A mídia que fala ao trabalhador


10/03/2006


José Reinaldo Marques
17/03/2006

No Brasil a classe operária normalmente é estigmatizada pela falta do hábito de leitura. A visão que se tem do trabalhador comum é de uma pessoa que não lê jornais ou revistas e costuma se informar precariamente pela televisão. No entanto, esse mesmo trabalhador tem interesses específicos, principalmente no que diz respeito aos seus direitos, o que pode tornar a procura por um veículo de comunicação um hábito mais constante.

Não é à toa que grandes jornais passaram a dedicar espaço a diversas categorias profissionais, como é o caso do carioca O Dia e sua Coluna do Servidor, voltada para o funcionalismo público.

 Vito Giannotti

Segundo o escritor e pesquisador Vito Giannotti, autor de vários livros sobre o sindicalismo, como “Estrutura sindical” e “A liberdade sindical no Brasil”, a criação e manutenção de uma mídia que chame a atenção do trabalhador não é uma tarefa muito fácil, em função das características do leitor. Por isso, os sindicatos passaram a investir em veículos próprios, cuja linguagem chama a atenção para fatos de interesse do segmento em questão:
— A primeira característica do jornalismo sindical é que ele deixa claros seus objetivos, mostra de que lado está, defende uma classe e, dentro dela, dá especial atenção a um setor. Cada jornal se dedica prioritariamente a uma categoria específica, não há postura de falsa neutralidade, de eqüidistância. Mas isto exige muita seriedade do jornalista, que deve apresentar fatos, dados concretos, e não fazer sermões ou contar lorotas.

Giannotti lembra ainda que esses veículos são distribuídos gratuitamente a um público que não está ávido por sua leitura — quem está ansioso por ela é a direção do sindicato:
— Por isso, o jornal sindical deve ser muito atrativo, bonito, chamativo por sua pauta, sua cara, sua linguagem — sem isso, irá diretamente para o lixo. Seu público, em sua imensa maioria, não lê jornal diariamente. A não ser nos sindicatos de profissionais liberais ou de funcionários públicos de alto escalão, o trabalhador, em geral, lê muito pouco.

                 Bernardo Kucinski

No Brasil, o jornalismo dirigido à classe trabalhadora, de acordo com o pesquisador, surgiu no fim do século XIX, com o processo de industrialização, sob a influência dos imigrantes — “que sempre deram muita importância à formação político-ideológica” — e do anarquismo que, naquela época, se espalhou por Itália, Espanha e Portugal:
— Foram feitas centenas de jornais operários no País — a historiadora Adelaide Gonçalves, da Universidade Federal do Ceará (UFCE), nos fala de mais de 500 jornais operários entre 1875 e 1930, a fase de cunho anarco-sindicalista.

Autores como o jornalista e escritor Bernardo Kucinski dizem que a imprensa alternativa dos anos do regime militar deu seqüência à imprensa operária e comunista brasileira. Mas o jornalismo sindical, segundo Giannotti, só se fortaleceu mesmo com o fim da ditadura:
— De 1980 a 2002, vivemos a fase de ouro da imprensa sindical que, em 92, alcançou uma tiragem recorde de 30 milhões mensais em publicações regulares. Nos sindicatos ligados à CUT (Central Única dos Trabalhadores), que investiam sistematicamente em comunicação, chegou-se a seis jornais sindicais diários.

Mercado de trabalho

Luiz Carlos Máximo, editor do jornal Movimento, acha que os sindicatos deviam investir mais em comunicação:
— É uma pena que a maioria dos sindicatos não consiga manter uma regularidade na publicação de seus jornais. Considero o Movimento o coração da categoria de servidores públicos federais, mas também acho um absurdo que uma organização como a CUT não tenha uma rádio e uma emissora de TV comunitária.

Ana Manuella Soares, há 12 anos trabalhando na área de imprensa da Seção Sindical dos Docentes da UFRJ, diz que o papel principal do jornal sindical é ser mobilizador:
— O Jornal da Adufrj tem um papel político de ser o espelho do movimento do corpo docente da UFRJ e servir de ponte dessa categoria com os outros setores da universidade. Acompanho há muito tempo esse processo, sei que o jornal tem boa expressão dentro do campus, e é assim que tem que ser: o veículo de classe deve ter credibilidade com seu público.

Para Carlos Vasconcellos, professor de Jornalismo e editor do Jornal dos Bancários, há mais a ser levado em conta:
— O mercado de trabalho na imprensa sindical é uma possibilidade que os estudantes de Jornalismo não podem descartar. Percebo algo curioso em meus alunos. Quando optam por Jornalismo, eles só têm em mente a chamada “grande imprensa”, em especial a televisão e os jornais. Mas as assessorias de imprensa e o jornalismo especializado são uma fatia importante a ser levada em consideração.

Em relação ao salário, ele afirma que o jornalismo sindical não é dos piores, estando acima das emissoras de rádio e até da maioria dos jornais:
— No Sindicato dos Bancários, por exemplo, há muitos direitos preservados, como assistência médica, auxílio-alimentação e tíquete–refeição. Além disso, teoricamente, a entidade tem uma obrigação social muito maior do que a de uma empresa privada. Acho a imprensa sindical um mercado interessante para os jovens jornalistas, principalmente os que têm ideais de participar de transformações sociais.

Carlos, porém, faz um alerta para quem quer ingressar nessa área:
— O candidato precisa ser essencialmente um cidadão politizado. Tem que conhecer autores como Maquiavel, Gramsci, Marx e Adorno, bem como História, Sociologia, Ciência Política e Antropologia e demais disciplinas que estudam o homem e a sociedade. Como compreender o movimento sindical sem saber pelo menos os conceitos básicos do marxismo, como a luta de classes? Acho isso inconcebível, pois o jornalismo sindical é corporativo e político. 

Espírito crítico

Também não se faz jornalismo sem espírito crítico, diz Carlos: — Atuar na imprensa sem esta lucidez é uma mediocridade. Em relação ao cotidiano das redações, há diferenças entre o jornalismo sindical e o jornalismo de mercado. Por incrível que pareça, nos sindicatos a interferência sobre o trabalho do jornalista é ainda maior do que na mídia burguesa. Se eu deixasse, os dirigentes sindicais escolheriam quais e quantas fotos iriam compor as matérias — e quase sempre as fotos escolhidas seriam as deles próprios. Esta superexposição da imagem dos sindicalistas é uma tolice que compromete a qualidade da comunicação sindical, mas que eles insistem em continuar praticando.

Outro vício é acreditar que comunicar bem é escrever muito:
— A comunicação sindical está muito atrasada. Pensar que é possível doutrinar através da comunicação jornalística é um ranço da esquerda stalinista. Neste sentido a mídia burguesa é muito mais avançada, consegue induzir e convencer de maneira sutil, sorrateira, sob o mito da imparcialidade.

Apesar das deficiências apontadas por Carlos Vasconcellos, Vito Giannotti acha que, se comparada à de outros países, a mídia sindical brasileira — em que certas entidades chegam a gastar mais de 30% do orçamento — vai muito bem:
— No resto da América Latina, a comunicação sindical está longe de alcançar o peso que tem em nosso País. Apesar de haver sindicatos fazendo jornais unicamente voltados para o próprio umbigo, há muitos outros que são um substituto de um jornalismo alternativo. Quem denunciou o projeto neoliberal do governo Fernando Henrique e a destruição dos serviços públicos foi a imprensa sindical. 

Jornalismo que toma partido

 Desafios da imprensa sindicalista

    

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