Uma tradição que se renova com o tempo


03/01/2008


Igor Waltz
 

O Cine ABI é a iniciativa mais recente da Diretoria de Cultura e Lazer da ABI para valorizar o cinema nacional, mas a Casa de Herbert Moses sempre cultivou uma importante relação com a sétima arte ao longo de sua trajetória. A história da ABI é marcada pelo compromisso de defender, estimular e difundir a cultura, e nesse contexto o cinema sempre foi um evento de destaque.

Um grande marco na história do circuito de cinema alternativo do Rio de Janeiro, o Cineclube Macunaíma foi fundado em 1973 por jornalistas sócios da ABI, entre eles o atual Presidente da Casa, Maurício Azêdo. O cineclube se destacou por causa da sua programação, que valorizava o cinema de arte, principalmente aquele que era produzido no Brasil.

Em 1974, o Cineclube Macunaíma exibiu em sua tela uma programação composta em 50% de filmes nacionais, um índice jamais igualado por nenhuma instituição comercial ou cultural da época. Por sua tela passaram grandes obras do Cinema Novo brasileiro, como “Deus e o diabo na Terra do Sol” e “Terra em Transe”, ambos de Glauber Rocha.

                                      Glauber Rocha

Depois de cada sessão eram promovidos debates acalorados e encontros com a intelectualidade. Durante quase 12 anos, o Macunaíma foi o cineclube de atividade mais regular na cidade do Rio de Janeiro, sempre apresentando grandes obras do cinema aos sábados, às 21h, e posteriormente, às 18h30. Entre os clássicos internacionais exibidos estão “Moinho de Pó, de Alberto Lattuada”, “Dom Quixote”, de Grigori Kozintzev, e “Milagre em Milão”, de Vittorio de Sica.

Apesar da repressão política e censura imposta pelo regime militar, o Cineclube Macunaíma sempre manteve sua ousadia, exibindo filmes soviéticos em plena época de Guerra Fria. Entre as obras, destaca-se o filme de animação russo “Flor de Pedra”, de 1946, dirigido por Aleksandr Ptushko. Mesmo assim, muitos filmes exibidos no Cineclube não conseguiram escapar do crivo da ditadura, que censurou diversos deles. Este foi o caso do filme “Roma”, de Fellini, em que a cena que mostrava um desfile de trajes eclesiásticos foi cortada; e do filme americano “Amargo Pesadelo”, no qual cenas de estupro foram censuradas. 

Sessão “Criatividade”

A partir de 1974, o Cineclube Macunaíma passou a dedicar também uma programação voltada para o público infantil, com idade de 3 a 10 anos. Durante a sessão “Criatividade” — que aconteciam aos domingos, a partir das 10h, e mais tarde, às 16h — eram exibidos desenhos animados, comédias de Charles Chaplin e aventuras de faroeste. Após o término do filme, eram distribuídas àss crianças lápis de cor e papel para que pudessem realizar desenhos sobre aquilo que assistiam.

Com parceria do CINEDUC, instituição que busca promover a educação por meio do cinema, a idéia da sessão “Criatividade” era estimular a espontaneidade das crianças, sendo uma iniciativa única no Rio de Janeiro. Com a colaboração de Cosme Alves Neto, na época diretor da Cinemateca do MAM, a sessão era uma alternativa de lazer às crianças, além do circuito comercial, que durante os anos 1970 e 1980 não ofereciam muitas opções ao público infantil.

Mesmo para se criar a programação do “Criatividade” havia uma certa dificuldade. A maior parte dos filmes exibidos era cedida pelas cinematecas do Consulado da Alemanha Ocidental, Canadá e Holanda, além de filmes oferecidos pela cinemateca do MAM. 

 Dejean Magno Pellegrin

Colaboração

Apesar da limitação do acervo, criado graças ao esforço dos cineclubistas, o Cineclube Macunaíma sempre pode contar com a colaboração da cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio, que cedia filmes de sua coleção para serem exibidos durante as sessões, como “Acossado” e “O Demônio das 11 horas”, de Jean-Luc Godard. Além disso, a ABI sediou diversas vezes exibições da Cinemateca, organizadas pelo aficcionado por cinema Dejean Magno Pellegrin, e eventos como o Rio Cine 1981, no qual foram exibidos o documentário moçambicano “Estas são as armas”, de Murillo Salles, e os angolanos “Adeus à hora da partida”, de Francisco Henriques, e “No caminho das estrelas” de Antonio Ole. 

Dejean foi um dos fundadores da Cinemateca do MAM, e até hoje é grande freqüentador e debatedor das atuais sessões do Cine ABI. Pellegrin, que estudou cinema na Sorbonne e hoje é crítico, relembra um pouco do tempo das exibições na ABI:
— Eu fui um dos membros fundadores da cinemateca, quando ela ainda era Cinema do Museu de Arte Moderna, na década de 1950. As primeiras atividades do departamento de Cinema do MAM aconteceram no auditório da ABI. Essa é uma relação antiga. Agora estamos conversando com a Diretoria de Cultura e Lazer sobre um ciclo de filmes sobre o jornalismo no cinema. 

Cinema árabe e israelense

                         Eyal Sivan

A Associação Brasileira de Imprensa também abriu suas portas para cinema produzido no Oriente Médio. Desde a década de 1950, membros da comunidade árabe e israelense fizeram do auditório Oscar Guanabarino, no 9º andar, um lugar de reunião para apreciar os filmes de seu País de origem. Com o advento da televisão as exibições ficaram cada vez mais escassas, e o período de glória das grandes sessões cinematográficas só foi retomado com a fundação do Cineclube Macunaíma, já na década de 1970.

Em setembro de 2006, filmes árabes e israelenses foram exibidos novamente na ABI, com uma programação especial. Os documentários “Desde que você foi embora”, do palestino Issa Freiji; e “Estrada 181, fragmentos de uma viagem Israel — Palestina”, do israelense Eyal Sivan e do palestino Michel Hheleifi, mostraram um pouco da complexidade da atual situação conflituosa no Oriente Médio, retratando a vida e o apartheid social na Palestina e nos territórios ocupados.          

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