José Costa chama a atenção para o absurdo, mostrando que 150 anos depois de a liberdade de imprensa ter sido instituída por D. Pedro I, em 1821, “foi censurada pela ditadura militar”.

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