Resistência da chamada “Partilha da África”: o caso do Egito


29/02/2024


Por Tiago Pestana (*)

No dia 26 de fevereiro de 1885, os países europeus lançaram-se, organizadamente, sob o Continente Africano, procurando racionalizar seus territórios e extrair seus recursos, evento que ficou conhecido como “A Partilha da África”. Você conhece este período da história africana? Logo, para contribuir com mais esta memória de resistência, torna-se necessário a abordagem de um dos movimentos que se opuseram aos invasores.

Para resistir à dominância dos europeus, que praticavam uma política focada em aumentar a capacidade bélica, energética, embasada por um racionalismo exacerbado, visando a acumulação de recursos, os egípcios sublevaram-se, em revolta, com base nacionalista e liberal, encabeçada pelo Cel.Ahmad Urabi (1841-1911).

O Cel. Urabi tinha o desejo de livrar o Egito da humilhante e odiosa dominação estrangeira, fazendo nascer o que ficou conhecido como Revolução Urabista (1881). No país, mesmo antes de estourar a revolução, circulavam ideais políticos, advindos do desenvolvimento da educação e da imprensa egípcia do século XIX. Estes ideais, mais liberalizantes, se opunham ao governante, o Quediva (título dado a sultões e grão-vizires do antigo Império Otomano) Teufique Pasha, administrador alinhado com os países europeus, principalmente, a Grã-Bretanha.

O Egito vivenciava movimentos constitucionais, de cunho educacional e reformista, desde 1860, procurando fundamentar uma potente oposição ao Quediva. Havia, também, um grande descontentamento e sentimento de frustração dos militares egípcios, que mantinham-se submetidos a péssimos salários (20 piastras por mês – muito pouco!) e limitações de ascensões de patentes, das quais, as mais elevadas, ficavam reservadas a oficiais turco-circassianos, que portavam-se como um casta, exercendo maus tratos e abusos aos subordinados egípcios.

Neste sentido, no mês de fevereiro de 1881, estoura uma revolução contra o colonialismo europeu e o Quediva Teufique. O Cel.Urabi, tido como corajoso e bom orador, utilizou em seus discursos, passagens do Alcorão, ajudando a aumentar sua popularidade no país. Logo, foi tido como líder e dirigente da revolução, formando o Partido Nacionalista (Al-Hizb al-Watani), corpo que atuava em oposição ao Governo de teufique. .

Com o intuito de emancipar o Egito e fundar uma República, os urabistas confrontaram o Quediva, que tramava, junto às potências europeias, a derrubada do processo revolucionário. Com isso, ignorando um ultimato Britânico, estes interessados na ocupação do Egito, o Cel.Urabi fortificou as defesas costeiras e organizou a artilharia em torno da importante cidade de Alexandria. Os ingleses bombardearam-na em 11 de julho de 1882 e o exército e o povo egípcio, mesmo com valente resistência, sucumbiram aos invasores, somando, na batalha, mais de 2000 mortos.

Logo os ingleses ocuparam o Canal de Suez e mantiveram campanha contra a resistência dos urabistas, que declaravam jihad (modo de guerra com sentido político-religioso) contra os europeus. A resistência do exército e da população dificultava a permanência dos invasores na cidade do Cairo. Com 16 mil combatentes, os urabistas, tinham dificuldades militares e organizacionais frente aos 20 mil ingleses, comandados por Sir Garnet Wolseley (1833-1913), sendo fortemente esmagados na luta da batalha de Tell al-Kebir em 13 de setembro de 1882, tendo seu país definitivamente ocupado pelos europeus. Apesar dos britânicos terem prometido rápida evacuação, acabaram ocupando o Egito por 72 anos!

Por fim, Ahmad Urabi foi condenado à morte pelo Quediva, mas a sentença foi modificada para um exílio que durou 19 anos no Ceilão (Sri Lanka), voltando ao Cairo e falecendo em 21 de setembro de 1911.

Tal trajetória é demonstrada como um exemplo de resistência contra o movimento colonialista europeu. A escolha do personagem e país, privilegia uma narrativa de resistência e luta, ao contrário de passividade e silêncio que, por muito tempo, foi equivocadamente atribuído, por uma narrativa eurocêntrica, aos povos do continente africano.

(*) historiador e membro da diretoria de Igualdade Étnico-Racial da ABI