7 de outubro de 2022


Em busca do melhor ângulo


03/03/2006


Juntamente aos jornalistas que se aglomeram em busca da notícia, estão os repórteres-fotográficos em busca do melhor clique — e para consegui-lo, é preciso ter o colete que dá acesso à pista ou o crachá que permite subir à torre de TV, onde se tem uma visão aérea da avenida.

Nelson, do Valor Econômico

Nelson Perez, repórter-fotográfico do Valor Econômico, cobre o carnaval da Sapucaí há 16 anos e diz que para quem nunca fez a festa é maravilhosa:
— No entanto, para quem está na labuta anual, é muito estressante. Temos pouca estrutura para fazer um bom trabalho, porque esbarramos em um monte de coisas, como os seguranças das escolas que não deixam você trabalhar direito e os limites físicos da apoteose, pois sem o colete é impossível chegar a alguns lugares. É a estrutura do carnaval, não adianta discutir que ela não será mudada. E também é uma cachaça, muito legal de fazer. Gosto de ver o resultado publicado, embora hoje trabalhe num jornal não voltado para o desfile, mas para os empresários que estão desfilando.

Outro ponto relevante, segundo Nelson, é a pressão do fechamento. Nos tempos em que trabalhava no Jornal do Brasil, além de correr atrás da melhor foto, era preciso correr para revelar o filme e selecionar o material para a edição do dia seguinte:
— Hoje, a diferença é que corremos com o cartão de memória das câmeras digitais, que, no entanto, facilitam o envio desde que se tenha um computador conectado à internet. O que eu observo é que são centenas de fotógrafos, mas cada um desenvolve uma visão diferente sobre um mesmo tema e o resultado é sempre diversificado.

Fotografando do alto da torre de TV, Nelson diz que antigamente ia ali para se refugiar do estresse da avenida e buscava a melhor foto lá embaixo.
— Aqui em cima, se eu bobear perco a foto, porque os carros alegóricos passam muito rapidamente. Eles são mais bem fotografados daqui, mas as pessoas, não. Agora os desfiles são muito mais teatrais, espetacularizados. Isso aqui é totalmente hollywoodiano, acabou a festa popular.

Alex Slaib, da Tribuna

Alex Slaib, do jornal A Tribuna, de Niterói, cobre os desfiles na Sapucaí há nove anos e acha que o que varia a cada carnaval é a expectativa em relação à escola para que torce, a Viradouro — “aí, sim, a emoção é diferente”, diz. Ao contrário de Nelson, ele prefere fotografar da torre, “porque na passarela rola muita pancadaria”:
— Aqui é mais light e podemos fazer fotos diferentes, além das panorâmicas. Lá embaixo, já vi muitos colegas serem espancados pelos seguranças das escolas, que não deixam a gente trabalhar, mas, felizmente, nunca sofri esse tipo de agressão. Na verdade, é preciso gostar realmente do que se faz.

Frederico, da Embratur

Acostumado a fazer fotos de publicidade e estreando na avenida, Frederico Borba, da Embratur, empolgava-se com seu primeiro trabalho fotojornalístico:
— É um privilégio estar pertinho do que está acontecendo. É um espetáculo bonito de se ver, uma das manifestações da cultura brasileira, e o primeiro evento grande que eu faço. No desfile das escolas do grupo de acesso, fotografei lá de baixo, mas as especiais, preferi registrar daqui de cima. Cada um tem suas peculiaridades. Lá embaixo é possível mostrar o sentimento das pessoas, a expressão de cada um, mas aqui faço uma visão geral do que está acontecendo.

Com 23 anos de profissão — 20 deles dedicados à cobertura da Sapucaí — Carlos Magno, da revista Rio, Samba e Carnaval, diz que o trabalho é sempre diferente:
— É uma festa vibrante, todos estão alegres, o que oferece um festival de imagens. Às vezes, fico até perdido com tanta riqueza. Podemos sempre testar um olhar novo, que vai sendo amadurecido ao longo dos anos.

  Carlos: duas décadas de avenida

Segundo Carlos, a cobertura não tem monotonia — “pode ser um trabalho cansativo, mas é sempre excitante.” Na torre ou na avenida, ele diz que é possível fazer boas fotos. E avisa:
— A dica é aproveitar ao máximo essa diversidade de imagens e deixar a imaginação fluir.

Onofre: Rio e Europa

Único repórter-fotográfico entrevistado na passarela, Onofre Veras cobre os desfiles de carnaval há vários anos e desta vez trabalhou para A Voz de Portugal, jornal que circula no Rio e na Europa. Analisando sua experiência na Sapucaí, ele diz:
— A cada ano aumenta o número de profissionais, mas a velocidade da internet ajudou. É preciso se modernizar, acompanhar a tecnologia, porque fazemos a foto e precisamos transmiti-la para o mundo. Hoje, em menos de dez minutos qualquer país vê o que está acontecendo.

Sobre os atropelos na avenida, comenta:
— É um pisa-pisa, um dando cotovelada no outro, porque todos querem ter o primeiro plano. Mas depois todo mundo se cumprimenta, pede desculpas, porque todos se conhecem e sabem que o trabalho é isso mesmo.

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