3 de julho de 2022


8 de março das Jornalistas:  a luta por igualdade e pelo fim da violência é coletiva


09/03/2022


Renata Roncali Maffezoli – Jornalista feminista antirracista, diretora do SJPDF e integrante do Coletivo de Mulheres Jornalistas do DF e da Comissão de Mulheres da Fenaj

“… Ser vento, fogo ou carvão
Tudo, tudo, tudo
Menos esta ratoeira” ~ Patrícia Galvão (Pagu)

As mulheres são maioria entre jornalistas no Brasil. Somos 58% da categoria, conforme aponta o levantamento “Perfil dos Jornalistas Brasileiros (2021)”, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). E essa realidade não é tão antiga. Na década de 80, não chegávamos a 40%. 

No entanto, o aumento da nossa presença nos espaços de trabalho, para mais da metade, está longe de representar uma paridade, quando falamos de tratamento, condições de trabalho e remuneração. Assim como em outras áreas, no jornalismo, as mulheres, em especial as negras, também ganham menos que os homens, ocupam menos cargos de chefias, sofrem mais com assédios (moral e sexual) e estão mais expostas à violência no exercício de sua função. 

Em um mercado no qual somos maioria, o “Perfil dos Jornalistas Brasileiros” aponta que a precarização do trabalho avançou significativamente, com aumento das contratações precárias, jornadas irregulares acima de 8h, e deterioração das condições de trabalho, com efeitos nocivos à saúde das e dos profissionais. 

Outro monitoramento realizado no ano passado, pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji, em parceria com a Unesco, mostrou que nós fomos os principais alvos de casos de violência de gênero contra profissionais da imprensa. Foram registrados 119 casos contra 89 jornalistas (algumas foram agredidas mais de uma vez). Desse total, 91,6% dos casos tiveram como alvo mulheres jornalistas.

E não é apenas na rua e nas redes que estamos expostas à violência de gênero e ao assédio sexual.  Uma pesquisa elaborada pelo Coletivo de Mulheres Jornalistas do Distrito Federal, em 2019, apontou que 74,3% das jornalistas do DF já sofreram assédio sexual em algum momento da atividade profissional.

Dessas mulheres, 73% foram assediadas por um superior (chefe, editor, dirigente, etc). Já 44,3% foram assediadas por um colega de trabalho; e 32,2% por algum entrevistado. Várias jornalistas apontaram ter vivenciado mais de uma situação de assédio sexual desde o início da carreira. E, infelizmente, 79% das profissionais assediadas não denunciaram, por medo da exposição e suas consequências, ou por não saber onde denunciar.

Esses dados todos são alarmantes, e nos mostram que temos ainda uma longa caminhada. Não basta apenas ocuparmos os espaços. Precisamos, sim, estar nas redações, nas assessorias, em cargos de chefias, inclusive das nossas organizações de classe. Mas, para isso, necessitamos de condições decentes e livres de violência, como reivindica a Comissão de Mulheres Jornalistas da Fenaj neste 8 de março.

Queremos viver em um país que pare de nos matar, violentar e usurpar nossas liberdades e direitos, para que possamos continuar fazendo do jornalismo um instrumento de defesa da democracia e de transformação social.

Essa luta é nossa, mas não é exclusiva das mulheres. É papel de todas e todos nos empenharmos na construção de um mundo livre do machismo, do racismo, do capacitismo, da LGBTQUIA+fobia e de todas as formas de opressão. 

Neste “Dia Internacional de Luta das Mulheres Trabalhadoras”, reivindico Pagu – mulher feminista, jornalista, poeta, militante -, referência para mim e para tantas, e faço o chamado para que seguirmos em luta até que sejamos “tudo, tudo, tudo. Menos esta ratoeira”. 

Referências:

Perfil do Jornalista Brasileiro 2021: https://perfildojornalista.ufsc.br/

Violência de Gênero contra jornalistas – Abraji/Unesco: https://violenciagenerojornalismo.org.br/

Pesquisa do Coletivo de Mulheres Jornalistas do DF: https://mulheresjornalistasdf.wordpress.com/2019/04/02/roda-de-conversa-mostra-diversidade-de-violencias-sofridas-por-mulheres-no-mercado-de-trabalho/

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