19 de agosto de 2022


Chico Mendes no Cine Macunaíma


08/06/2021


Por Vera Perfeito, Diretor de cultura da ABI


Macunaíma mostra luta de Chico Mendes

O Cineclube Macunaíma exibe hoje, a partir das 10hs até segunda-feira, o documentário Chico Mendes – um povo na floresta, do jornalista, ambientalista e documentarista acreano Edilson Martins. O filme de 47 minutos é uma crônica da luta de Chico Mendes e seus companheiros, especificamente no Acre, contra a transformação da Amazônia. A produção deste documentário é de 1989, ano seguinte à morte do ambientalista, e onde ele afirma que seria assassinado sem que obtivesse proteção dos órgãos de segurança.

Às 19h30, haverá um debate do diretor do filme com o cineasta Silvio Tendler e convidados: os jornalistas, ambientalistas e conselheiros da ABI, Cristina Serra e Ricardo Carvalho. O jornalista Ricardo Cota será o mediador. Você pode assistir o filme e o debate pelo canal da Associação Brasileira de Imprensa no YouTube.

 

Documentário

Chico Mendes (1944-1988) só se tornou conhecido após a sua morte. Em boa parte, graças às matérias e reportagens de Edilson Martins, como a última – e estarrecedora – entrevista do líder seringueiro, em que este denuncia a articulação de fazendeiros e autoridades da Polícia Federal para matá-lo. Chega a enunciar, com todas as letras, os nomes de seus futuros assassinos. Chico foi também sindicalista e ativista ambiental. Lutou pela preservação da Floresta Amazônica e suas seringueiras nativas, recebendo da ONU o Prêmio Global de Preservação Ambiental.

Francisco Alves Mendes Filho era seu nome completo, tendo nascido em Xapuri, Acre, no dia 15 de dezembro de 1944. Filho do seringueiro Francisco Alves Mendes e de Maria Rita Mendes, desde criança acompanhava seu pai pela floresta, presenciando o desmatamento na região. Sem escolas na região, só foi alfabetizado com 19 anos.

Em 1975, Chico Mendes iniciou sua atuação como sindicalista, sendo nomeado secretário geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Basileia. No ano seguinte, iniciou sua luta em defesa da posse de terra para os habitantes nativos da região, criando os “empates” – forma de luta pacífica para impedir o desmatamento da floresta, onde toda a comunidade se mobilizava e fazia barreiras com o próprio corpo nas áreas ameaçadas de destruição pelos serralheiros e fazendeiros.

Em 1977, participou da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri e, nesse mesmo ano, foi eleito vereador pelo MDB, recebendo as primeiras ameaças de morte por parte dos fazendeiros. Em 1981, torna-se presidente do Sindicato de Xapuri, e, no ano seguinte, candidata-se a deputado federal pelo PT, mas não consegue se eleger. Em 1984, foi acusado de incitar os posseiros a praticar violência, sendo julgado pelo Tribunal Militar de Manaus. Foi absolvido por falta de provas.

Em outubro de 1985, Chico Mendes lidera o Primeiro Encontro Nacional de Seringueiros, quando apresentou a proposta da “União dos Povos da Floresta”, um documento que reivindicava a união das forças dos índios, trabalhadores rurais e seringueiros, em defesa e preservação da floresta Amazônica e das reservas extrativistas em terras indígenas.O ativista denunciou também o constante massacre sofrido pelos povos indígenas. Nessa época, criou o Conselho Nacional dos Seringueiros.

A liderança de Chico Mendes na luta dos seringueiros e na preservação da floresta atingiu repercussão nacional e internacional e, em 1987, proferiu um discurso na reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Miami (EUA), denunciando a destruição da floresta e solicitando a suspensão do financiamento para a construção da BR – 364, que atravessaria o estado de Rondônia e chegaria ao Acre.O objetivo da rodovia seria criar um caminho para escoar a produção gerada pelos estados amazônicos e pelo Centro Oeste, que chegaria ao Pacífico pelo porto peruano.

Nesse mesmo ano, Chico Mendes recebeu em Xapuri uma comissão da ONU que viu de perto a destruição da floresta e a expulsão dos seringueiros. Dois meses depois o financiamento foi suspenso e o BID exigiu do governo brasileiro o estudo do impacto ambiental na região. O Senado americano, onde Chico Mendes também foi convidado a falar, fez recomendações a diversos bancos que também financiavam projetos na região. No mesmo ano, Chico Mendes recebeu da ONU o Prêmio Global 500, de Preservação Ambiental.

Em 1988, foi criada no Acre, a União Democrática Ruralista (UDR) e Chico Mendes participa da criação da primeira reserva extrativista do Acre. Após a desapropriação das terras do fazendeiro Darly Alves da Silva e de receber ameaças de morte por prejudicar o progresso da região, Chico denuncia o fato às autoridades, pedindo proteção, o que não ocorreu. Durante o Terceiro Congresso Nacional da CUT, Chico Mendes volta a denunciar as ameaças que vinha recebendo. A tese que apresenta – “Defesa do Povo da Floresta” – em nome do sindicato de Xapuri, é aprovada por unanimidade. Ele é eleito suplente na direção da CUT.

Durante todo o ano de 1988, recebe ameaça de morte por grupos ligados à organizações clandestinas que desmatavam a região. Após inúmeros conflitos, foi assassinado, com tiros de escopeta, ao sair de sua casa em Xapuri. Em 1990, os acusados de sua morte, o fazendeiro Darly Alves da Silva, o mandante, e seu filho Darci Alves da Silva, o executor, foram julgados, condenados a 19 anos de prisão e levados para a Penitenciária de Rio Branco. Três anos depois, eles fugiram, sendo recapturados em 1996. Em 1999, conquistaram liberdade condicional.

Chico Mendes faleceu em Xapuri, no Acre, no dia 22 de dezembro de 1988, deixando a esposa Ilzamar Gadelha Mendes os filhos Sandino e Elenira e Ângela, filha do primeiro casamento. A casa onde Chico Mendes morou em Xapuri, no Acre, foi reformada  e transformada em “Memorial Chico Mendes” e recebe um grande número de visitantes.

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, foi fundado em 28 de agosto de 2007 com o objetivo de implantar, gerir, proteger, fiscalizar e monitorar as Unidades de Conservação implantadas pela União.

 

Debatedores

Edilson Martins é escritor, jornalista e documentarista e há mais de 40 anos trabalha com temas relativos à Amazônia e seus conflitos. Nascido num seringal, o Esperança, no Acre, foi militante e preso político no final da década de 1960. É autor de sete livros: Chico Mendes Um povo da floresta; Nós, do Araguaia; Makaloba; Nossos índios, nossos mortos; Amazônia, a última fronteira; Páginas verdes e Ecologia A busca da sobrevivência.

Ele trabalhou no Jornal do Brasil, Diário Carioca, Tribuna da Imprensa, Manchete e O Pasquim, e produziu reportagens também para a TV Globo, TV Brasil (ex-TV Educativa) e a extinta TV Manchete. Ganhou o mais conceituado prêmio da televisão brasileira, o Vladimir Herzog, com o documentário Chico Mendes Um povo da floresta, veiculado praticamente no mundo inteiro. Em 2011, dirigiu a série AmazôniAdentro  exibida pela TV Brasil. Parte de seus trabalhos está disponível no Portal da ONU, na internet.

Em 2019, Edilson foi bloqueado pelo Facebook por trinta dias por um fato inusitado: publicou imagens de índios nus no extremo-oeste da Amazônia. O fato mereceu destaque em O Globo, na coluna de Ancelmo Gois. Sobre a censura, Edilson declarou: “o Zuckerberg, via sua poderosa multinacional, pretensamente moralista, zelosa dos valores éticos de um país comandado por Trump, parece querer competir com a longa noite das mentiras e discriminações que ameaça se implantar entre nós”.

A jornalista e ambientalista Cristina Serra, é conselheira da ABI, trabalhou no Jornal do Brasil, revista Veja e Rede Globo. Atualmente, escreve para o jornal Folha de São Paulo. É autora dos livros Tragédia em Mariana – a história do maior desastre ambiental do Brasil, A Mata Atlântica e o Mico-Leão-dourado – uma história de conservação e do recém-lançado Entrevista.

O jornalista Ricardo Carvalho, diretor da ABI em São Paulo,  é especialista em Meio Ambiente e Sustentabilidade. Trabalhou na Folha de São Paulo, TV Globo, foi diretor da TV Cultura, diretor e roteirista documentários como o de  D.Paulo Evaristo Arns, o Coragem, além de séries para televisão sobre Meio Ambiente. Escreveu as biografias de D. Paulo Evaristo Arns e a do maestro e pianista Joao Carlos Martins.

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