Adeus ao repórter Lúcio Natalício Clarindo


Por Cláudia Souza*

17/11/2013


Dezenas de pessoas acompanharam o enterro de Natalício (Foto: Carlos Moraes / O Dia)

Dezenas de pessoas acompanharam o enterro de Natalício (Foto: Carlos Moraes / O Dia)

O corpo do repórter Lucio Natalício Clarindo, 59 anos, foi enterrado nesta sexta-feira, dia 15, no cemitério São João Batista, em Botafogo, Zona Sul do Rio. Um dos mais atuantes jornal ista policial da imprensa carioca, Natal, como era carinhosamente chamado, acumulou 38 anos de carreira no jornalismo, sendo 35 anos no jornal “O Dia”.

O repórter morreu nesta quinta-feira, 14, no hospital São Vicente de Paulo, na Tijuca, na Tijuca, Zona Norte da cidade, onde estava internado há cerca de um mês com quadro de cirrose hepática.Ele deixa a viúva Regina Lima e a filha Amanda Raiter, repórter de “O Dia”.

Nos anos 1980, o trabalho de investigação de Natal contribuiu para o julgamento do general Newton Cruz, ex-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) durante a ditadura militar. O jornalista descobriu o bailarino Cláudio Werner Polila, que testemunhou contra o militar pelo sequestro e morte do repóter Alexander Von Baumgarten.

— Fiz o meu trabalho de reportagem. Se o júri o inocentou, não posso fazer nada, afirmava Natal,quando comentava o assunto.

Também na década de 80, Natal foi sequestrado pelo bandido Maurinho Branco, quando investigava o sequestro do empresário Roberto Medina, cometido pelo mesmo criminoso.

Repórter especializado em polícia, Natal buscava informações sobre o caso Medina quando foi rendido por Maurinho Branco. Durante as horas em que permaneceu sob a mira de um revólver, Natal negociou com o Bope, tranquilizou o bandido e conseguiu ser solto. O título da reportagem foi “Eu, refém”.

Natal iniciou a carreira em 1973, e nos últimos 35 anos, trabalhou no jornal “O Dia”. Em maio de 2012, lançou o livro “O baú do Natal — histórias fantásticas reais

contadas por um repórter”.

— Natal é uma fonte de inspiração, um dos jornalistas mais apaixonados por redação que conheci, disseo jornalista Aziz Filho, diretor de Redação de O Dia”.

Emocionada, Amanda Raiter agradeceu a homenagem de dezenas de pessoas que compareceram ao enterro:
– Éramos uma multidão com um certo vazio. De todos os tipos, do mais iniciante na carreira ao mais bem sucedido, que ainda representava outros também. Do ‘foca’ ao diretor que não foram. Também tinha o do contato mais breve aos com anos de convivência. Não há como expressar nem a gratidão, nem o conforto. Mas eu tenho sim um legado de amigos dele, de fãs dele, disse Amanda, declarou.

Natalício e a filha, a jornalista Amanda Raiter/ Reprodução "O Dia"

Natalício e a filha, a jornalista Amanda Raiter/ Reprodução “O Dia”

Texto de Luarlindo Ernesto, repórter e melhor amigo do Natal

“A presença dele é inevitável. Na empresa, no bar, na padaria, no restaurante, na memória. Onde vou, lá está ele. Todos se acostumaram à dupla. Até nos bancos, devemos juntos. São 40 anos, dois meses e uns poucos dias. Lado a lado, na tristeza, na riqueza, na alegria, na dor, na pobreza, na gozação, nas brigas e na esbórnia. Eu mesmo tinha batizado nossa dupla de Lúcido (ele) e Sóbrio (eu). Natal chegava a ligar duas, três vezes ao dia, nas férias, doente, de folga, para saber o que estava fazendo, com quem estava. Ainda escuto a voz dele, aqui ao meu lado, me chamando para sair da redação e ir até a calçada, para fumar.  40 anos ao lado dele. Não aguentei nem a primeira mulher, a segunda, a terceira, a quarta e por aí afora, esse tempo todo. Mas Natal foi diferente. Aturei a ranhetice, as queixas, as mágoas e as alegrias. Vai ser triste viver sem a sua companhia. Ele aprendeu a trabalhar levando broncas minhas. Elogios, também. O cara, certa vez, avisou que iria até a minha casa. Concordei, claro. Mas ele chegou às 6 horas da manhã! Não tive tempo de curar o porre do dia anterior. Dividíamos o salário, as dívidas, o cigarro, a bebida. As mulheres, não.

Amarrei ele em uma árvore, na porta do jornal. Bem, ele não iria cair. Parecia São Sebastião diante dos algozes. Mas impedi que ele caísse no chão. No dia seguinte, estávamos no trabalho. De ressaca, mas Lúcido e Sóbrio. Ninguém desconfiaria da dificuldade que foi chegarmos em casa, ele e eu. Pô, como ficar sem a parceria desse tempo todo? É difícil. E, para não deixar passar a oportunidade em dar um exemplo e, ainda, para mostrar como éramos unidos, a última da dupla foi quando eu estava internado, me recuperando de um enfarte, e soube que o Natal havia sido internado também. No mesmo hospital. Eu saí no dia 17 de setembro, e ele entrou no dia 15, dois dias antes.

Então, quando o Chico Alves, nosso chefe direto, me ligou para saber como estava a saúde, respondi usando jargão de jornal: “Já estou bem, aguardei a rendição no local do crime e cheguei em casa. O Natal me rendeu”. O difícil foi fazer o chefe acreditar que o Natal estava internado, no mesmo hospital… Tive que jurar, pô. Então, Chico ainda perguntou o que havia acontecido. Foi difícil explicar. Não sabia detalhes. Não me contaram nada, estavam poupando meu coração. Somente sabia que ele estava lá, internado. E me recusei a ir vê-lo, entubado, desfigurado. Até o médico me aconselhou a não ir visitar o amigo. Telefonei diariamente para o hospital e acompanhei o drama da luta dele para sobreviver. Bem, agora, em breve acho eu, está quase na hora de retribuir a rendição.”

Depoimentos sobre Natal:

Alexandre Medeiros, Editor Executivo do “DIA“:

“Desde que voltei ao “DIA” , no final de 2012, o Natal batia ponto na minha mesa todos os dias. Vinha vender pautas como se fosse um foca querendo mostrar serviço.

Como nos tempos em que eu chefiava a Reportagem e ele ficava na escuta, no velho” DIA” , no início dos anos 1990. Quando saía da salinha em minha direção e dizia “essa tem que correr”, eu nem discutia. Carro e fotógrafo. Mesmo com a saúde debilitada, ao longo deste ano Natal emplacou algumas matérias bem legais, como a da violência em Santa Teresa e a do mercado negro de peças de automóveis. Aquele velho faro pela notícia, ele ainda guardava como poucos.

Natal era um digno representante daquele jornalismo quase romântico, que incomoda por ser desconcertante. E ele ainda gozava de sua própria condição de orbitar, de quando em vez, outras esferas da percepção humana. Um dia me disse, num canto da redação: “Medeiros, eu posso ser louco. Mas aqui tem gente pior do que eu”. Olhando assim, de relance, pura verdade. Na redação, na rua, na vida. Lá de cima, ele vai rir de nossas loucuras aqui embaixo. Enquanto a gente se acha um poço de sensatez…

Valeu, Natal! A redação do Além ganhou um puta reforço.”

Marcelo Moreira, da Rede Globo”

“Natal foi uma das primeiras referências pra mim no jornalismo. Era estagiário e convivemos no começo dos anos 90. Era fascinante ouvir as histórias das coberturas que ele fazia. Natal era jornalista puro, completo e de uma geração que não se encontra mais.”

Luiz Carlos Cascon, da editoria Rio, do jornal “O Globo”

“Tive o privilégio de conviver com o Natal por mais de 30 anos, correndo atrás de notícias pela rua, durante um período como chefe dele no DIA e sobretudo como amigo. Era uma figura humana muito especial e um repórter extremamente compromissado. Lembro que em meados de 1988 protagonizamos juntos uma complicada cobertura de assalto a banco em Teresópolis. Os bandidos em fuga invadiram uma casa levando um menino de 10 anos como refém.

Eu e o Rodrigo Taves, repórter do extinto JB, entramos na casa para que os assaltantes libertassem o menino e se entregassem, como haviam combinado com os policiais que faziam o cerco no local. Mas, como palavra de bandido não vale, acabamos ficando também como reféns. O Natal, que chegara atrasado na cobertura, se ofereceu para ficar entre os reféns. Muito franco e engraçado, confessou que fez aquilo não por solidariedade aos colegas, mas para não ser furado no dia seguinte.”

Paulo Oliveira, secretário de redação do jornal “A Tarde”, de Salvador

“Lúcio Natalício, meu caro Natal, nunca passava imperceptível pela redação, mesmo quando estava na pequena e isolada sala de rádio escuta de O DIA , sabíamos que ele estava presente. Falava alto ao telefone e datilografava com dois ou três dedos com uma força incrível. Todos o ouviam. Certa vez, ouvi de um chefe que admirava que os bons jornalistas podiam ser esquecidos, mas suas matérias, quando bem feitas, sempre eram lembradas.

Foi Natal quem localizou na Praça 15, o bailarino Cláudio Werner Polila, testemunha do Caso Baumgarten, que identificou o general Nilton Cruz como um dos envolvidos no desaparecimento do jornalista ligado à ditadura.

Natal também fez uma matéria sensacional quando foi sequestrado por Maurinho Branco, bandido que ficou famoso por sequestrar o empresário Roberto Medina. Nas horas em que ficou sob a mira de um revólver, ele negociou com o Bope, tranquilizou o bandido e conseguiu ser solto. Lembro até do título da matéria: “Eu, refém”.

Poderia ficar horas escrevendo sobre Natal, de quem sempre guardarei lembranças, mas os espaços dos jornais são cada vez menores. Por isto, paro por aqui minha homenagem. Para mim, os jornais celestes já devem estar enchendo Natal de propostas para que ele reforce uma de suas redações”

Leslie Leitão, da repórter da “Veja”:

“Coragem é uma das características mais marcantes de um repórter que escolhe para sua vida o jornalismo policial. Sem essa coragem ele vira um burocrata na notícia, agarrado nas versões oficiais, que quase sempre estão longe da verdade integral dos fatos. Sagaz, perspicaz, chato. Natal tinha todas essas qualidades do bom repórter.

Mas era, acima de tudo, corajoso. Até um pouco ‘Natalouco’. Foram seis anos de convívio na redação de O DIA . Anos de conversas, gargalhadas e lições para toda a vida.

Descanse em paz, amigo.”

Marcellus Leitão, editor do Caderno de Automóveis do “DIA”:
“A velha águia da imprensa’, Natal, brindou seus amigos com o espírito da notícia e da picardia. Natal leva consigo a qualidade do bom papo e o companheirismo das redações com as quais conviveu. Luz e paz.”

O jornalista Fábio Lau, diretor e apresentador do programa Conexão Jornalismo, da Rádio Metropolitana, lembrou que entrevistou Natal este ano no programa, para que ele falasse de seu livro ‘O baú do Natal’:
“Ele disse que o livro poderia servir aos estudantes de Comunicação, pois narrava episódios marcantes da imprensa, e dos quais participou, como a Chacina de Vigário Geral. Eu acho que a leitura do livro do Natal é obrigatória para todos os jornalistas”, declarou.

*Com informações de O Globo e O Dia

 

 

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