Artigo Mausy Schomaker e Andrei Bastos: “Nós não perdoamos”


Por Andrei Bastos e Mausy Schomaker

24/02/2015


“Nosso amado filho Alex Schomaker Bastos foi assassinado com sete tiros num ponto de ônibus, às 21h30m do dia 8 de janeiro, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, em frente ao campus da UFRJ, por dois assaltantes que levaram apenas seu celular.

Nós não perdoamos os assassinos nem os governantes.

Não nos perdoamos por não estarmos, magicamente, entre a arma e nosso filho no momento dos disparos. Agora, nos surpreendemos com Mezim Magrah, o curandeiro cívico de “Magic”, o jogo de que Alex tanto gosta, que diz em uma das cartas: “Você pegou alguma coisa passeando em uma noite fria? Não. Eu diria que alguma coisa é que pegou você”.

Não perdoamos o primitivismo dos instintos maus dos rejeitados pela civilização que atiraram em nosso filho. O que eles fizeram está muito além da simples banalização do mal e deixa claro que a barbárie já se instalou em nossa sociedade, e faz com que nos escondamos atrás das grades que cercam nossas casas. Isso não é vida para ninguém e precisamos sair das prisões que construímos para nós mesmos e ocupar as ruas, que esquecemos que são nossas.

As grades não nos protegem. As grades nos enfraquecem como cidadãos e como sociedade. Atrás das grades quem deve ficar são os assassinos de Alex e de tantos outros jovens.

Nós, os pais de Alex Schomaker Bastos, não perdoamos o Estado brasileiro, configurado nos governos federal, estadual e municipal, que pelas mãos dos seus gestores tem marcado sua atuação pela incúria e dolo, chegando ao criminoso corte de verbas prioritárias em Educação, Saúde e Segurança, como os R$ 7 bilhões que o governo federal cortou na Educação, no ano em que adotou o slogan “Brasil, pátria educadora”, ou o R$ 1,37 bilhão cortado do orçamento da Segurança no Estado do Rio de Janeiro.

Esse dinheiro não traz nosso filho de volta à vida, mas será um dinheiro bem aplicado se evitar apenas um assassinato num ponto de ônibus qualquer. Gostaríamos de perguntar ao governador, quanto vale a vida de seus filhos? A do nosso filho não tem preço.

Nunca encontraremos palavras para expressar nossa dor pela morte de Alex e nosso desprezo pelos nossos governantes. Como diz numa tradução livre de Neil Gaiman, da revista “Sandman”, que nosso filho fez para a abertura do seu memorial descritivo de mestrado, “o Homem não sabe o valor do saber, nem pode encontrá-lo na terra dos vivos… pois o preço da sabedoria está acima dos rubis”.

Nós recebemos o diploma de biólogo e professor de Biologia em nome de Alex, que ama a Biologia, quer estudar doenças raras e ama ser professor. Ele diz: “Quero ser professor, porque como professor eu posso fazer a mudança. Gosto de ver o aluno entrar na sala de um jeito e no final do ano sair de outro”.

Fazemos questão de falar do Alex sempre no presente porque ele nunca morrerá para nós. Ele agora faz parte das estatísticas sobre a violência e crime no Estado do Rio de Janeiro e no Brasil.

No Rio de Janeiro somos proibidos de ficar nos pontos de ônibus, somos proibidos de andar calmamente nas ruas, somos proibidos de nos sentir donos da cidade, pois a violência dos assaltos e as balas perdidas que destroem pela dor inúmeras famílias são resultado, como diz o secretário de Segurança José Mariano Beltrame, “de uma nação de criminosos que se criou no Rio de Janeiro nos últimos 30, 40 anos”.São décadas de descalabro.

A morte de Alex simboliza o desprezo do Estado pelos seus cidadãos, pelos seus professores, seus cientistas, pela educação e pelo desenvolvimento.

Coisas simples como a poda de árvores e a iluminação do local, na rua General Severiano, em frente ao campus da UFRJ, teriam impedido a morte de nosso filho. Será que somos tão desprezados como cidadãos que até coisas simples como iluminação e cuidados com as árvores temos que mendigar? Na “nação de criminosos” da qual nos fala o senhor secretário de Segurança nós incluímos os que permitiram que chegássemos a este ponto.”

*Andrei Bastos é conselheiro da ABI. Ele, e sua esposa, Mausy Schomaker, são os pais do jovem Alex, morto num assalto em Botafogo.

** Artigo originalmente publicado no jornal O Globo.

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