Sem terceira via, a comovente ginástica para levar eleição ao segundo turno


06/07/2022


Por Ricardo Kostcho, em Ultrajano

 

Chega até a ser engraçado. Agora que a campanha eleitoral entra em sua fase decisiva, com apenas dois candidatos ainda na pista e uma larga distância entre eles, começa-se a notar um certo frenesi em setores do mercado e da mídia para evitar que tudo seja decidido já no primeiro turno, como apontam as últimas pesquisas.

Sem terceira via, cujos candidatos foram ficando pelo acostamento, chega a ser comovente a ginástica de viúvas e viúvos da Lava Jato para contorcer números, gráficos e índices, e a fabricar teses sobre o que ainda pode acontecer, algo capaz de provocar um cavalo de pau neste cenário cada vez mais consolidado, misturando análises, opiniões e desejos.

Uma única vez isso aconteceu nas eleições após a redemocratização, quando o lançamento do Plano Real inverteu, em poucas semanas, os números das pesquisas na campanha de 1994, levando Fernando Henrique Cardoso a vencer Lula já no primeiro e único turno. Até onde a vista alcança, não se vislumbra neste momento no horizonte nada parecido.

Neste vale tudo em que pululam no palco cientistas políticos e malabaristas sociais, fontes anônimas e informações de misteriosos bastidores, articuladores não identificados e marqueteiros com prazo de validade vencido, o eleitor é tratado como um boneco de “joão bobo”, empurrado pra lá e pra cá, de acordo com os interesses e as conveniências de cada um.

Como costumo ler tudo o que meus colegas escrevem, fico impressionado com a coincidência de pautas, um repetindo a tese do outro, até com as mesmas palavras e fontes, em dias alternados, sem que surja um único fato novo relevante a inspirar suas conclusões sobre o que ainda pode acontecer para evitar que tudo acabe num turno só.

Fora os dois candidatos que encarnam a falsa “polarização dos extremos”, restaram apenas dois outros que não conseguem vencer a barreira de um dígito, nem se forem somados os índices de ambos. O resto só faz figuração.

Diante dessa realidade, alguns analistas “isentos” e “apartidários” chegam até a dar sugestões sobre o que esses candidatos devem fazer para “decolar” nas pesquisas e tirar pontos do líder nas pesquisas, requentando velhas denúncias, já enterradas pelo Supremo Tribunal Federal.

Nada do que estamos vendo hoje é diferente do cenário de 2018, antes da prisão de Lula e da facada de Bolsonaro, quando o ex-presidente também liderava as pesquisas, com o dobro da intenção de votos do segundo colocado, que acabou sendo eleito.

É como se o país tivesse sido congelado naquele momento e degelado, depois de o ex-presidente foi libertado da prisão.

Lá está de novo o mesmo Ciro Gomes em terceiro lugar, sem nenhuma chance de vitória, sozinho na estrada, bradando para os convertidos, sem alianças nem palanques estaduais. Só não se sabe ainda para onde ele irá, caso haja segundo turno.

Atrás dele, vem a figura patética de Simone Tebet (quem?), senadora do Mato Grosso do Sul, que fez um brilhareco na CPI da Covid, e por isso achou que poderia ser candidata a presidente da República (!), depois de perder eleição para a presidência do Senado, sem o apoio nem do próprio partido, o MDB, como acontece agora de novo.

Com esses adversários, Lula só perde essa eleição se for para ele mesmo e as besteiras que anda cometendo, procurando cascas de banana onde não precisa, como já mostrou meu vizinho Kennedy Alencar, e ainda tendo que administrar seus belicosos aliados do PSB de Márcio França, Marcelo Freixo e Alexandre Molon, que não conseguem se entender.

Mas o que vai decidir essa eleição não é nada disso. É responder a uma pergunta muito simples: você vivia melhor nos governos de Lula ou agora no governo de Bolsonaro?

É a primeira vez que um ex-presidente enfrenta o atual presidente e é nessa comparação que os eleitores definirão seu voto. O resto é bobagem, pura encheção de linguiça.

Vida que segue.

(*) Este texto é de responsabilidade exclusiva do seu autor, não refletindo, necessariamente, a opinião da direção da ABI.