“O repórter-fotográfico é um formador de opinião”


16/10/2015


Alcyr CavalcantiAlcyr Cavalcanti, repórter-fotográfico e professor universitário, é membro do Conselho Deliberativo da ABI e Secretário-Geral da Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinegrafistas do Rio de Janeiro-Arfoc.

O fotojornalismo acabou. O fotojornalismo está morto. São sentenças que chegam diariamente aos nossos olhos e ouvidos e de tanto serem repetidas se assemelham a uma verdade definitiva. Orquestrada e repetida maciçamente torna-se um simulacro de verdade, deixando uma dúvida no ar: “A quem interessa a morte do fotojornalismo”?.

O fotojornalismo não é uma entidade abstrata. É um segmento da fotografia inserido no jornalismo, que está inserido no campo da cultura, que, segundo Pierre Bourdieu, é um espaço de relações entre grupos com distintos posicionamentos sociais, sendo também um espaço de disputas e jogo de poder.

A cultura está sendo colocada em desuso, estando imersa na crise geral do capital, que tem afetado todos os países, num efeito perverso da globalização. Os jornais estão perfeitamente inseridos na economia capitalista e aos
poucos vão se transformando em “fábricas de notícias” visando somente o lucro. A informação não é um discurso
que vise a informar no pleno sentido da palavra; tem um sentido meramente comercial e passa a funcionar dentro da
relação custo-benefício”; transforma-se no aparato ideológico da globalização,  repetindo no noticiário um modelo a ser seguido.

A informação para ter lucro máximo precisa trabalhar em ritmo ultra-acelerado, fazendo um jornalismo de imediatismo, onde a melhor notícia é a que chega primeiro, contribuindo para isso a omissão dos editores que confundem informação, um bem cultural, com indústria, não se importando se a fonte é confiável ou não.
A fotografia jornalística como toda fotografia tem uma linguagem própria, obedece às regras oriundas da pintura que são freqüentemente ignoradas, passa a exigir avanços tecnológicos na transmissão de dados, podendo levar a meras ilustrações visuais, acessórias da matéria a ser publicada.

Qualquer um se julga fotógrafo, porém se esquecendo de que nem todos podem ser fotojornalistas, ou seja, jornalistas 24 horas por dia, lutando e visando informar, sabendo que a imagem publicada poderá vir a ser um documento para a História, daí a sua importância mas sobretudo a sua responsabilidade como um formador de opinião.  A confiabilidade nem sempre é um fator decisivo, e a tecnologia digital permite manipulação de dados que podem não corresponder à situação social que foi enfocada. Aí reside o perigo. Há dez anos a NPPA (National Press Photographers Association), que congrega os principais fotojornalistas norte-americanos, publicou documento,  adotado pela Arfoc, estabelecendo regras visando à não manipulação de imagens, principalmente em noticiá-rio (“hot news”).

Nessa relação de forças a fotografia como notícia perde espaço para a cobertura de celebridades e de sua vida
íntima, daí a proliferação dos paparazzie de publicações especializadas.

Da tela dos cinemas para a lente das máquinas. Esse foi o caminho percorrido por Alcyr Cavalcanti, repórter fotográ-
fico desde 1971, ano de sua estréia em O Fluminense. “Eu era apaixonado por cinema. Fiz curso de direção cinematográfica no Mam, o Museu de Arte Moderna, onde também era lecionada fotografia. Aprendi a
fotografar e logo optei pelo fotojornalismo”, recorda ele, que, aos 68 anos e quase há quatro décadas de câmeras em punho, passou por diversos veículos, como Correio da Manhã, Última Hora, Diário de Notícias, Editora Vecchi, O Globo, IstoÉTribuna da Imprensa, Jornal do Brasil, O Dia, Estadão, Folha de S.Paulo, Lance e Placar.

Quase tão vasta quanto o número de locais em que trabalhou é a sua formação acadêmica. Alcyr é formado em Filosofia pela Uerj (na época, chamada Universidade do Estado da Guanabara) e mestre em Antropologia pela Uff (Universidade Federal Fluminense). É professor do Instituto de Humanidades da Cândido Mendes e mantém seus laços coma fotografia atuando como freelancer. Na ditadura militar, emprestou seu talento a títulos da imprensa alternativa, com linha contestadora, como O Pasquim. Atuou em O Repórter e no Jornal Inverta, semanário marxista-leninista, em sintonia com sua formação política. E é justamente por este viés, o político, que ele analisa as características de cotidiano dos fotojornalistas ao longo dos últimos 40 anos.

“Comecei na época da ditadura, quando havia censura e tudo era proibido. Havia muita cobrança e explora-
ção quanto ao horário, com hora marcada para entrar e não para sair, numa rotina diária mínima de dez horas.
Hoje, temos muita concorrência, devido a um desemprego estrutural, o desafio de adaptação às novas tecnologias
e um descrédito generalizado entre todos nós, motivado pelo péssimo exemplo dos chefes da nação. Vide só
Brasília, nossa ‘Ilha da Fantasia’ e da corrupção”, aponta Alcyr.

Uma produção de qualidade, no caso do fotojornalismo, procura mostrar com clareza a situação social, sem subterfúgios e sem falsear a realidade com  critérios pseudo-artísticos. É a partir dessa definição própria que ele aconselha aos jovens que pensam em seguir a profissão.

“Fotografem muito, sejam dedicados ao seu ofício e mantenham-se sempre nos princípios da ética. Tenham em
mente a responsabilidade da imagem, pois o repórter fotográfico é um forma  dor de opinião, faz retratos da realidade. A sorte é fator essencial em tudo. Mas é preciso saber aproveitá-la, dominando bem a ferramenta que as fábricas modificam a cada seis meses, estando sempre aptos a ‘clicar’ no momento exato”, ensina.

Se, por um lado, vivemos na era da imagem, por outro, nem sempre elas, e seus autores, são devidamente reconhecidos nos grandes jornais.

“De uns anos para cá, talvez a partir de década de 1980, as fotos passaram a ganhar mais espaço na mídia impressa. Muitas vezes, ocupam a página inteira. Em contrapartida, qualquer um se julga fotojornalista e os editores  preenchem as páginas com qualquer subproduto, devido ao deadline, que de fato é uma linha mortal. É
necessário, a qualquer custo, fechar naquele horário determinado, pois as Redações se transformaram em fábricas de notícias”, lamenta.

Provocado a escolher alguns entre tantos filhos já registrados, Alcyr aponta imagens que marcaram sua carreira. A Queda no Maracanã (1992), a extensa Reportagem na Rocinha (“onde fiquei por dez dias, em 1988”), a Greve Geral (em 1989), a seqüência de mendigos (“que me rendeu um processo na Polícia Federal”), e a Campanha das Diretas (1984). Vale destacar ainda os atos de vandalismo e quebra quebras feitos pelo tráfico (em 2002), a Operação Rio (de 1995) e o Baile do Teatro Municipal do Rio (em 1975), que acabou em pancadaria, às 5 da manhã”, enumera.

Alcyr é jurado em concursos (Esso e Embratel) e recebeu prêmios como o Kodak-Fenaj, em 1988, com Ensaio Sobre Violência Urbana. Em 1982 destacouse no Casa de las Americas, em Havana, Cuba. Em 1993, foi eleito Melhor Fotógrafo pela Associação de Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro-Acerj. Teve atuação elogiada à frente da Associação Profissional dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos-Arfoc. O reconhecimento a seu talento é até previsível. A surpresa surge mesmo é na última pergunta da entrevista.

‘Se não fosse fotógrafo, você seria o que?’
Ao que ele responde.
“Guitarrista de uma banda de rock em Londres, de preferência, ou dj de boate da moda. Ou, talvez, seguindo
sábio conselho do Silvio Tendler, diretor de filmes ‘B’ nos Estados Unidos”, dispara, em mais uma dentre as
milhares de revelações feitas ao longo da carreira.

 

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