Após greve, Caros Amigos demite equipe


11/03/2013


Editores, jornalistas e designers gráficos da Caros Amigos, em greve desde a última sexta-feira, dia 8 de março, após ameaças de cortes de pessoal e redução dos salários, foram demitidos nesta segunda-feira, 11 de março. Em reunião realizada no fim da tarde, a equipe de redação responsável pela edição mensal da revista, pelo site Caros Amigos e por edições especiais e encartes da Editora Casa Amarela foi dispensada pelo diretor-geral da publicação, Wagner Nabuco, sob o argumento de “quebra de confiança”.
 
A greve dos funcionários foi motivada pelo anúncio de corte da folha salarial em 50%, o que iria gera a demissão de parte da equipe ou redução do salário dos 11 funcionários de 32 mil pra 16 mil ao todo. Os cortes seriam motivados pelo pagamento de dívidas fiscais acumuladas pela publicação desde o ano 2000 e pelo déficit operacional entre receitas da editora e custos fixos, incluindo os salários.
 
De acordo com a jornalista Gabriela Moncau, os integrantes da redação foram convocados por Nabuco através de um e-mail, no domingo, 10 de março, para a reunião desta segunda. “Tínhamos a perspectiva de que fosse uma reunião para conversar sobre a situação da revista, mas não foi isso que aconteceu, ele demitiu a todos”, conta. 
 
Em nota divulgada divulgado na página do movimento grevista, os integrantes da equipe denunciaram que já vinham sofrendo com “a crescente precarização das nossas condições de trabalho, seja pela ausência de registro na carteira profissional, o não recolhimento das contribuições do FGTS e do INSS”.
 
Ainda segundo o comunicado, sempre houve diálogo aberto entre os profissionais e a direção para melhorias nas condições de trabalho. “Em todos os anos entre 2009 e 2013, mantivemos o diálogo salutar com a Direção, buscando negociar melhores condições para desenvolvermos o trabalho com o qual estávamos comprometidos. Isso foi feito por meio de cartas de toda a redação à direção, conversas de comissões da redação com a direção e inúmeras negociações entre o editor-chefe e diretor-geral”, afirmam.
 
Os demitidos buscarão os meios legais e na próxima terça-feira, 12 de março, já têm uma reunião agendada com advogado trabalhista. Até o fechamento desta matéria, a revista Caros Amigos ainda não havia se manifestado sobre o assunto.
 
Leia abaixo o comunicado completo divulgada pelos integrantes da equipe:
Diretor da Caros Amigos demite equipe da redação em greve
 
O diretor-geral da revista Caros Amigos, Wagner Nabuco, chamou hoje (11/03/2013) a equipe de redação e anunciou que a empresa está demitindo todos os trabalhadores que se encontravam em greve desde sexta-feira, dia 08/03, alegando “quebra de confiança”.
 
Nós, integrantes da equipe de redação da revista Caros Amigos – responsáveis diretos pela publicação da edição mensal, o site Caros Amigos, as edições especiais e encartes da Editora Casa Amarela – lamentamos a decisão da Direção. Consideramos a precarização do trabalho e a atitude unilateral como passos para trás no fortalecimento do projeto editorial da revista, que sempre se colocou como uma publicação independente, de jornalismo crítico e de qualidade, apoiando por diversas vezes, inclusive, a luta de trabalhadores de outras áreas contra a precarização no mercado de trabalho.
 
A greve é um instrumento legal, previsto na Constituição brasileira e direito de todos os trabalhadores. Foi adotada como medida para tentar melhorar as condições de trabalho na revista e foi precedida por uma série de incansáveis diálogos por parte desta equipe, desde que ela começou a ser montada em 2009. As tentativas foram sempre no sentido de atingir o piso salarial para todos os profissionais, encerrar os atrasos no pagamento dos salários e direitos como férias e 13º, que nos atingiram por mais de uma vez, de conquistar o registro dos funcionários fixos e uma melhor relação com colaboradores freelancers, que também convivem e conviveram com baixas remunerações e atrasos nos pagamentos.
 
Diante de alegações por parte da direção sobre dificuldades financeiras vividas pela empresa por se tratar de uma publicação alternativa, convivemos com salários mais baixos que os pisos e os praticados pelo mercado, e também com a inexistência de muitos direitos trabalhistas. Aceitamos negociar gradativamente a correção desses problemas de forma a fazer com que a Caros Amigos, “a primeira à esquerda”, não se tornasse agente de exploração de seus funcionários e avançasse nessa frente conforme suas possibilidades. Trabalhamos para ampliar a receita da empresa, seja pelo prestígio do trabalho realizado, muitas vezes premiado, seja pelo aumento do trabalho em forma de outras publicações como especiais e encartes.
 
Em todos os anos entre 2009 e 2013, mantivemos o diálogo salutar com a Direção, buscando negociar melhores condições para desenvolvermos o trabalho com o qual estávamos comprometidos. Isso foi feito por meio de cartas de toda a redação à direção, conversas de comissões da redação com a direção e inúmeras negociações entre o editor-chefe e diretor-geral.
 
Apesar de todos nossos esforços em construir uma boa relação interna, fomos pegos de surpresa com o anúncio de corte da folha salarial em 50%, com a demissão de boa parte da equipe ou redução do salário dos 11 funcionários de 32 mil pra 16 mil ao todo, conforme relatado em nota divulgada na data de anúncio da greve e que segue novamente ao final desta.
 
O anúncio de medida drástica que atinge diretamente os trabalhadores foi feito em forma de comunicado pelo diretor-geral, sem margem para negociação. Ainda buscamos pelo diálogo reverter o problema junto à direção por uma semana. Sem margem para conversa, recorremos à paralisação como forma de ampliarmos nossas vozes, mas fomos surpreendidos mais uma vez com o comunicado da demissão coletiva.
 
Nossa luta não é – e nunca foi – contra a revista Caros Amigos. Pelo contrario, reforçamos a importância de publicações contra-hegemônicas e críticas em um cenário difícil para a democratização da comunicação no Brasil, que cerceia a variedade de vozes. Nossa luta é, portanto, para o fortalecimento e a coerência de um veículo fundamental do qual sempre tivemos o maior orgulho de participar.
 
Vimos a público lamentar profundamente que essa crise provocada pela direção venha causar sérios prejuízos ao projeto editorial da Caros Amigos, que contou por todos esses anos com nossa dedicação.
 
Saímos desse espaço de forma digna diante de uma situação que tornou a greve inevitável, na esperança que nossos apelos sirvam de acúmulo para o futuro da Caros Amigos de modo que ela se torne exemplo não só no campo editorial, mas nas relações que mantém com seus funcionários e colaboradores. Esperamos que o compromisso assumido com colaboradores durante a gestão dessa equipe seja louvado e que eles recebam seus pagamentos sem atrasos. Também que sejam honrados nossos diretos trabalhistas.
 
Agradecemos todos que se solidarizaram com nossa situação e os que seguirão nos apoiando nessa nova etapa. Esperamos que esta experiência sirva de acúmulo e motivo de debate sobre a precarização, o achatamento de salários, a piora nas condições de trabalho e atitudes patronais – que existem tanto em empresas da grande imprensa quanto nas da contra-hegemônica – no sentido de buscarmos melhores condições para todos exercerem suas profissões. Por fim, esperamos que o exemplo comece pela imprensa contra-hegemônica com a correção de práticas como esta.
 
São Paulo, 11 de março de 2013.
 
01 – Alexandre Bazzan
 
02 – Caio Zinet
 
03 – Cecília Luedemann
 
04 – Débora Prado
 
05 – Eliane Parmezani
 
06 – Gabriela Moncau
 
07 – Gilberto Breyne
 
08 – Hamilton Octavio de Souza
 
09 – Otávio Nagoya
 
10 – Paula Salati
 
11 – Ricardo Palamartchuk”
 
* Com informações do Portal Imprensa, Portal Vermelho e Portal Brasil de Fato.