O time da Cidade


19/01/2006


José Reinaldo Marques
22/02/2005

Nathaly Ducoulombier

A Editoria de Cidade é a que mais contribui para a formação de um jornalista, na opinião dos editores. O repórter de Cidade é um faz-tudo: de matéria de comportamento a matérias policiais. Seja qual for o veículo – televisão, rádio, jornal, revista, internet –, a obrigatoriedade de lidar com assuntos gerais faz que esse profissional ao longo dos anos desenvolva uma capacidade muito especial de apurar e abordar com precisão a notícia dentro dos mais variados temas. Além disso, o repórter deve também aliar a característica de bom observador da cidade onde trabalha com a aptidão para encarar situações de risco no cumprimento da função. Situações como as que foram vivenciadas pelos repórteres Nathaly Ducoulombier, da redação do SBT no Rio de Janeiro, e Carlos Moraes, repórter-fotográfico do jornal O Dia. Os dois jornalistas tiveram suas vidas ameaçadas durante reportagens que acompanhavam a ação da polícia em favelas do Rio.

O editor-chefe da Editoria Rio do jornal O Globo, Paulo Motta, diz que a diferença entre a Cidade e as demais editorias está no fato de as equipes de reportagem atuarem mais próximas da edição. 

– Nesse caso é possível interagir com a equipe de reportagem o tempo inteiro. Num jornal como O Globo, por exemplo, a Editoria de Política está fisicamente no Rio, mas as notícias estão em Brasília; as notícias da Editoria Nacional, pelo Brasil afora. Nesse caso os editores não estão tão perto da reportagem. Na realidade, a Editoria de Cidade é uma lente de aumento, porque mesmo as notícias consideradas pequenas na Editoria Rio se tornam grandes, porque a maioria absoluta dos nossos leitores – não posso citar números precisos – são moradores do Rio. Temos uma venda forte fora do estado e também no exterior, mas O Globo tem uma tradição forte na cobertura de cidade.

                        Paulo Motta, do Globo

Para a repórter Maiah Menezes, que cobre a área de Administração Pública na Editoria Rio do jornal, o que diferencia o repórter da Editoria de Cidade das demais é que o tempo da apuração é o tempo da notícia. Ou seja: o tempo real. Tudo pode acontecer, a qualquer momento. Na editoria Cidade o repórter pode ser mandado para um encontro entre autoridades ou para o morro. Ela conta que isso é muito comum nas editorias que cobrem o factual das cidades.

A Editoria Grande Rio do jornal O Globo funciona com um editor-chefe, um editor-adjunto, três editores-assistentes, um chefe e dois subchefes de reportagem, um pauteiro à noite e outro pela manhã, e cerca de 30 repórteres. O editor-chefe da “Rio”, como a chamam seus jornalistas, considera que as equipes formam “times”:
– O time de Polícia e Justiça, chamado de POL; o time de Geral, que faz tudo; o time de Comportamento, que é o menor; o time que cobre Infra-Estrutura, como Cedae, obras e parte do funcionamento da cidade, urbanismo etc.; e temos ainda o time de Administração Pública, que se encarrega da cobertura dos Governos Estadual, Municipal e das Casas Legislativas. 

Os “times” participam da decisão sobre o que vai ser publicado no dia seguinte, através das reuniões de pauta, e também, por incrível que pareça, o que vai ser “notícia” ao longo do ano. Em reuniões trimestrais são discutidas as matérias especiais, ou “cavadas” como diz Paulo Motta. Essas matérias podem ser publicadas em série ou até mesmo em suplementos e cadernos especiais. Dessas reuniões participam repórteres, editores, chefes de reportagem, pauteiros e diagramadores, que debatem desde o conteúdo das matérias até a parte visual, fotografias e infográficos. 

O resultado dessa organização tem dado bons resultados. Ano passado o jornal ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo com uma dessas matérias “cavadas”. O jornalista Antônio Werneck, um dos mais destacados repórteres de Cidade, passou um ano investigando o tráfico de drogas nos quartéis das Forças Armadas e publicou uma reportagem especial que acabou levando à descoberta da infiltração de bandidos nos concursos para as Forças Armadas: 
– O primeiro passo foi fazer um levantamento dos inquéritos feitos pela Auditoria Militar, um aspecto que a imprensa de maneira geral explora mal. Estudamos os processos instaurados pelo Ministério Público Militar. Outro ponto que me chamou a atenção foi o número de apreensões de armas pela Secretaria de Segurança Pública do Rio. Cruzando os dados, daí a chegar na matéria foi uma questão de observação. Percebemos, inclusive, que ao contrário do que se pensava, a maioria das armas usadas pelos bandidos é de fabricação nacional e não estrangeira. E essas armas são desviadas dos quartéis das Forças Armadas, conta o repórter. 

Agência O Globo

 Antônio Werneck, da O Globo

A publicação da matéria levou o Ministério Público Militar Federal a criar um grupo de trabalho para investigar o envolvimento de militares com o desvio de armas nos quartéis. Antonio Werneck também foi repórter e editor de política do JB; tem 25 anos de profissão, 18 dos quais nas editorias de Cidade dos grandes jornais cariocas. Ele diz que o segredo de um repórter para conseguir as grandes matérias “está no senso apurado de observação, no trabalho de pesquisa de campo e nas boas fontes que os jornalistas devem saber cultivar ao longo dos anos”. 

E a Cidade tem-se destacado. Em 2005, os repórteres Paulo Marqueiro e Elenilce Bottari ganharam um prêmio do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, de São Paulo, na Categoria Direitos Humanos, com uma reportagem que relatava o drama das pessoas cujos parentes foram mortos por causa da violência. A reportagem os fez passar dois meses em cemitérios, levantando 50 mil atestados de óbitos para mostrar quem eram os órfãos da violência do Rio. A matéria foi publicada num caderno de 12 páginas que rendeu ao jornal o Prêmio Esso de Criação Gráfica pelo trabalho da diagramadora Renata Maneschy.

No jornal O Dia, as matérias que sairão na edição do dia seguinte são decididas em duas reuniões: uma de pauta e outra de consolidação. Todos os editores e os editores-executivos participam das reuniões. As pautas abordam desde os chamados fait divers, como a vida de artistas, a assuntos duros, como o setor de transportes. 
– Tratamos mais de assuntos que tenham apelo popular, que interessam diretamente ao cotidiano das pessoas ou aquilo que é muito grave, como fraude na compra de remédios. Além disso, cobrimos o comportamento da cidade e de seus moradores, como a nova moda das algemas da Luma de Oliveira, ou os pingentes de celular – diz Elaine Gaglianone, editora de Cidade de O Dia

Na opinião de Elaine, o repórter deve ter curiosidade, iniciativa e escrever bem. Ela diz que os jornalistas que pretendem trabalhar na Geral, para começar, precisam ter pelo menos noção do funcionamento da cidade, ler de tudo, porque tudo acaba na Geral. 
– Temos uma cobertura muito particular, que não pode ser chata, mas também tem que dar aquele serviço que não é exatamente divertido, e precisa ter idéias de pautas diferentes e criativas – diz. 

Como todos os jornais, O Dia tem uma equipe que trabalha de madrugada. Segundo a editora, no trabalho dessa equipe o mais difícil é a adaptação ao horário: 
– Quando a vida desses profissionais entra na fase do sono, o resto do mundo está acordando. A equipe só sai para aquilo que é realmente importante. Os outros assuntos ou viram pauta para o dia-a-dia ou notas – diz Elaine.
 
Em São Paulo a redação da editoria do Caderno Cidades do jornal O Estado de S. Paulo tem 17 repórteres, um editor-chefe, uma subeditora, dois chefes de reportagem e dois jornalistas que eles chamam de “fechadores”. Há também uma equipe de seis pessoas para os cadernos de bairro, que estão ligados à estrutura do Caderno Cidades. Segundo a editora Márcia Glogowiski, a editoria tem uma boa organização para planejamento de matérias mais elaboradas, que serão publicadas se os assuntos factuais não forem suficientes para cobrir a edição. Se nada de especial acontece, muitas vezes essas matérias passam a ser as principais do caderno; geralmente são matérias que exigem um investimento maior de toda a equipe. 

Para produzir o noticiário da cidade, cada veículo – jornal, TV, rádio, internet – atua numa faixa própria e por isso não é possível, na opinião dos editores, dizer que veículo tem a melhor atuação. Márcia Glogowiski acha que essa é uma pergunta difícil de responder porque o noticiário vai sempre variar conforme o dia, e de acordo com o veículo, mas afirma que o rádio e a TV têm sido mais felizes em reportagens de serviço. Já o jornalista Paulo Motta considera que as rádios e os canais de televisão atingem um público muito maior do que os jornais e revistas. 
– Para mim cada um tem o seu nicho. A televisão fala para um público muito maior e um público mais aberto. Por exemplo, os aparelhos de televisão são ligados de Imbariê (distrito do município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense) a São Conrado (zona sul). O rádio também tem essa característica. Os jornais têm que ser comprados em bancas. Agora, em termos de aprofundamento das matérias, os jornais têm mais tempo de análise e a vantagem de o assunto já ter sido mostrado na televisão e no rádio. Quando compra o jornal, o leitor já teve contato com uma notícia que já é de conhecimento geral. Isso numa cobertura considerada normal, que não seja um furo de reportagem.

As opiniões sobre a qualidade da cobertura de cidade pelos jornais do Rio e de São Paulo são divergentes, concordando em apenas um ponto: ambos se consideram muito bons, lembrando até mesmo a velha disputa entre cariocas e paulista. Para os jornalistas cariocas, os jornais do Rio têm mais tradição na cobertura de cidade do que os diários de São Paulo. E os de São Paulo acham que dedicam mais espaço à cidade: 
– A imprensa de São Paulo, como não tem tradição de cobrir Cidade, prefere ressaltar a violência no Rio, quando eles têm mais violência que aqui. Lá, hoje em dia, há cerca de 200 seqüestros, muito mais do que no Rio, e eles não publicam. Isso é uma tática de avestruz que vai dar problemas a São Paulo – declarou o editor de O Globo

Não é o que acha Márcia Glogowiski, que enfatiza a quantidade de cadernos dedicados à cidade pelo jornal em que trabalha: 
– Para começar, temos há 15 anos um caderno específico para a cidade. Eu ajudei a conceber esse caderno, que visa justamente a tratar dos problemas urbanos. Hoje, ele circula como “Cidades” na primeira edição e “Metrópole” na segunda. E tem uma coluna que se chama “São Paulo Reclama” para problemas individuais ou mais restritos a pequenos grupos. 

Leia também como a criminalidade afetou o trabalho da imprensa e os depoimentos de quem já ficou na linha de tiro:

    

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