8 de dezembro de 2022


Repórteres de mídia alternativa acusados de incitação à violência


Por Igor Waltz*

23/07/2013


Policial atinge representante da OAB com gás de pimenta durante confronto entre policiais e manifestantes (Crédito: Fernando Quevedo / Agência O Globo)

Policial atinge representante da OAB com gás de pimenta durante confronto entre policiais e manifestantes (Crédito: Fernando Quevedo / Agência O Globo)

Oito pessoas foram detidas e encaminhadas para a 9ª DP (Catete) após os confrontos entre a Polícia Militar e manifestantes nas imediações da Rua Pinheiro Machado, em Laranjeiras, Zona Sul do Rio, na noite desta segunda-feira, 22 de julho. Entre os detidos estavam Felipe Gonçalves de Assis e Filipe Garcia Peçanha, integrantes do grupo Mídia Ninja, que faziam a cobertura da ação policial truculenta em tempo real. De acordo com nota divulgada pela PM, os dois foram detidos por “incitar a violência”. Ambos foram liberados após prestar esclarecimentos e vídeos produzidos por eles foram apreendidos.

Os confrontos ocorreram momentos após a recepção oficial da presidenta Dilma Rousseff ao Papa Francisco, no Palácio Guanabara, sede do governo do Rio. Autoridades como o próprio Governador, o Prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o presidente do Senado, Renan Calheiros, estavam no local.

Na página do grupo no Facebook, foi publicado um relato de Filipe Peçanha sobre a ação policial. Ele diz ter sido abordado por um homem alto, de óculos, com roupas civis pedindo uma entrevista. Ao questionar para qual veículo, o rapaz foi levado à força pelo “entrevistador” para ser revistado por um policial fardado. “Ele pediu para que eu abrisse a mochila. Não achou nada de suspeito ou ilegal. Ainda assim, me avisou que eu seria encaminhado para a Delegacia”, conta. “Eles tentaram derrubar nossa transmissão ao deter um, dois, três Ninjas. Mas eles não entenderam que não é uma câmera, um repórter, é uma rede. Podem até derrubar um. E assim surgem outros mil”, completou.

Além de Peçanha e Assis, outros detidos também foram liberados durante a noite, com exceção de Bruno Ferreira Telles. Ele é acusado de porte de artefato explosivo e desacato à autoridade. Advogados da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio conseguiram um Habeas Corpus por volta das 13h, mas o rapaz continua detido e foi encaminhado para o presídio de Bangu 1.

De acordo com a Polícia Civil, os cinco manifestantes autuados respondem em liberdade pelas acusações de desacato, incitação à violência, exposição ao perigo e resistência. Um menor foi liberado após apreensão por dano qualificado. Já Leandro de Souza Silva foi preso por formação de quadrilha, mas acabou liberado após o pagamento de fiança no valor de R$ 1 mil.

Feridos no confronto

Profissionais da grande mídia também foram atingidos durante a ação policial. O fotógrafo japonês Yasuyoshi Chiba, da Agência France-Presse, foi ferido na cabeça por um policial militar. Chiba, 42 anos, recebeu um golpe de cassetete quando fotografava o confronto entre policiais de choque e manifestantes diante do Palácio Guanabara.

Há dois anos atuando no Brasil, Chiba foi levado a uma clínica e recebeu três pontos na cabeça, além de realizar exames. “Vi um manifestante cair no chão. Os policiais o agarraram e o levaram. Fotografava a cena quando fui bruscamente empurrado por outros policiais. Então levantei os braços com minha câmera para mostrar que era fotógrafo e que tinha intenções pacíficas, mas um policial de uniforme e escudo me acertou a cabeça com o cassetete”, revelou.

O fotógrafo Marcelo Carnaval, do jornal O Globo, também foi atingido na cabeça, levou cinco pontos, mas passa bem. A publicação alega que o profissional foi atingido por manifestantes. Durante a confusão, um caminhão da TV Globo foi depredado em frente ao Estádio das Laranjeiras.

Outras quatro pessoas foram atendidas no Hospital Souza Aguiar: Aélia da Silva, com uma lesão no mão provocada por uma pancada de cassetete; José Sales Pimenta, atingido por uma bala de borracha nas costas; Rafael Caruso, com um corte na batata da perna; e Rafael Gomes, que levou três tiros de bala de borracha: nas costas, nas nádegas e na perna. Os médicos não souberam explicar a origem do corte na perna de Rafael Caruso. Os manifestantes denunciaram nas redes sociais que o rapaz havia sido ferido com um tiro de arma de fogo, o que não foi confirmado.

Dois PMs estão internados no hospital da corporação, no Estácio, na Zona Norte. Eles sofreram queimaduras ao serem atingidos por coquetéis molotov lançados por mascarados durante o protesto em Laranjeiras. O caso mais grave é do cabo Claudio dos Santos Souza, do 41º BPM (Irajá). Um terceiro policial ferido estaria internado no Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro. A informação ainda não foi confirmada pela corporação.

Confrontos

O protesto começou por volta das 18h, inicialmente a favor dos direitos homossexuais. Um segundo grupo, que pedia a renúncia do governador Sérgio Cabral, se juntou aos manifestantes na Rua Pinheiro Machado. Um boneco do governador foi queimado por volta das 19h. Após o confronto, iniciado por volta da 19h45, os policiais fizeram um cordão de isolamento próximo ao Viaduto Engenheiro Noronha.

Muitos dos jovens que participavam do protesto correram em direção à Rua das Laranjeiras para fugir do conflito. Alguns manifestantes se abrigaram em uma loja de departamentos, e a PM determinou que os clientes saíssem, um por um, para todos serem revistados.

*Com informações do grupo Mídia Ninja, AFP, jornais O Globo e O Dia. 

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