9 de agosto de 2022


Porto Alegre: unidade na diversidade no protesto contra Bolsonaro


05/10/2021


Por Salomão de Castro, Membro do Conselho Deliberativo da ABI

A tarde deste sábado (02/10) foi mais movimentada que o habitual no Centro de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Quem percorreu o Mercado Central para fazer compras ou almoçar ouviu de lá as primeiras palavras de ordem ecoadas em carros de som no Largo Glênio Peres, por volta das 14h30min, quando teve início a concentração popular no ato “Fora Bolsonaro” – que também se realizou em 94 cidades dos 26 estados e em Brasília.

Por volta das 15 horas, as pessoas encerravam o almoço com a tradicional picanha servida nos vários restaurantes distribuídos no Mercado e passavam a empunhar bandeiras e a se dirigir à concentração do evento para iniciar a atividade. O discreto sol era testemunha da convergência popular, sem anunciar a chuva que viria na manhã de domingo (03/10).

Em frente à Prefeitura, militantes e simpatizantes dos partidos PDT, PT, PCdoB, PSOL, PSB, PCB, PCO e PSTU, bem como de centrais sindicais e das frentes Brasil Popular, Povo Sem Medo e Povo na Rua, dividiam espaço, em notável esforço ecumênico no campo da oposição ao presidente da República.

No Centro, esquerda tem preferência

A escolha do Centro de Porto Alegre como local de confluência do evento foi favorecida pela segmentação eleitoral recente na capital gaúcha: é lá onde se situa a 2ª zona eleitoral, uma das quatro em que a ex-deputada federal Manuela D´Ávila (PCdoB) derrotou o atual prefeito Sebastião Melo (MDB) nas eleições municipais de 2020.

Sem a presença de Manuela – que participava do ato em São Paulo e foi candidata a vice-presidente de Fernando Haddad (PT) nas eleições de 2018 – e mesmo do senador Paulo Paim (PT), liderança detentora do maior mandato no estado dentro do espectro político da esquerda, dividiram o palanque, nas falas, nomes como o deputado federal Paulo Pimenta (PT), a deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL), o presidente estadual do PCdoB, Juliano Roso, e a deputada estadual Juliana Brizola (PDT).

Embaixo do palanque montado nos carros de som, as pessoas se expressavam sobre causas diversas, fazendo críticas às privatizações, a medidas do Governo Federal e em defesa de iniciativas favoráveis ao Movimento Lgbtqia+. A venda de camisas, bandeiras, livros, jornais e a distribuição de adesivos e panfletos também fazia parte do pacote.

Em meio às falas, prevaleceu o clima de unidade, mesmo com manifestantes favoráveis às pré-candidaturas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Ciro Gomes (PDT) à Presidência da República. O único momento de divergência se deu durante a fala da deputada Juliana Brizola, que vestia camisa em apoio a Ciro e foi hostilizada por militantes do PCO, em episódio sem maiores consequências. Outros militantes do PDT vestiam camisas em apoio ao pré-candidato e o clima de convergência era tamanho que havia quem usasse simultaneamente adesivos dos partidos representados no ato.

A manifestação remeteu a momentos em que a esquerda teve maior força no estado, a partir da liderança do ex-governador Leonel Brizola (1922-2004), fundador do PDT e tratado com reverência no estado, inclusive com adesivos em que o bordão “Fora Bolsonaro” dividia espaço com “Brizola vive”. A tradição iniciada por Brizola foi seguida com a vitória de Alceu Collares (PDT) na disputa pelo Governo do Estado em 1990.

Após a Redemocratização, o PT, inicialmente na prefeitura de Porto Alegre (a partir de 1989) e depois no governo do Estado (1999) – em gestões iniciadas por Olívio Dutra –, passou a deter a primazia no campo da esquerda entre os gaúchos. Porém, com o passar do tempo, PCdoB, PSOL e PSB ampliaram sua atuação, elegendo bancadas expressivas e descentralizando a preferência existente anteriormente entre PT e PDT.

Sob nova direção

Mais recentemente, porém, as coisas mudaram. Enquanto o MDB comanda os destinos da capital, o PSDB tem o governo gaúcho, com Eduardo Leite, um dos pré-candidatos do partido à Presidência em 2022. Um cenário desafiador para o campo contrário a Jair Bolsonaro nas esferas municipal, estadual e nacional.

No entanto, nada disso desanima os militantes que, por quase três horas, caminharam entre os largos Glênio Peres e Zumbi dos Palmares, ocupando uma extensão de cerca de 550 metros. Para eles, o que importa agora é a preparação do próximo ato, a se realizar no dia 15 de novembro, data da Proclamação da República do Brasil.

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