7 de julho de 2022


Três pioneiras do feminismo no Brasil


09/03/2022


Por Moêma Coelho, membra da Comissão Inclusão, Mulheres e Diversidade

Anna Rosa, pioneira na defesa do direito de voto da mulher 

Anna Rosa Termacsics dos Santos foi uma das pioneiras do feminismo no Brasil, tendo publicado em 1868 o “Tratado sobre a emancipação política de mulher e direito de votar”, onde reivindicava o o direito das mulheres em participar do mercado de trabalho, da educação e da política, defendendo o voto feminino como símbolo dessa participação. O livro, em forma de manifesto, questionava os principais argumentos da época para manter a mulher longe da escola, do trabalho e da política, apresentando de forma contundente as falácias que construíam as crenças do senso comum.

Publicado sob as iniciais A.R.T.S., o “Tratado sobre a emancipação política de mulher e direito de votar” afirmava que a não educação das mulheres tinha um objetivo claro: a manutenção de um sistema de crenças sobre a naturalidade das características e funções inferiores da mulheres, educadas para uma vida subordinada, onde seu papel era restrito à vida doméstica. A reivindicação do direito ao voto estava inserida na denúncia da  arbitrariedade do sistema legal, que alienava a mulher como isso fosse natural, e demonstrava o seu vanguardismo, já que a primeira nação a  permitir a participação de mulheres em eleições foi a Nova Zelândia, em 1893. No Brasil, este direito só foi alcançado em 1932. 

A identidade de Anna Rosa foi descoberta pela historiadora Cristiane Ribeiro, que a partir de 2016 começou um grande trabalho investigativo sobre essa precursora do movimento feminista brasileiro. Ribeiro descobriu que Anna Rosa era húngara, que chegou ao Brasil com sete anos de idade, foi professora de piano e canto, idiomas e alfabetizadora, tendo morrido em 15 de outubro de 1886.

Leolinda, professora, sufragista e indigenista

Leolinda Figueiredo Daltro nasceu na Bahia em 14 de julho de 1859 e criou sozinha seus cinco filhos. Ela lutou pela implantação do projeto republicano de Estado, do magistério público e pelos direitos das mulheres. Em 1910, juntamente com outras mulheres, fundou o Partido Republicano Feminino e em 1917 liderou passeata exigindo a extensão do direito de votos às mulheres. 

Leolinda também fundou três jornais dedicados às mulheres e publicou dois livros biográficos. Durante o governo de Hermes da Fonseca ( de 1914-1918) participou da criação da Linha de Tiro Feminino Orsina da Fonseca do Exército Brasileiro. Ela também percorreu o interior do país para estimular a alfabetização laica de comunidades indígenas, indo de encontro ao sistema vigente à época que era de catequização e conversão ao catolicismo.

Leolinda Daltro morreu no Rio de Janeiro em 4 de maio de 1935.

Maria Lacerda, uma mulher à frente de seu tempo

Feminista, anarquista, pacifista e educadora, Maria Lacerda de Moura (1887-1945) é considerada uma das pioneiras do feminismo no Brasil. Sua vasta produção intelectual tratou de temas como a condição feminina, amor livre, direito ao prazer sexual, divórcio, maternidade consciente, prostituição, combate ao clericalismo, ao fascismo e ao militarismo, estabelecendo uma articulação entre a emancipação feminina e a luta pela emancipação do indivíduo no capitalismo.

Fundadora, junto com Bertha Lutz, da Liga pela Emancipação Intelectual da Mulher, embrião da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, Maria Lacerda foi presidente da Federação Internacional Feminina entre 1921 e 1922, fazendo constar nos estatutos da organização uma cláusula pioneira, a criação de um curso de “História da mulher” em todas as escolas de ensino básico. Em 1922, afastou-se das organizações associativas femininas, fundamentalmente preocupadas com o sufrágio feminino, entendendo que a luta pelo direito de voto respondia a uma parcela muito limitada das necessidades femininas. Ela também questionou o feminismo liberal por não acolher mulheres negras e pobres. Maria Lacerda denunciou a hipocrisia da sociedade burguesa que proibia as mulheres brancas da classe alta de trabalhar, enquanto explorava o trabalho das mulheres proletárias. Ela ressaltou que a educação da mulher deveria prepará-la para sua própria subsistência.

“Não será com algumas mulheres no poder que esqueceremos as milhares escravizadas na cozinha, no tanque e na cama. A mulher operária é ainda mais sacrificada. Escrava do homem, escrava social e serva da burguesia”.

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