Nassif na ABI: Lava Jato
foi armada nos EUA


29/11/2019


“A intervenção dos Estados Unidos no sistema de inteligência e implementação da operação Lava Jato no Brasil” foi o principal tema da palestra dada pelo jornalista Luís Nassif, editor-chefe e diretor de redação do Jornal GGN, ao comparecer, na quarta-feira, 27, na sede da Associação Brasileira de Imprensa no Rio.

Com a casa cheia e uma plateia disposta ao debate, Nassif foi recebido na mesa pelo presidente da ABI, Paulo Jeronimo de Sousa, pelo presidente do Sindicato dos Engenheiros do Rio, Olímpio Santos, e por Virgínia Berriel, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio. Na ocasião, Nassif recebeu de Page a sua carteira de sócio da ABI.

Virgínia Berriel, Presidente da ABI, Paulo Jeronimo de Sousa, Luís Nassif e Olímpio Santos

Além das três entidades, o encontro contou ainda com apoio da Associação dos Docentes da UFRJ; da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional – FASE; da Associação Scholem Aleichem de Cultura e Recreação – ASA; do Fórum Nacional Pela Democratização da Comunicação – FNDC; do Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro; e do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro.

Na conversa, que tinha como tema “Democracia e Soberania Ameaçadas”, Nassif descreveu com detalhes a forma como instituições estadunidenses montaram o esquema que levou à Operação Lava Jato, responsável, segundo ele, pelo fim de milhares de empregos e a bancarrota de empresas brasileiras até então poderosas.

“Os métodos empregados pelo Departamento de Justiça americano (DoJ) foram inteiramente copiados pela Lava Jato, com treinamentos e cursos a juízes e procuradores brasileiros bancados pelos Estados Unidos ”, afirmou Nassif, analisando o contexto que levou à desestabilização dos governos petistas, o impeachment de Dilma Rousseff , a prisão do ex-presidente Lula e a ascensão da direita no país, alinhada aos interesses dos EUA. Segundo ele,

“abusos judiciais, recorrentes na Lava Jato, têm amparo na Seção de Integridade Pública do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, especializada em investigar crimes de autoridades públicas”.

A questão já foi, por diversas vezes, abordada pelo jornalista em seu blog, observando, inclusive, a participação do procurador Andrew Weismann em todas as grandes investigações de empresas, incluindo a Petrobras.

Com base em apurações jornalísticas, o editor do GGN ressaltou que os ensinamentos dos EUA foram seguidos à risca pela Lava Jato, e com o uso eficiente da imprensa, como meio de dar credibilidade à operação da força tarefa, acrescentando:

“Também fazem parte da construção dessa narrativa ações de impacto, como a invasão da casa de testemunhas e prisões preventivas transmitidas pela televisão. Da mesma forma, fake news alimentam o noticiário da imprensa, recurso sistematicamente utilizado pela revista Veja”.

Fazendo paralelo com as pressões da mesma natureza sofridas por Getúlio Vargas, e que o levaram ao suicídio, Nassif afirmou:

“Há toda uma desorganização do sistema de informação, que faz com que a democracia vá para o vinagre.”

Preocupação dos EUA com o pré-sal

Segundo Nassif, o processo inclui também técnicas de delação e de investigação e, principalmente, a criação de um “ambiente colaboracionista” entre procuradores e juízes. Na narrativa dele, passaram por esse aprendizado o então juiz Sergio Moro, o ex-procurador geral da República Rodrigo Janot, o procurador Deltan Dallagnol, entre outros.

Com perspectiva histórica, Nassif observou que a operação Lavo Jato representa, principalmente, mais uma forma de dominação dos EUA – peça chave na desconstrução da liderança política de Lula, “presidente que lançou o Brasil como grande alternativa democrática, e que se destacava como super potência do Sul”, despertando a atenção dos países do G-20 e a preocupação norte-americana.

Soma-se a isso, a descoberta do pré-sal brasileiro, elemento adicional no projeto de dominação. “O pré-sal tem importância estratégica na geopolítica dos Estados Unidos”, disse Nassif, lembrando o episódio revelado pelo WikiLeaks, em 2013, do maior sistema de espionagem do mundo implementado pela Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos contra Dilma Rousseff e o centro de poder em Brasília.

Para o editor do GGN, a Lava Jato acabou com empresas, não com a corrupção. “A operação surge com a retórica do combate à corrupção no Brasil, apontado, então, como um dos países mais corruptos do Planeta. Com esse apelo, os EUA conseguem impor aos demais países da OCDE legislações anticorrupção, o compartilhamento de informações e o monitoramento de transações internacionais”.

Ele constata, porém, que os EUA não tiveram o mesmo rigor ao lidar com a própria corrupção interna, expressa pela crise financeira global de 2008, provocada pela falência do Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos dos EUA.

Nassif fez críticas também ao Supremo Tribunal Federal (STF), conivente “com o abuso de poder e de autoridade de determinados juízes, o que contribuiu para destruir a democracia e o sistema político partidário brasileiro”.

Mostrou-se ainda preocupado com o autoritarismo do governo, que já fez ameaças de volta do fantasma do AI-5, e com as suspeitas de envolvimento da família Bolsonaro com as milícias.

Durante os debates, houve consenso da necessidade de organização e reação da sociedade civil contra as agressões do governo à democracia e ao desmonte do patrimônio público.

“O avanço do autoritarismo impõe sentido de urgência. É preciso barrar Bolsonaro, ou em breve estaremos todos na cadeia”, disse Jorge Eduardo Saveedra Durão, da FASE, referindo-se a mais uma arbitrariedade do governo com a prisão abusiva de quatro integrantes da Brigada de Incêndio de Alter-do-Chão, no Pará.

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