Em busca de espaço para as pautas do Nordeste


03/06/2008


 Willkier Barros
06/06/2008

Nascido na pequena Cedro, no Ceará, Jarbas Oliveira tornou-se repórter-fotográfico há 23 anos, quando tinha 20 de idade. Hoje morando em Fortaleza — onde, no momento, se dedica a um ensaio sobre a Praça do Ferreira, cartão-postal da cidade —, ele conta que o interesse pela fotografia surgiu sem aviso:
— Um belo dia, ainda na minha cidade natal, fui visitar meu tio e me deparei com uma Olimpus Trip 35. Sem refletir muito, peguei a câmera e comecei a fazer meus primeiros cliques a esmo. O resultado foi fantástico. Era como se eu registrasse algo que me fugira aos olhos no dia-a-dia e que era impossível de ser captado de forma natural.

O ato de fotografar passou a ser automático na vida de Jarbas, um autodidata que, mesmo tendo se mudado para Fortaleza, diz que sua experiência na Região Centro-Sul cearense estabelece involuntariamente laços permanentes com seu trabalho:
— Só quem morou em uma cidade a mais de 400 quilômetros da capital e fez inúmeras vezes o trajeto de ida e volta para tentar vencer na vida sabe que a experiência é marcante. Entre as muitas idas e vindas, passava seis meses no interior e seis na cidade grande.

Em 1983, com 17 anos, Jarbas comprou uma Minolta — “inapropriada para determinados trabalhos, em função da ausência de fotômetro, mas bastante apropriada para registrar os primeiros trabalhos que renderiam alguma remuneração”. O Brasil vivia um período conturbado, com movimentos sindicais e estudantis, a criação do Partido dos Trabalhadores e o surgimento da figura do Luiz Inácio Lula da Silva. Atento às muitas mudanças pelas quais passava o País, o fotógrafo conseguiu emplacar seus primeiros trabalhos em revistas de prestígio, como Senhor e Visão, e em muitos jornais.

A escolha

Apesar de já desenvolver trabalhos no fotojornalismo, Jarbas, ainda incerto quanto ao seu futuro, optou por entrar no curso de Agronomia, da Universidade de Fortaleza (Unifor), uma instituição privada, para o com o intuito de ajudar seus pais, agricultores. Lá, participou de um concurso de fotografia e ficou em 2º lugar:
— Isto me fez refletir sobre a minha escolha profissional. O resultado é que abandonei a Agronomia dois anos depois, já no fim da ditadura, comecei a fotografar para sindicatos.

Ao cobrir uma manifestação de estudantes em Fortaleza, Jarbas teve sua foto publicada no Estado de S.Paulo, um dos jornais de maior circulação no País. Decidiu então que era hora de cursar Jornalismo, se inscreveu e passou no vestibular da Universidade Federal do Ceará. Ali teve a certeza de ter feito a escolha certa e conseguiu seu primeiro estágio, na redação do jornal cearense O Povo, onde trabalhou como revisor ao mesmo tempo em que fotografava para a agência Ágil, de Milton Guran e André Dusek.

Em 2000, foi convidado pela Folha de S.Paulo para cobrir as eleições paulistas, durante três meses. Chegou a pensar em se fixar no estado, mas era o início de um período de grandes cortes nas redações e ele resolveu virar frila, trabalhando para jornais e revistas como O Dia, Agora São Paulo, Correio Braziliense, Estado de Minas, Zero Hora, Veja, Época, IstoÉ, Quem, Caras e Casa Claudia, além das agências EFE (espanhola), Reuters (inglesa) e Associated Press (norte-americana):
— Essa crise nas redações me motivou a voltar para o Ceará. Os baixos salários pagos aos colaboradores fixos também são desestimulantes. Trabalhando como freelancer e produzindo em média uma pauta por semana, ganho muito mais que os colegas que estão dentro das redações. Então, vou em frente. Como diz o ditado, jacaré que não nada vira bolsa.

Professor

Jarbas também contribuiu para o fotojornalismo como professor da cadeira na Universidade Federal do Ceará:
— Acho que, durante cinco anos, consegui desenvolver um trabalho sólido com os alunos. Acho importante ter o conhecimento prático; sua ausência é um fator negativo entre o professor e o aluno, castra a dinâmica necessária para que o estudante possa vivenciar o trabalho antes de ser lançado no mercado. Outra coisa fundamental para quem dá aulas é acompanhar o surgimento de novas tecnologias e se manter atualizado com o que está sendo feito no Brasil e em outros países. Há grandes profissionais atuando em todo o mundo, como o brasileiro Lalo de Almeida, frila da Folha, Diane Hare, do New York Times, e tantos outros. O estudante e o profissional têm que buscar se reciclar e ser melhor a cada dia — ressalta.

Convidado para cobrir a Copa da França para O Povo, em 98, o fotógrafo deixou a carreira acadêmica em suspenso. Atualmente, além de trabalhar na produção de “O livro das horas da Praça do Ferreira”, Jarbas quer montar um catálogo de imagens do Nordeste:
— Por aqui não acontece muita coisa de repercussão nacional. Então, há uma inconstância de material. A sorte é que temos no Ceará alguns líderes políticos de influência nacional, como o Tasso Jereissati e o Ciro Gomes, porque, de forma geral, as decisões que afetam o País não passam pela região — diz. — Tanto que apenas a Folha e O Globo mantêm um jornalista fixo, cada, em Fortaleza. Os demais veículos recorrem a profissionais como eu, que fazem imagem apenas quando pautados, pois raras são as vezes em que nós, freelancers, sugerimos pautas que são acatadas. Vejo a necessidade de se mudar um pouco essa ótica dos veículos do Sul e Sudeste, para que possamos diversificar mais a geração de reportagens de grande valor agregado para a cultura do País. 


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