4 de julho de 2022


Lembranças da minha noite com Leila Diniz


14/06/2022


Por José Paulo Kupfer (publicado originalmente em 08 de março de 2010, na coluna então mantida pelo autor no Estadão online), membro do Conselho Fiscal e do Conselho Editorial da ABI

O Dia Internacional da Mulher, para mim, é dia de lembrar Leila Diniz. Não aquela mulher desbocada que, nos primeiros tempos da pílula anticoncepcional, lançou-se como uma espécie de cobaia da revolução sexual. Mas a moça da risada escandalosa, talvez ingênua sem ser boba, pronta a ajudar quem dela necessitasse, mesmo que a necessidade não passasse de uma cretinice. Como foi o meu caso.

Fui procurar Leila, numa noite, acho que em 1969 e depois da famosa entrevista do Pasquim, em que ela, entre palavrões, fez a apologia da liberdade, inclusive a sexual. Era para uma pauta da revista Fatos&Fotos, da qual eu era repórter. Ela estava trabalhando num espetáculo no Teatro Jovem, uma pequena casa de espetáculos em Botafogo, famosa então por lendários shows de choro e samba.

Esperei o espetáculo terminar e me dirigi aos camarins, como quem vai para o cadafalso. Eu tinha 20 anos, nem dois de profissão. Leila, a estrela da TV e do cinema, não passava de 24 anos. Minha missão era convencê-la e me dar uma entrevista que seria a base de uma matéria, cujo título não precisa de explicação para o malparado: “Leila Diniz – receita para apanhar homem”.

O resultado da empreitada está descrito na excelente biografia de Leila, da autoria de um velho amigo e grande jornalista, Joaquim Ferreira dos Santos, publicada pela Companhia das Letras, em 2008. Quando vi o livro numa livraria, nem me passou pela cabeça que o Joaquim pudesse ter recuperado a matéria e publicado um resumo. Mas, ao folhear o índice onomástico, estava lá: Kupfer, José Paulo, 129.

Escreve o Joaquim, hoje titular da coluna Gente Boa, no jornal O Globo: “A revista Fatos&Fotos publicou uma divertida matéria em que ela [Leila Diniz] e Hugo Bidet [um personagem folclórico da Ipanema dos anos 60, de barriga grande, barbicha e óculos] são fotografados nas cadeiras da calçada do bar [o Veloso, célebre boteco que em 1967 passou a se chamar Garota de Ipanema, pelas razões por todos conhecidas]. Encenam o que seria uma paquera carioca, com o rapaz chegando junto e a moça fingindo que dá mole” (…) Dois amigos, talvez três, com o repórter José Paulo Kupfer que assina a matéria, curtindo com a cara dos tempos”.

Prometi, faz um tempo, escrever ao Joaquim (e fiquei devendo) para contar a origem daquela “curtição”, que, para mim, não foi nada disso. Na parte que me toca, a “receita” da Leila para pegar homem foi, na verdade, motivo de grande aflição.

Tudo começou com uma ordem para que eu fosse entrevistar Carlos Imperial. O diretor da Fatos&Fotos, Claudio Mello e Souza, me informou que ele estava me esperando para que eu o entrevistasse. E me avisou: “Você vai fazer com ele uma receita para pegar mulher”. Não tenho a mínima ideia de quem combinou o que com quem, em relação à matéria. Enfim, achando aquilo meio esquisito fui, de bloquinho em punho, falar com Imperial.

Carlos Imperial, o homem que, no fim das contas, entrou para a história como o apresentador do resultado do desfile das escolas de samba que inventou o bordão “10 nota 10”, era um artista de cinema, rádio e TV. Imperial fazia, no trabalho e na vida cotidiana, um personagem meio cafona, uma espécie de galã-vilão. Gordo, o rosto marcado pelas espinhas pesadas da adolescência, insinuava ser um sedutor irresistível. Fazia o tipo gostosão de periferia.

A receita para pegar mulher era isso mesmo: um manual relâmpago de como “abater a lebre”, no jargão do entrevistado, e levá-la para a cama. Não me lembro de todos os mandamentos, mas os que ficaram na memória são suficientes para assegurar que uma classificação como baixaria seria mais do que adequada para o conjunto da obra. Na minha memória, vejo o Imperial afundado numa poltrona do apartamento, bermuda e chinelão, um sorriso maroto, jeitão fingido de cafajeste, ditando as “regras”.

Uma delas era passar de carro às cinco da tarde, devagar e margeando a calçada da Cinelândia, na ligação do cento do Rio com a zona sul, oferecendo carona às mocinhas paradas nos pontos de ônibus. Uma outra dizia respeito ao quarto em que a “lebre” seria abatida. Uma minuciosa descrição do ambiente, com ênfase detalhada na cama.

Mas se isso já me pareceu o fim do mundo, o pior ainda estava por vir. A matéria provocou algumas reclamações de leitores, broncas de feministas, mas, tudo balanceado, passou como um divertimento – uma cascata jornalística, mas absolutamente transparente. Para encurtar, fez sucesso.

Pior para mim. Fui chamado outra vez pela direção da revista: “Agora você tem de arrumar alguém para dar uma receita de pegar homem”. Fiquei branco e perguntei: “Quem?”. Resposta: “Se vira, não é repórter?”.

Quem? Só mesmo Leila Diniz poderia topar uma coisa assim. Então, lá estava eu, esperando terminar o espetáculo no Teatro Jovem, para tentar falar com ela e propor a matéria. E ainda tinha as fotos, cascata maior ainda, um fingimento de paquera no bar mais famoso de Ipanema.

No tempo em que fiquei esperando, acho que menos de duas horas, que pareceram uma eternidade, cheguei a pensar em ir embora e, no dia seguinte, pedir demissão, deixar de driblar a faculdade e encarar o curso de economia, que, aos trancos e barrancos, eu ia levando. Mas, uma outra voz dentro de mim, que a paixão pelo jornalismo estava tornando mais forte, me convenceu a encarar o constrangimento: “Jornalista não volta para a redação sem a mercadoria”.

Foi assim, com a sensação do condenado à forca, que abordei Leila. Eu devia estar com cara e voz de defunto. Ela ouviu e soltou uma gargalhada: “Rapaz, deixa de ser bobo, isso é simples, fica tranquilo”, disse, começando a tirar a maquiagem. “A gente vai lá pra casa e resolve rapidinho”.

Leila me deu o endereço, mas não me lembro se era em Ipanema ou em Copacabana. Na memória, vem um apartamento pequeno, com poucos móveis, típico dos jovens universitários de classe média que resolviam morar sozinhos. A entrevista começou perto da meia-noite. A ideia era fazê-la rebater os “mandamentos” de Imperial.

Na biografia de Leila, Joaquim Ferreira dos Santos reproduz algumas das respostas que ela me deu, compondo a “receita” para pegar homem:

“De um modo geral, o homem está muito por fora. A mulher deu uma virada e o homem ficou só olhando. Ele aceitou, mas ela que fez o trabalho”;

“Tem ainda uns caras que estão naquela de mexer com a mulher na rua. Essa paquera carioca é engraçada, mas muito bolha”;

“Às vezes ele se assusta com a mulher ousada. O bobalhão do homem precisa se sentir o bonzão. É ele que está conquistando. Precisa se afirmar, achar que ele ganhou o negócio, que passou a saliva e coisa e tal. Mesmo que não seja assim, dá essa colher de chá pro cara. Ele não está acostumado a ser paquerado”;

“A praia e depois a esticada até o bar são os lugares da paquera. Na praia, todo mundo pelado, com a cuca cheia de chope, a coisa fica meio bicho. Depois até o barzinho tem sempre uma andada. Aí você se coloca perto do cidadão. Leva um papo para saber se o cara não é aquele burrão total”.

“Todos os caras que eu quis, eu tive. Mas a coisa parte de uma escolha. Não é sair paquerando. Para a mulher é mais fácil. O difícil mesmo é manter. Toda mulher quer ser amada, quer que o cara fique apaixonado por ela”.

Durante toda a entrevista, mesmo sorrindo e gesticulando, Leila estava séria. Acho que, de repente, encarou aquela ideia idiota como uma oportunidade de produzir mais um panfleto em prol da liberação feminina. Quando, por exemplo, perguntei-lhe sobre a cama – o sofisticadíssimo “abatedouro” do Imperial –, ela fez um jeito de enfado e me disse: “Que cama, cara, que cama? Se tem carinho e tesão, qualquer esteira no chão serve”.

Eram mais ou menos duas da madrugada quando a entrevista terminou. Eu estava aliviado e Leila com sono. Mais do que aliviado, eu estava agradecido. Leila me tratou como a um irmão mais novo, metido em apuros. Foi gentil, carinhosa e, antes de tudo, generosa. Resumindo, cuidou de mim.

Leila morreu, aos 27 anos, num acidente de avião na Índia. Quebrou tabus, escandalizou a sociedade machista, dominante numa época de generalizada repressão, incomodou a ditadura ultraconservadora e a esquerda stalinista. Sua foto de biquíni, com a barriga da gravidez orgulhosamente à mostra, é um divisor de águas no processo de emancipação da mulher brasileira. Como resumiu seu biógrafo, Leila ajudou a dar início a uma revolução dos costumes femininos e a definir um novo papel para a mulher na sociedade brasileira.

Leila é tudo isso, mas, para mim, depois da noite que passei com ela, jamais deixou de ser uma moça sem afetação, doce e alegre, de generosidade genuína – uma característica das professorinhas de jardim de infância de subúrbio, que ela foi antes de se transformar em estrela.

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