Jornalistas compartilham experiências profissionais


11/11/2015


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O coach Bruno Juliani durante encontro JornalistasRJ (Reprodução: Facebook)

No momento de crise centenas de jornalistas são demitidos. No Rio de Janeiro, uma parte deles resolveu reagir e se unir para formar uma rede e compartilhar experiências para ajudar a modificar sua visão e posicionamento diante da própria carreira. Idealizado pelo grupo JornalistasRJ, do Facebook, com apoio da  Associação Brasileira de Imprensa (ABI), o Encontro Reinventar JornalistasRJ teve sua segunda edição na terça-feira, dia 10 de novembro, no auditório da (ABI), no Centro do Rio.

A programação – totalmente gratuita com foco principalmente nos recém-desligados das redações – reúne palestras, workshops, mesas redondas, dinâmicas, orientações e dicas sobre Coaching de Carreira e Vida, Empreendedorismo e Pequenos Negócios, além de apresentação de casos de sucesso de jornalistas.

Durante o segundo encontro, foram convidados a psicóloga Fátima Antunes e a pranaterapeuta Tita Cavalcanti, que abordou o controle do estresse, seguidas de miniworkshop com o mastercoach Bruno Juliani, especialista em Coaching de Carreira. Encerrando a atividade, os profissionais participaram do painel “Jornalistas que nos Inspiram”, com Sônia Araripe, Érica Ribeiro, Leila Magalhães, Carmen Pereira, Graça Duarte, Flávia Domingues e Sandra Martins.

Segundo a jornalista Rosayne Macedo, moderadora do grupo, a situação econômica do Brasil não é a causa do agravamento das demissões nas redações, mas sim a crise no modelo de negócios no jornalismo. “Não dá para culpar a crise econômica. Nós não viemos aqui para falar discutir a crise, mas soluções. As oportunidades existem e devem ser criadas. Nós jornalistas somos formados para ser empregados e não para sermos empreendedores”.

Ana Carolina Almeida, demitida há seis meses, foi uma das organizadoras do evento. Ela conhece o grupo há dois anos e lembra a proposta dos encontros. “Não é apenas um ciclo de palestras, é um lugar para mover ideias. Temos que romper com a barreira do comodismo. Nosso objetivo principal é agregar”.

O Coach Bruno Juliani, Bacharel em Comunicação Social, foi professor de Rosayne num curso de coaching e soube das demissões em grandes redações de jornais do Rio já que participava do grupo no Facebook. A jornalista fez uma proposta de parceria e se voluntariou para falar sobre alternativas de carreira. Bruno considera a “crise” uma transformação no mercado de trabalho: “Não é mera crise, é uma mudança, e ela é permanente. Os empregos no atual modelo jornalístico podem estar acabando, mas a habilidade de escrever nunca foi tão demandada. O mundo continua precisando de informação. A forma como as pessoas consomem é que mudou, e a sua distribuição também”, diz o também blogueiro que começou a escrever há dois anos.

Durante o painel “Jornalistas que nos inspiram” Leila Magalhães contou um pouco de sua história. Depois de anos de carreira em redação publicitária, que culminou com um afastamento traumático do seu emprego, a jornalista teve que se adaptar à nova realidade e se “reinventar” como empreendedora. A jornalista sentiu na pele o despreparo da categoria para as atividades autônomas. “Primeiro eu aluguei um escritório de luxo na Barra até eu perceber que não tinha necessidade daquela estrutura de alto custo já que eu ia à maioria de meus clientes. Depois, com meu home office, tive que adaptar a rotina da minha casa ao meu trabalho, desde de filho, marido e empregada”.

Segundo Leila o que mais a motivou a se reerguer e prosseguir na sua profissão foram experiências de outros profissionais. Ela conseguiu se restabelecer na área que mais gosta, na área de conteúdo editorial. Agora com a nova crise ela está partindo para um mercado carente: o de roteiro. “Estou me reinventando, de novo. Somos comunicadores e temos o dom da criatividade e da escrita”.

A jornalista Érica Ribeiro, que trabalhou muitos anos na grande imprensa, saiu das redações há seis meses, com o “falecimento” do jornal Brasil Econômico. Há três meses e meio ela está com um blog sobre empreendedorismo que já soma acesso de três mil pessoas por mês. Para Érica “o trabalho é o nosso negócio e melhor cartão de visitas”. Como repórter, adora histórias de empreendedores de sucesso, nas quais se espelha, e defende que as pessoas devem deixar de insistir em estar em uma instituição para existir. “O grande “jornalão” do Rio demitiu profissionais de 30 anos. Então não devemos ficar pendurados em uma empresa para sobreviver. Podem acabar as empresas, mas nós, jornalistas, não somos o veículo S/A. O trabalho é o nosso principal patrimônio”, finalizou.

A jornalista Carmen Pereira, que se emocionou ao lembrar suas lutas políticas pela categoria na ABI, “um local emblemático, espaço de lutas que participei em nossa casa”, também contou a trajetória de uma profissional de sua época, que começava a carreira nas grandes redações e as demissões em vários momentos econômicos, que a fez migrar para a assessoria de imprensa e para a docência. Das experiências que viveu, a jornalista não se adaptou ao próprio negócio: “Estamos aqui para isso: compartilhar visões diferentes Preciso de décimo terceiro e FGTS, mas fui me readaptando e buscando novos caminhos sempre que a crise batia à porta. O problema da crise dos negócios não é nosso, é dos donos das empresas, não devemos nos sentir incapazes nem fracassados. Nosso patrimônio é nossa trajetória profissional, a construção de nosso nome”.

Mário Brizon decidiu sair das redações e trabalhar por conta própria antes das demissões em massa. Brizon relembra que a “crise” não tem volta pelo modelo atual de jornalismo e que o desemprego na profissão começou na década de 90, com a informatização das redações, que deixou muitos revisores desempregados. “Os profissionais de imprensa estão cada vez mais multimidiáticos. O jornalista que está se formando hoje já vem com ship e é mais fácil para ele do que para nossa geração. A tecnologia nos obriga a nos modernizar e olhar para o mercado de outras formas Somos repórteres e precisamos ouvir os colegas”, diz o repórter que atua em assessoria no ramo de turismo com um profissional da área de publicidade.

Sônia Araripe fechou o encontro com boas notícias: “Não precisamos de carteira assinada e escritório. O mundo mudou e hoje em dia os executivos das grandes empresas são pessoas acessíveis. Estamos aqui querendo fazer a diferença. Trocar a palavra competição pela cooperação e deixar de ver o outro como inimigo Somos jornalistas, sabemos escrever e temos faro para boas histórias”.

De acordo com o vice-presidente e membro da Comissão de Direitos Humanos e Liberdade de Imprensa da ABI Paulo Jerônimo, a entidade está estudando, juntamente com o grupo JornalistasRJ, projeto para criar uma incubadora de empresas voltada para a categoria, em parceria com a PUC, UFRJ e entidades de classe de indústria e comércio. Paulo Jerônimo explica que o objetivo principal é readequar o profissional para as mídias modernas. A previsão é que o projeto esteja em andamento no fim do primeiro trimestre de 2016. “É um projeto que vem bem a calhar nesse momento em que esses profissionais foram demitidos e estão desamparados e sem perspectivas. É uma forma de os jornalistas se adequarem à realidade atual e partirem para as novas mídias sociais e se posicionarem no novo mercado que está se abrindo com a Internet”.

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