Fé e coragem a serviço do fotojornalismo


04/09/2007


José Reinaldo Marques
06/09/2007

Nascido em Corumbá-MS, em 27 de dezembro de 1958, Nilton Claudino, hoje editor de Fotografia do Dia, estudou em um colégio de padres e achava que ia seguir a carreira religiosa. Mas uma viagem ao Rio, acompanhando um irmão que veio servir no Corpo de Fuzileiros Navais, o fez mudar de rumo. Já havia feito um curso de fotografia por correspondência, quando conseguiu uma vaga de mensageiro na Editora Abril, em 75:
— Estava ao lado dos grandes nomes do jornalismo que faziam a Veja: Zuenir Ventura, Marcos Sá Corrêa, Flávio Pinheiro… Zuenir me descobriu e me promoveu a produtor da revista, com tarefas que incluíam fazer pesquisa e despachar o material dos fotógrafos para a sede da revista, em São Paulo. Depois, a convite do Marcelo Rezende, me transferi para a Placar.

Até então, fotografar era um hobby. Foi Ricardo Chaves — hoje editor do Zero Hora — que o aconselhou a tentar a profissão:
— Comecei na Placar mesmo. Passava horas no laboratório da Abril e aprendi todas as técnicas possíveis. Prestava muita atenção espacialmente no trabalho do Chaves, do Rodolfo Machado e do J.B. Scalco, um dos melhores repórteres-fotográficos de esportes que conheci. O pessoal confiava tanto em mim que, quando eu disse que estava pronto, o Marcelo Rezende ligou para o Juca Kfouri e indicou a minha contratação.

Prêmios e risco

Em 1990, Claudino foi para o Jornal do Brasil, onde conquistou três prêmios Inter Press Photo e o reconhecimento profissional. Mas não esquece a Placar:
— Foi uma tristeza a revista ter deixado de circular; era a melhor do ramo esportivo. Fiquei tão chateado que doei a minha coleção, que ia até o nº 1.000.

No Dia, onde há cinco anos chefia a Fotografia, Claudino ganhou Menção Honrosa do Prêmio Vladimir Herzog com a foto “Na mira da lei”, da série de “matérias perigosas” com as quais já se envolveu:
— Eu e o Aloísio Freire moramos duas semanas na favela da Maré, investigando denúncias de que um tal Comando Azul da PM vinha cometendo barbaridades no local, contra bandidos e moradores.

A pior experiência, porém, aconteceu fora do Brasil, em Capitan Bado, no Paraguai. Acompanhado de um guia, chegou a uma grande plantação de maconha e começou a fotografar com uma minicâmera, quando percebeu a aproximação dos traficantes. Escondeu a máquina na cueca e pegou uma abóbora enorme e disse que estava roubando para comer. Sob a ameaça de fuzis AR-15, ele e o guia — que falava guarani, a língua local — levaram muito tempo negociando a liberdade:
— Depois desse susto, prometi nunca mais me envolver com matérias do gênero. Mas recentemente passei 28 dias em outra missão arriscada, para uma reportagem sobre a conexão que o tráfico de cocaína para o Brasil a partir do Peru e da Bolívia. O que mais me impressionou nesta viagem foi a miséria e o trabalho escravo de crianças nas plantações de coca.

Tim Lopes

O incentivo para o jornalismo investigativo, o fotógrafo recebeu de Tim Lopes, amigo e colega de Placar, JB, O Dia e TV Globo. E foi Claudino quem descobriu onde estava escondido o corpo do repórter, no Complexo do Alemão:
— Eu, o Alexandre Medeiros e o Marcos TristãoU>, do Globo, começamos a pedir ajuda nas favelas, em busca de uma pista que levasse ao paradeiro do Tim. Um dia, fui abordado por uma pessoa, que não se deixou ver e me disse: “Sobe o Complexo do Alemão, vai até um lugar chamado Pedra do Sapo e manda cavar na sombra do bambuzal que o corpo está lá.” Liguei para o jornal e passei a informação.

Dias depois, recebeu um telefonema do Coronel Venâncio Moura (ex-Comandante do Bope), dizendo que a dica parecia quente e seria investigada:
— Entrei pela mata guiando os policiais, juntamente com a repórter Albeniza Garcia. Os Bombeiros fizeram a escavação. No segundo movimento da enxada, começaram a aparecer ossos e a plaqueta de controle de patrimônio da câmera da Globo. Foi muito duro, mas eu tinha que fotografar. Começamos todos a chorar. Tenho sempre comigo no bolso um livro de salmos e comecei a ler “o Senhor é o meu pastor e nada me faltará…”, para tentar amenizar o desespero.

Claudino se emociona ao lembrar o episódio, lamenta a morte trágica do amigo e critica os governantes:
— Infelizmente, até hoje não iniciaram nenhum dos projetos sociais que prometeram para ajudar os moradores do Complexo do Alemão a viver sem violência. Com isso, o Governo e até mesmo a imprensa ficam desacreditados. 


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