9 de agosto de 2022


Casa Villarino: a greve do uísque e outras histórias


26/11/2020


 

Casa Villarino, esquina da Av. Presidente Wilson com Calógeras, centro do Rio (Crédito: Rogério Marques)

Por Maria Lucia Rangel*

Numa tarde de maio de 1956, Vinicius entrou no Villarino com um problema sério e urgente que talvez só seu velho amigo Lúcio Rangel pudesse resolver. O jornalista lá estava, dividindo a mesa e uma garrafa de uísque com o radialista e compositor Haroldo Barbosa.

A jornalista Maria Lucia Rangel posa junto ao painel na parede do Villarino, entre o pai, Lúcio Rangel, e Vinicius de Moraes.

O poeta concluíra sua parte na ópera popular Orfeu da Conceição e procurava um novo parceiro. O primeiro convidado, Vadico, um dos parceiros de Noel Rosa e ex-pianista de Carmen Miranda, desistira do trabalho por motivos de saúde. Lúcio foi rápido e indicou o jovem músico que, sentado a poucos metros, fazia a correção de um maço de pentagramas com alguns goles de chope. O poeta e o músico já tinham se visto na noite mas foram formalmente apresentados neste dia. Tom Jobim aceitou o convite na hora. E, já com um copo de uísque na mão, perguntou baixinho a Lúcio: “Tem um dinheirinho aí?”

A Casa Villarino, inaugurada três anos antes – 1953 – entrava pra história pegando carona na dupla famosa de compositores. Durante as décadas de 50 e 60 foi ponto de encontro e testemunha de grandes histórias com grandes personagens, perpetuadas em livro — À mesa do Villarino — pelo jornalista Fernando Lobo, pai do compositor Edu Lobo. Ele conta, entre outras coisas, que o bar era tão bem frequentado que Adolfo Bloch, num fim de tarde,  apareceu e contratou Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto, Antonio Maria, entre outros, para sua revista Manchete.

Charge da greve do uísque publicada em jornal da época

Localizado na Avenida Calógeras, 6, esquina com a Presidente Wilson, Centro do Rio, o Villarino era parada obrigatória dos boêmios no final da tarde (no início abria as portas às seis da tarde). Manuel Bandeira e Lúcio Rangel iam a pé, pois moravam no mesmo prédio na Av. Beira Mar. Alguns, como Vinicius de Moraes, caminhavam vez ou outra com amigos até a Zona Sul, como conta o poeta em uma crônica. Mas os famosos frequentadores vinham de todos os lugares: Di Cavalcanti, Antonio Bandeira e Lígia Clark, Dolores Duran e Elizeth Cardoso, Ary Barroso, Evaldo Rui, Antonio Maria, Aloisio de Oliveira, José Lins do Rego e tantos outros.

Bebedores de uísque, numa dessas tardes etílicas, o grupo reclamou contra o alto preço da bebida, contra a falsificação e contra a quantidade das doses que eram servidas, diminuindo cada dia. Paulo Mendes Campos propôs então uma greve. Eles deixariam de frequentar bares e boates por uma semana. Sem dúvida o Villarino via nascer a ideia da mais original greve já planejada no Brasil. O quartel-general dos grevistas era o bar da Calógeras. As adesões vieram de todo canto: Millôr Fernandes, Irineu Garcia, Flávio de Aquino, Luís Jatobá, Darwin Brandão e mais e mais. Reportagens nos jornais, charges e entrevistas amenizaram um pouco o problema dos bebedores.

Outra novidade acontecida no Villarino foi muito comentada na época. Fernando Lobo conta em seu livro que Avila, um dos frequentadores mais assíduos, uma noite fez um desenho na parede dos fundos do bar, onde ficavam as mesas que, reunidas numa só, acomodavam os amigos. O pintor Antonio Bandeira deu então a ideia de cada um deixar uma lembrança na parede. A iniciativa deu frutos: Pancetti desenhou uma marinha com o baton de uma amiga e, com o baton de Dolores Duran, deixou belos barcos vermelhos. E todos foram contribuindo: desenhos de Di Cavalcanti, versos de Paulo Mendes Campos e Manuel Bandeira. Vinicius de Moraes levou Pablo Neruda para conhecer o bar e os dois deixaram seus poemas.

Ary Barroso escreveu acordes de Aquarela do Brasil. Elizeth, Dolores e Fernando Sabino deixaram autógrafos. As obras eram realizadas com o que se tinha à mão: batons, ketchup, mostarda.

Algum tempo depois os frequentadores encontraram a parede pintada de branco. O proprietário não gostou da “brincadeira” e deu fim ao afresco que hoje não teria preço. Véspera de Natal, mandou pintar por cima. Anos depois o novo proprietário, Antonio Vasquez Álvares, antigo garçom da casa, fez de tudo para recuperar as obras escondidas. Não conseguiu. Algumas fotos restaram do trabalho dos boêmios. Lembro do meu pai, de Tom e Vinicius me contando o que aconteceu e xingando o dono.

Em 2003, a família de Vasquez Álvares organizou uma festa para comemorar os 50 anos do Villarino. Levei Ana Jobim, viúva de Tom, e Luciana de Moraes, filha de Vinicius. Foi uma noite alegre e muitos se deixaram fotografar diante da foto que ocupou o lugar das pinturas. Lá estavam João Condé, Roberto Assunção, Lúcio Rangel, Vinicius com o filho Pedro de Moraes, Paulo Mendes Campos (de pé), Fernando Lobo e de costas, Sérgio Porto, para quem todos olham e riem. Stanislaw estava nascendo.

Aviso fixado na vitrine Foto: Rogério Marques

Até que esta semana recebemos a notícia triste: a Casa Villarino, depois de 67 anos, fechou suas portas por causa da pandemia do novo coronavírus. As fotos que cobriam as paredes devem estar guardadas e todos esperam dias melhores. Mas o Rio de Janeiro está bem mais triste.

*Maria Lucia Rangel, jornalista, filha do jornalista Lúcio Rangel (1914-1979).

*Fotos do arquivo de Lúcio Rangel


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Publicado em: 24 de nov de 2020 às 18:02

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