9 de agosto de 2022


Aldir Blanc – O Gigante da MPB – Um ano depois da partida em 04.05.2020.


06/05/2021


Por Zeze Sack, conselheira e jornalista da Comissão de Cultura da ABI

Hoje vamos falar de um artista tão especial, tão grande, que peço emprestada a frase do querido escritor João Guimarães Rosa: “Aldir não morreu, e sim, encantou-se”. Seguirá assim, presente em cada um de nós. Nas casas dos brasileiros, nos espaços culturais e, em especial, nos estúdios e palcos da arte musical.

Aldir agigantou as letras da MPB, em especial, nas vozes de João Bosco, seu parceiro maior, e  Guinga, outro grande parceiro, e também nas vozes de muitos outros artistas. Teve imortalizado na voz de Elis Regina, em 1979 “O Bêbado e a Equilibrista”, seu maior sucesso que virou o hino da volta dos exilados da Ditadura militar.

Falei com Mary Sá Freire, viúva do Aldir, eis o que me disse: “Zezé depois de nossa agradável conversa, da qual espero você posso ter um pouco de material para seu texto, seguem anexados duas manifestações minhas: uma qdo um mês de sua morte e outra sobre o plantio da muda de uma goiabeira branca, tão presente na vida dele, em que registrou em letras e crônicas.” (vide final do texto).

E, respondendo a sua pergunta, como Aldir estaria vivendo nesta pandemia?

“Como falei, não teria resistido por muito tempo.

Foi poupado, ou desistiu, podemos intuir para minimizar a dor de sua ausência.

Desde as primeiras notícias da China, através de e-mails ou por telefone, se comunicava com algumas de nossas filhas, os netos distantes, porque moravam fora do Rio e uma das cidades do Brasil; com poucos amigos de fé: Mello Menezes, amigo-irmão toda sua vida desde a juventude; o jornalista Luis Pimentel, Cesar Tartaglia, Luiz Fernando Vianna, com os parceiros mais frequentes João Bosco e Moacyr Luz e alguns outros mais próximos, com os quais expunha sua preocupação, além da família, uma de suas maiores; os rumos do país, as tragédias cotidianas não só urbanas, de balas perdidas, morte prematura de crianças e jovens das periferias, em sua quase totalidade pretos e pobres, como todos sabemos; as populações degradantemente marginalizadas, de indígenas, quilombolas, enfim, anos de desigualdades que assustadoramente se agravaram nos últimos anos.

E, por descaso com a saúde pública, com a ciência; a ignorância e teimosia assassina, tirando vidas, novas Marias e Clarices, Sonias, Terezas, Eunices…Paulos, Antônios, Josés… choram no solo do Brasil, por seus maridos, companheiras e companheiros, mães, pais, filhas e filhos…. Essa dor assim pungente, não pode ser impunemente ignorada.

Me solidarizo com todas as mais de um milhão de pessoas, que nesse um ano viram suas vidas desmoronarem com tal brutalidade”.

No início da década de 1970 o artista deixou a medicina para se dedicar à música.

“Aldir que deixa a psiquiatria para ingressar em outra forma de cuidado com a saúde mental, dele e a de todos nós com suas composições, entoada por grandes intérpretes, nos levando a viajar e muitas vezes nos encontrar identificados com suas criações nos liberando para uma vida muito leve e verdadeira” resumiu assim: Maria Teresa Lopes – Psicanalista da SBPRJ.

Aldir inspirou uma Lei:

A Lei 14.017, de 2020, foi criada a partir de uma iniciativa do Congresso para socorrer, nos moldes do auxílio emergencial, o setor da cultura, fortemente atingido pela pandemia de covid-19. O total destinado ao setor foi de R$ 3 bilhões, pagos no ano passado. O texto pode ser acessado em https://bit.ly/3kUEqM0.

 

-Reveja aqui, dois textos de Mary Sá Freire, (viúva de Aldir Blanc) de junho e dezembro de 2020.

4 de junho de 2020.

Há um mês, Aldir disse: “Chega, já deu pra mim!”.

E seu corpo parou. Deixaram de funcionar os órgãos vitais. Vida física aqui no planeta Terra. Afastou-se de nosso convívio, cansado de muitas desilusões.

Recolhia-se em seu bunker, como chamávamos, rodeado por livros, revistas de ciência, cultura, política e as especializadas em retratar mulheres nuas. A beleza feminina o cativava.

Ali, sentia-se protegido do mal que existe lá fora, da perversidade do gênero humano que se autodestrói e pode atingir nossos netos e bisneto. É o que ele me confidenciava meio constrangido por estar parecendo um menino assustado.

Pesadelos quase diários relatava nos bilhetes que, ao acordar, eu via em minha mesa de cabeceira, ou na copa ou na pia do banheiro…

Imerso em seus pensamentos, em seu universo misterioso, como fantasiavam os que não o conheciam ou não tiveram a possibilidade de seu convívio. Foi um fértil terreno para que criassem ilusões a seu respeito. “Folclore, deixa pra lá!”, dizia, quando algum comentário era publicado, ou chegava até nós por telefone ou por alguém que vinha da rua contar novidades. Seu universo real era o dia a dia preocupado com a situação mundial, do país, do futuro do bisneto, dos netos, das filhas. Elas cresceram e, naturalmente, foram se distanciando para cuidar das próprias vidas. Nossa casa foi abrigo para cada uma das quatro quando precisaram. Iam e voltavam, ou sabiam; podiam contar com ele sempre que algum desacerto se dava nas escolhas feitas. Eram dias que tiravam nosso sono, mudavam nossa rotina, remexiam nossas vontades. Enfim, como todos os pais e mães amorosos, ouvíamos, alterávamos nossos planos priorizando o bem-estar delas.

Foram mais de 30 anos de amor e conflitos, mas, acima de tudo, doação. Doar nosso sangue para ver renascer nas filhas, nos netos, no bisneto a dignidade de se viver o melhor possível. Simples, sem ostentação, olhando mais para o próximo do que para si mesmo, valorizando a amizade, o respeito e o bom caráter.

Viveu o quanto pôde o cotidiano de brasileiro que sonhou e lutou com suas armas: as palavras, as frases, os versos. Fosse em letras de músicas, poesias ou crônicas, Aldir sabia “como ninguém retratar o fato e o sonho”, “com a malícia, a graça e a malandragem” (palavras de Dorival Caymmi), mostrando a dor, a alegria, o dissabor da gente simples. Ou, ao contrário, retratava aqueles que tentam ser os protagonistas de nossas vidas, acabam por exercer cargos públicos, na maioria das vezes sem escrúpulos, atuando em causa própria ou de seus apaniguados.

Mas hoje é dia de agradecer. Obrigada aos que formaram a imensa corrente de solidariedade e AMOR por sua recuperação, com mensagens, telefonemas, orações e até colaboração financeira para os primeiros socorros. Não encontro a palavra exata para expressar minha gratidão. E um especial agradecimento às equipes do CTI COVID-3, do Hospital Universitário Pedro Ernesto, incansáveis no atendimento aos pacientes e na atenção aos familiares. Ao HU Pedro Ernesto, meu respeito e meu orgulho. Foi a escolha mais acertada que fizemos.

Aldir era nossa estrela em vida e seguirá sendo a estrela a nos proteger.

 

Mari Lucia, a Mary do Aldir

 

“Conhecer o mundo é sentir-se seu dono.

Conhecê-lo bem é amá-lo e sentir-se responsável por ele”

Edward Wilson, 2002

Solidariedade, essa palavra preciosa e que nos manterá unidos, sem distorções. Familiares das pessoas que deixaram nosso convívio, viemos e estaremos aqui para demonstrar que nossa dor será transformada em algo produtivo e tão fundamental nesse momento porque passamos. A cada vida humana perdida, devolvemos à terra uma espécie vegetal que cumprirá o papel de recuperar o estrago provocado pelo próprio homem ao longo dos tempos.

Estamos no início da terceira década do século XXI, e fomos pegos por essa tragédia. Um vírus, um ser vivo nos mostrando como somos frágeis, ínfimos diante da realidade. Joga em nossa cara: a raça humana não é detentora do poder de vida e morte de todas as espécies de vida do planeta. Parem de arrogância!

Assim como ele fazemos parte desse universo, mas, humanos, dotados da capacidade do pensamento, estamos diante da constatação: temos o dever moral da responsabilidade pela proteção de todas as espécies, nas quais também estamos incluídos.

Essa arrogância nos fez chegar aos alarmantes números de hoje. No Brasil, mais de 180 mil mortes em menos de um ano, podendo chegar a 7 milhões de casos constatados a qualquer momento.

Mas, hoje estamos aqui para demonstrar que podemos, e devemos, reagir. Iniciativas como esta dos Bosques da Memória, nos afaga corpo e alma. Nos revigora.

Cada espécie a ser reproduzida no plantio será nossa forma de dizer que as pessoas arrancadas da vida pela Covid se transformarãoem símbolo de ESPERANÇA, porque, reafirmaremos, como na canção, “… uma dor assim pungente não há de ser inutilmente…”.

Rio, 12 de dezembro de 2020

Mary Sá Freire

Siga a abi

© 2013 ABI - Associação Brasileira de Imprensa – todos os direitos reservados -Rua Araújo Porto Alegre, 71 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, Cep: 20030-012