12 de agosto de 2022


João Cabral de Melo Neto hoje (29) no Cineclube ABI


29/09/2020


 

 

 

 

 

Papai faz cem anos
de Inez Cabral de Melo

​Ele nasceu dia 9 de Janeiro de 1920. Este ano ele faria cem anos. Mas para mim, meu pai terá sempre 45 anos, aquele diplomata inteligente, hipocondríaco, , rabugento e sobretudo engraçado à sua revelia. Grande consumidor de aspirinas, e de todos os remédios lançados no mercado, para todo tipo de doença. Viver na Suíça foi uma festa para ele nesse sentido. Lembro-me de ter-lhe perguntado um dia o por quê de ser acometido sempre por doenças novas, todas com cura. Não soube responder, e tentou mudar de conversa. Tarefa impossível. Percebo hoje ter sido uma chata, sem um pingo de inteligência emocional:
​—Pai, vivem pesquisando sem sucesso remédios contra o câncer e doenças terríveis, que nunca te atingem. Acho que no fundo, você é um cara de sorte.
Em silêncio, encarou o prato e continuou comendo. Na minha ingenuidade, pensei que esse comentário o ajudaria a desfazer-se da mania de remédio, mas claro, não adiantou nada.
​Acontece que esse pai que eu conhecia, quando entrava em seu escritório se transformava em uma entidade, de que eu, criada fora do Brasil, não tinha a mínima ideia. Não costumava ler em português, ele próprio sempre me aconselhava livros em francês ou espanhol e assim os dias foram passando.
​Finalmente, em 1966 o TUCA encenou Morte e Vida Severina, que foi inscrita no festival de teatro Universitário em Nancy, com música de um estudante para mim então desconhecido, Chico Buarque de Hollanda. Eu estava terminando o ensino médio e me sentia europeia até a medula. Como sabia disso, meu pai achou que me faria bem conhecer jovens da minha idade brasileiros, e me levaram a Nancy para assistir a peça. Esse espetáculo foi um turning point, minha vida nunca mais foi a mesma. No dia da peça, o lugar na plateia que me foi assignado era ao lado de um dos jurados, francês, claro. Me conscientizei que era jurado, quando o vi escrever febrilmente durante o espetáculo, o que achei de início, uma falta de respeito com os atores em cena. Tentei esticar o olho para ler o que escrevia, mas não consegui. Esse cidadão estava aos prantos quando a peça terminou e aplaudiu febrilmente durante vários minutos, como todos os presentes. Meu pai estava constrangido e eu estava em choque. Nunca imaginei que esse pai que conhecia desde que nasci fosse capaz de escrever um texto de tamanhas força e impacto. Nunca mais o vi do mesmo jeito, e isso tornou muito mais difícil a minha rebeldia.
​Na época, chegavam-me ecos do que pensava dele a intelectualidade brasileira. Um poeta maior, contido, de uma precisão cirúrgica, enfim tudo o que uma garota com ideais hippies achava ultrapassado. Continuei amando Morte e Vida Severina, que de tanto ler quase aprendi de cor, mas sem nunca me debruçar sobre seus outros trabalhos. Como pode ser preconceituosa essa juventude que proclama aos quatro ventos odiar rótulos.
​Ao voltar ao Brasil, em 1969, em pleno AI5, vendo meus ídolos e referências falar, escrever e dar depoimentos sobre ele, descobri o que até então me passara desapercebido: O cara era um gênio. E convenhamos, ser filha de um gênio não é das coisas mais fáceis, quando se tem a intenção de mudar o mundo. Mas sobrevivi. Ele praticava comigo a psicologia reversa, isto é: quando queria que eu lesse ou fizesse algo, me dizia para não fazê-lo. Acho que era o jeito dele de tornar-me independente. Não queria que eu fosse como ele, mas que chegasse a minhas próprias conclusões a respeito da vida, da política e da arte. Hoje agradeço por isso.​
​Depois da morte de minha mãe ficou quase cego, triste e deprimido, apesar da nova mulher com quem se casara. Passei a visitá-lo quase todos os dias, e pela primeira vez na vida senti que ele me entendia e que eu também era capaz de entendê-lo. Conversávamos sobre tudo e nada, e como não conseguia sozinho, me pedia para ler para ele. Foi assim que vim a ler Proust, a seu pedido. Só consegui ler para ele dois capítulos, até que me disse que seu cérebro tinha virado gelatina e não conseguia acompanhar. Brincando perguntei se estranhava meu sotaque, se preferia que eu lesse francês como ele com seu indefectível sotaque nordestino. Ele riu e negou. Mas gostei tanto de Proust que não parei mais e está até hoje entre meus livros de cabeceira. Perguntei também por que não me ditava seus poemas, declarou-se incapaz disso. Precisava ver os versos e estrofes e como se ordenavam no papel.
​Um dia, me pediu que lhe lesse uma crítica de alguém, sobre um poema seu. Duas páginas falando apenas de um verso. Apesar de saber que ele passava anos escrevendo um poema, lhe perguntei:
​—Pai, você jura que pensou em tudo isso quando escreveu esse verso?
​—Minha filha, deixe o rapaz criar!
Foi quando aprendi que a arte tem uma leitura e percepção diferente para cada leitor ou espectador. A arte de verdade não pode ser passiva.
Um outro dia, pediu-me que lesse alguns de seus poemas. Não pude reprimir meu comentário entusiasmado:
​—Pai, você escreve pra c****** !
E como na minha adolescência, a resposta foi:
​—Minha filha, policie a sua linguagem!
Até posso tentar, mas convenhamos, não é das coisas mais fáceis ao ler seus versos.
​Assim, entre notícias que ele ouvia no rádio, suas tentativas de entender todas as novidades que eu lhe trazia do mundo lá fora, passamos juntos a maior parte dos dias, até que no sábado dia 9 de outubro de 1999, ele nos deixou.
​Mas como disse no início, para mim ele vai ter 45 anos para sempre, e fico feliz em pensar que enquanto tiver um leitor, ele será de fato imortal.

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