9 de agosto de 2022


Notícias, algoritmos e a sopa de letras (e emojis) do futuro


09/07/2021


Por Gustavo Girotto e Tercio David Braga, publicado no Portal Imprensa e Revista imprensa

  uem já assistiu aos filmes ou leu os livros de Harry Potter com certeza se lembra do jornal “O Profeta Diário”, com fotos que se mexiam e a interatividade

mágica da leitura. Como os jovens con­ sumirão notícia no futuro? A resposta mais

óbvia a essa interrogativa é: jamais como no passado! Mas refletir o contexto atual, sem dúvidas, é necessário. Imagi­ ne duas cenas icônicas do cotidiano: – O pai lê o jornal em papel; já o filho consome a mesma publicação no sofá, mas no tablet – formas diferentes de acessar o mesmo conte­ údo.

O recado é objetivo: as novas gerações quase não leem jornais (em papel), e por vários motivos. Seja por razões econômicas (papel é caro), ecológicas (papel é feito de ár­ vores) ou práticas (papel é pesado), a tendência é que as impressões cessem em um futuro não muito distante.

A tiragem mundial despenca e, cada vez mais, as edi­ ções em papel migram para o ambiente eletrônico. Embora esta profecia já tenha sido varrida para debaixo do tapete algumas vezes, em algum momento ela vai se concretizar. Se não pelos motivos acima descritos, será pela falta de interatividade que um jornal pode ter com o seu “leitor”.

Ao contrário daquela enorme mancha cinzenta – com uma foto ou ilustração -,  as novas formas  de se consumir a informação agora são totalmente interativas (que rea­ gem aos seus gestos e comandos de voz), com muitas fotos (podem ser vídeos também). Além da “notícia”, ainda será possível ler espicaçadas referências sobre um determinado tema,  ou  mesmo o apontamento  instantâneo  de palavras e traduções. Agora a “notícia” não termina ao fim da edi­ ção diária, mas é contínua. Ao invés da assinatura de uma publicação – o conceito caminha na direção de um Netflix editorial. Esse modelo já é quase realidade.

Mas o que fica cada vez mais claro – como o sol do meio-dia – é que os jovens consomem mais informação em smartphones, onde algoritmos e inteligência artificial selecionam conteúdo “mais adequado”. As novas gerações também não estão dispostas a pagar para ter acesso a con­ teúdo informativo, abandonando sites de veículos “tradi­ cionais ” e optando por outras formas de navegação, como redes sociais ou aplicativos de troca de mensagens.

E o problema está justamente nesta ardilosa armadilha, que tempera uma  saborosa  sopa de letras (e emojis) que os faz confundir publieditorial, fake news e conjecturas com fatos embasados (ou notícias, como preferem alguns). E os ‘influencers’  passam  a moldar  um  novo estilo  de consumo. O famoso “quem” (indica) se contrapõe a uma leitura qua­ lificada.

Essa fórmula também foi amplamente usada por políti­ cos e governos populistas como Trump, Erdogan e Bolso­ naro para ficar em evidência na internet, criando polêmicas que se transformaram em verdadeiros nevoeiros para a in­ formação. Constroem-se verdades paralelas e, a mídia tra­ dicional, passa ser o algoz da sociedade moderna. O novo fast-food de heróis (populistas) e vilões (jornalistas).

A guerra dos algoritmos hoje se transformara em axioma de engenharia, ao invés de se resgatar a essência do bom e velho jornalismo. É a ditadura  dos ‘likes’,  que se mistura de forma inebriante pela conquista de seguidores. O vale­

-tudo abarca desde bots até perfis falsos em redes sociais. E esse é o desafio do futuro: se livrar da dependência de likes e do feedback dos seguidores.

Não há dúvidas  de que o avanço  tecnológico impacta em novas formas de interatividade com o noticiário, mas, quando acaba a energia ou a bateria, o velho papel entra em campo.

Algoritmos não enganam jornais impressos, que a cada dia estão mais analíticos. Eles ficam por aqui mais um tem­po.

O binômio direito-dever de informar, quanto à  im­prensa do futuro, transcorre em ensinar as novas gera­ ções o que compartilhar no WhatsApp, uma vez que uma eleição (ou decisão) protagonizada  por  aplicativos  deixa mais que  uma  trinca    se torna  um  desastre  de longo prazo. Mais sal na sopa, menos algoritmos; e um fu­turo previsível?… esse ainda nem com bola de cristal(…) 

Gustavo Girotto é jornalista, foi um dos primeiros we­ brepórters do portal IMPRENSA, é sócio da agência Tamer Comunicação Empresarial;

Tercio David Braga é jornalis­ ta com passagens pelo O Estado de São Paulo, foi repórter de tecnologia do jornal Metro, do Grupo Bandeirantes, e trabalha na agência FSB. Ambos são autores da série docu­ mental “A tirania da minúscula coroa”.

 

 

 

 

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