Sequestros na França terminam com reféns e terroristas mortos


Por Igor Waltz e Cláudia Souza*

09/01/2015


Policiais antes da invasão ao mercado Hyper Cacher, em Paris (Foto: Francois Mori/AP)

Policiais antes da invasão ao mercado Hyper Cacher, em Paris (Foto: Francois Mori/AP)


 

 

Duas operações policiais quase simultâneas encerraram dois sequestros praticados por radicais islâmicos, nesta sexta-feira, dia 9, na França. Said e Chérif Kouachi, acusados pelo massacre na revista Charlie Hebdo, mantinham um refém de 26 anos em uma gráfica na cidade de Dammartin-en-Goële, localizada 30 km a nordeste da capital francesa. Já Amedy Couliby, suspeito dos disparos contra um policial durante o ataque à revista, tomou um mercado judaico em Porte de Vincennes, região leste de Paris. Os três foram mortos nas ações.

Uma quarta envolvida, Hayat Boumeddiene, esposa de Amedy, ainda está foragida. Quatro dos cinco reféns presos no mercado kasher morreram durante a invasão das forças de segurança. Três policiais ficaram feridos na operação em Vincennes, e outro em Dammartin-en-Goële, segundo os jornais locais.

De acordo com os jornais franceses Le Monde e Le Parisien, o cerco aos irmãos Kouachi foi intensificado na manhã desta sexta-feira, 9. Viaturas da polícia francesa os perseguiram em alta velocidade em vias da região sul dos departamentos de Oise e Seine-et-Marne.

Os irmãos buscaram abrigo em uma gráfica, onde um  funcionário, que conseguiu esconder-se dos suspeitos, enviou uma mensagem de texto ao pai, pedindo-lhe que avisasse a polícia. Segundo fontes em Dammartin-en-Goële, é possível que os irmãos não soubessem que havia uma pessoa no primeiro andar da empresa.

A polícia reforçou o local com  viaturas e cinco helicópteros durante a ação, findada apenas quando os suspeitos saíram do prédio atirando.

Sequestro em mercado

Em paralelo, Amedy Coulibaly manteve pessoas sob a mira de fuzis kalashinikov no mercado Hyper Cacher, em Porte de Vincennes, conhecido por sua grande comunidade judaica. O atirador ameaçava assassinar as pessoas no local caso Said e Chérif não saíssem ilesos do cerco policial. Agentes do grupo tático francês tomaram o local minutos após a morte dos irmãos Kouachi em Dammartin-en-Goële.

Crianças das escolas próximas foram permaneceram dentro dos colégios e a polícia pediu para que os pais não saíssem de casa para buscá-las, a fim de evitar novas ocorrências. Mais cedo, a Praça do Trocadéro, no entorno da Torre Eiffel, foi esvaziada durante 20 minutos. O metrô não parou na estação mais próxima. Relatos dão conta de que poderia ter havido mais um incidente armado, mas fontes da imprensa afirmam que o ministro do Interior, Bernard Cazaneuve, disse tratar-se de um alarme falso.

Coulibaly e os irmãos Kouachi teriam integrado a mesma célula jihadista, localizada em Buttes-Chaumont, em Paris. Ele e Chérif Kouachi seriam seguidores do franco-argelino Djamel Beghal, condenado em 2005 por terrorismo. Beghal admitiu ter conspirado para fazer um atentado contra a embaixada americana em Paris.

Arco do triunfo charlie

“França em choque”

A França está em alerta máximo para mais ataques desde o pior atentado terrorista do país em décadas – o massacre da última quarta-feira, 7 de janeiro, em Paris, na revista satírico Charlie Hebdo, que deixou 12 pessoas mortas. O presidente francês, François Hollande, em um pronunciamento à televisão, disse que o país está choque e conclamou a população a participar das manifestações. O presidente destacou a bravura dos agentes envolvidos no combate aos jihadistas. “Os assassinos foram neutralizados graças a uma ação dupla e gostaria de saldar coragem dos policiais civis e militares que participaram dessas intervenções. Estamos muito orgulhosos deles. Quando a ordem foi dada, fizemos a invasão com coragem para salvar os reféns e neutralizar os terroristas”, afirmou.

Hollande classificou o sequestro no mercado judaico como um “atentado antissemita”. “Queria pedir a união da nossa sociedade, o que significa que temos que lutar contra tudo o que pode nos dividir. Temos que ser implacáveis contra o racismo e antissemitismo, porque este atentado de hoje ao mercado foi antissemita. Esses que cometeram esses atos dramáticos não têm nada a ver com a religião muçulmana”, disse.

O presidente francês disse ainda que a resposta ao terrorismo deve ser dada em escala mundial. No próximo domingo, 11 de janeiro, haverá uma reunião dos ministros do Interior europeus.

Said e Chérif Kouachi, irmãos de 34 e 32 anos, suspeitos de autoria do atentado contra a Charlie Hebdo (Crédito: NBC News)

Said e Chérif Kouachi, irmãos de 34 e 32 anos, suspeitos de autoria do atentado contra a Charlie Hebdo (Crédito: NBC News)

Irmãos radicais

O jornal norte-americano New York Times revelou, na quinta-feira, 8 de janeiro, que Said Kouachi, 34 anos, um dos dois irmãos suspeitos do ataque, viajou ao Iêmem em 2011 para treinar em uma filial do grupo terrorista Al-Qaeda, autor dos ataques de 11 de Setembro.  Ele teria participado de treinamentos de combate, pontaria e outras habilidades, informação que as autoridades francesas e americanas já conheciam.

Assim como seu irmão mais novo, Chérif, 32 anos, Said estava sob a mira das autoridades na França e dos Estados Unidos há anos e, de acordo com um funcionário da inteligência americana, ambos estavam no banco de dados americano de terroristas conhecidos ou suspeitos e foram proibidos de viajar para ao país.

Chérif Kouachi chamou a atenção das autoridades francesas como um possível terrorista há dez anos. Ele foi preso na França, em 2005, quando se preparava para ir à Síria, a primeira etapa de uma viagem que tinha como destino o Iraque.

O ramo iemenita da Al-Qaeda já havia declarado interesse em alvejar o jornal. A edição de 2013 da revista de propaganda em inglês do grupo, “Inspire”, coloca o editor do “Charlie Hebdo”, Stéphane Charbonnier, como alvo ao lado de outros proeminentes jornalistas, escritores e figuras públicas. “Procurado vivo ou morto por crimes contra o Islã”, a revista dizia.

Embora conhecidos das autoridades francesas, os irmãos Kouachi parecem ter vivido estilos de vida discretos em torno de Paris. Filhos de pais imigrantes da Argélia, Chérif e Said foram criados em um orfanato em Rennes, no Oeste da França. Chérif trabalhou como instrutor de fitness antes de se mudar para Paris, onde viveu com seu irmão na casa de um convertido ao Islã.

* Com informações do Último Segundo, G1, O Globo, Efe e Reuters.

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