Momentos marcantes dos 111 anos do Vasco


27/08/2009


Estréia com título

Time campeão de 1923

A estréia do Vasco da Gama na elite do futebol carioca aconteceu em 1923 e de forma altamente auspiciosa ao se sagrar campeão. Alguns comerciantes da colônia portuguesa contrataram “empregados” negros e mulatos, abrindo a porta do clube para jogadores egressos das camadas sociais mais pobres. Sem a obrigação de trabalhar, bem alimentados e com bom preparado físico, os jogadores do Vasco, sob o comando do uruguaio Ramon Platero, chegaram ao final do campeonato com seis pontos de vantagem sobre o Flamengo, segundo colocado. Ramon Platero obrigava seus jogadores a correr diariamente da Rua Moraes e Silva, local do campo do Vasco, até a Praça Sete, hoje, Barão de Drumond. As boas e fartas refeições eram feitas no restaurante “Filhos do Céu”, na Praça da Bandeira, cujo dono era um português. Os jogadores do América, Botafogo, Flamengo, Fluminense, ao contrário, não se dedicavam tanto a preparação física. Tinham vida social intensa e alguns eram boêmios. Eram associados de seus clubes e assim pagavam para jogar. Com melhor preparo físico, o Vasco passou a ganhar as partidas no 2º tempo, quando os atletas oponentes cansavam, enquanto os vascaínos mantinham o fôlego. Foram 11 vitórias, dois empates e apenas uma derrota. 

O Vasco chegou ao título com o time base formado por Nelson, Leitão e Claudio ou Mingote; Nicolino, Bolão e Artur; Paschoal, Torteloni, Arlindo, Ceci e Negrito. Os destaques eram o ponta-direita Paschoal e o centro-médio Bolão. Os dois empates foram contra o Andaraí (1 a 1) e o Bangu (2 a 2). A única derrota aconteceu diante do Flamengo por 3 a 2, no 2º turno. Os remadores do Flamengo entraram no estádio da Rua Paysandu com os seus remos embrulhados. A cada manifestação mais calorosa da torcida vascaína, começava a pancadaria. 


A histórica decisão de 1929

Time campeão de 1929

Com o inglês Henry Walfare, ex-jogador do Fluminense, na direção técnica de sua equipe, o Vasco chegou ao título carioca de 1929. Os destaques do time eram o goleiro Jaguaré, a dupla de zaga formada por Brilhante e Itália, Fausto, a “Maravilha Negra”, o médio Tinoco e o centro-avante Russinho, artilheiro do campeonato com 23 gols, juntamente com o americano Telê. 

América e Vasco terminaram em primeiro lugar com sete pontos perdidos. A decisão do título foi numa sensacional melhor de três. O primeiro jogo terminou 0 a 0, no dia 10 de novembro de 1929, nas Laranjeiras. Quatro dias depois, no mesmo campo, houve novo empate, agora de 1 a 1, gols de Russinho e Osvaldinho. Finalmente, no dia 24 de novembro, também, nas Laranjeiras, o Vasco goleou por 5 a 0 gols de Russinho (3), Mário Mattos e Santana. O time campeão alinhou com: Jaguaré, Brilhante e Itália; Tinoco, Fausto e Mola; Paschoal, 84, Russinho, Mário Mattos e Santana. 

Em 34, a formação de um time de craques 

Domingos protege a defesa do goleiro Rey no jogo contra o São Cristóvão em 1934

O ano de 1933 chegou e com ele a cisão do futebol carioca. De um lado os clubes que defendiam a implantação do profissionalismo e do outro os defensores da manutenção do amadorismo. Os clubes favoráveis à profissionalização, inclusive o Vasco, fundaram a Liga Carioca de Futebol. Ficaram na AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Atléticos) os clubes seguidores do amadorismo.
Paralelamente ao campeonato carioca de 33, o Vasco disputou o I Torneio Rio-São Paulo. Participaram da competição os seguintes clubes: América, Bangu, Bonsucesso, Fluminense, Vasco, Corinthians, Palestra Itália (atual Palmeiras), Portuguesa de Desportos, Santos, São Bento, São Paulo e Ypiranga. Os jogos dos campeonatos regionais também valiam pelo Rio-São Paulo. A equipe cruzmaltina terminou em 6º lugar e o Palestra Itália foi o campeão. 

O Vasco ficou na Liga Carioca e depois do 3º lugar em 1933, formou um time de grandes craques. Os destaques eram os extraordinários Domingos da Guia, Leônidas da Silva e Fausto que retornara da Europa. Outros destaques eram Rei, goleiro, Itália, Tinoco, Gradim.
Na direção técnica estava o inglês Harry Walfare, que conseguia seu segundo título no clube de São Januário. Em 1934, a diferença para o São Cristóvão, 2º colocado, foi de quatro pontos. A equipe base jogava com: Rei, Domingos e Itália; Tinoco, Fausto e Mola; Orlando, Gradim, Leônidas, Nena e Dallessandro. Faziam também parte do elenco Gringo, Juca e Calocero, reservas da linha média, os atacantes Almir e Lamana e o meia Kuko. 

A conquista da América

Djalma, Maneca, Friaça, Ademir e Chico  

Em 1948, representando o futebol brasileiro, a delegação vascaína embarcou para Santiago do Chile para disputar o Torneio dos Campeões com o Colo-Colo, do Chile, Emelec, do Equador, El Litoral, da Bolívia, Municipal, do Peru, Nacional, do Uruguai, e River Plate, da Argentina. 

Na estréia, o Vasco conseguiu uma vitória apertada por 2 a 1, especialmente após a expulsão de Ismael, contra o El Litoral. Os gols foram de Lelé (2) e Sandoval. E, foi exatamente diante de um desafio maior que o Vasco se mostrou Vasco. O time que encantava em terras nacionais passava a justificar, no exterior, a fama ainda pouco conhecida por nossos vizinhos. O “Expresso” entrava nos trilhos da vitória com uma contundente e convincente goleada sobre os representantes da já consagrada camisa celeste. O placar de 4 a 1 sobre o Nacional foi a senha de que a equipe poderia almejar muito mais. Foi uma epopéia construída, a partir dos 11 minutos do primeiro tempo, com uma incrível arrancada de Ademir Marques de Menezes. O Queixada deixou para trás uma zaga uruguaia espantada com a sua velocidade e vigor. O gol de empate do Nacional, marcado por Walter Gomez, 14 minutos depois, não abalou o Vasco, que prosseguiu dominando a partida. Apesar disso, esse domínio só se traduziu em gols no segundo tempo (pelo menos em gols válidos, já que Friaça teve um gol invalidado ainda na primeira etapa). Maneca, Danilo e Friaça completaram o placar. 

O Vasco saiu de campo mais respeitado, visto com outros olhos pelos adversários. Tudo estaria perfeito se não fosse uma lamentável baixa. Ademir, que voltava ao Vasco depois de se recusar a renovar contrato com o Fluminense, deixou o gramado com o pé fraturado. Estava irreversivelmente afastado da disputa. 

Entretanto, os danos pela perda de seu maior artilheiro não superaram a enorme injeção de confiança que a vitória sobre o Nacional proporcionou. Na partida seguinte, o Vasco novamente se impôs, dessa vez diante do Municipal, de Lima. Implacáveis 4 a 0 (dois gols de Friaça, um de Lelé e outro de Ismael) deixaram tontos os peruanos e colocaram o Vasco em outro patamar. Mas ainda era grande o cartaz dos argentinos do River, apesar da derrota inesperada de 3 a 0 para o Nacional. Já o Vasco prosseguia sua campanha invicta vencendo a retranca dos equatorianos do Emelec. Retranca furada a duras penas no segundo tempo, com um gol de Ismael, que entrou no lugar de Lelé na etapa final. 

Na seqüência do torneio, o desafio do Vasco era superar os donos da casa. O Colo-Colo tinha a equipe reforçada, o pensamento de que a vitória era uma questão de honra e toda a torcida ao seu favor. Não é de hoje que é muito complicado ter pela frente um time que coloca na ponta das chuteiras todos os anseios da nação. O ambiente não chegava a ser hostil, mas mostrava que o Vasco teria que se desdobrar para obter um resultado satisfatório. A previsão era de um jogo encardido e temia-se que recursos antiesportivos pudessem ser usados pelo adversário (faltas mais ríspidas, pressão em cima do árbitro etc.) Porém, nada de grave aconteceu apesar da partida ter sido dificílima. Zero a zero no primeiro tempo. E, logo no primeiro minuto do segundo, os chilenos ficaram em vantagem. O Vasco teve que lutar muito para conseguir o empate. Isso ocorreu aos 22 minutos com um gol de Friaça, o quarto dele no campeonato, que garantiu ao centro-avante a artilharia do time – condição até então dividida com Lelé. O resultado final deu ao Vasco a convicção de que o título estava muito próximo. Mas, para erguer a taça, teria que parar “La Maquina”, que vinha mordida pela derrota para o Nacional. 

No dia 14 de março de 1948, as equipes do Vasco e do River Plate pisavam o gramado do Estádio Nacional de Santiago. O Vasco com: Barbosa, Augusto e Wilson; Ely, Danilo e Jorge; Djalma, Maneca, Friaça, Ismael e Chico. No decorrer da partida Rafanelli, Lelé e Dimas substituíram, respectivamente, Wilson, Lelé e Friaça. O River Plate iniciou o jogo com: Grisetti, Vaghi e Rodrigues; Iácomo, Nestor Rossi e Ramos; Reyes, Moreno, Di Stéfano, Labruna e Losteau. Nos lugares de Iácomo, Ramos e Reyes entraram Mendes, Ferrari e Muños. O uruguaio Nobel Valentini arbitrou o jogo. 

A grande final entre Vasco e River Plate mobilizou Santiago. Setenta mil torcedores lotaram o Estádio Nacional, proporcionando uma renda de 1 628 440,00 cruzeiros. Os brasileiros, com um ponto perdido, jogavam com a vantagem do empate. Ao River, com dois perdidos, só a vitória interessava. Nesse momento, entrou em ação o experiente técnico Flávio Costa. Contrariando aquela velha e batida máxima de que não se mexe em time que está ganhando, ele resolveu mudar a equipe. Na verdade, foi uma mudança estratégica e mais de ordem psicológica. Flávio barrou o zagueiro argentino Rafanelli, colocando em seu lugar o novato Wilson. Pela lógica de Flávio, Rafanelli revelado pelo inexpressivo Santa Fé, poderia “tremer” diante da responsabilidade de marcar os seus compatriotas ou, no mínimo, não jogar com a dureza e a rispidez que uma decisão histórica entre brasileiros e argentinos exigia. 

A medida do técnico deu certo: o jovem Wilson se comportou como um veterano ganhando o posto de titular a partir de então. Em nenhum instante ele se impressionou diante de Di Stéfano & Cia. Jogou com raça, impedindo que o craque argentino atuasse com brilhantismo habitual. Deixou o campo no fim da partida com uma torção no tornozelo. Só então Rafanelli pode jogar. Com poucos minutos pela frente, o zagueiro argentino do Vasco não comprometeria. 

Chico foi também um dos principais personagens do jogo. Lutou o tempo todo, fez um gol invalidado pelo juiz uruguaio Nobel Valentini, deu pancada – talvez ainda traumatizado pela surra que levara da polícia argentina na final do sul-americano de 1946 -, levou pancada e, como aconteceu dois anos antes, acabou expulso. Resumindo, como de hábito, enquanto esteve em campo Chico foi um leão. 

O jogo era disputado em cada detalhe. Os argentinos, mestres na arte de catimbar, usavam todo tipo de recurso. O goleiro Grisetti, por exemplo, não parava de reclamar com o árbitro. Dizia que os flashes das máquinas fotográficas dificultavam as suas intervenções. 

Com as garras de gato de Barbosa pegando tudo, a meta do Vasco se manteve imaculada nos noventa minutos de partida; assim foi disputada a prorrogação de cinco minutos prevista no regulamento. Tempo suficiente para que alguém marcasse. O empate de zero, contrariando todas as expectativas, dava o título ao Vasco. Barbosa acabou eleito o melhor jogador em campo. 

Quando entrevistei Barbosa, em 1984, no programa “Álbum dos Esportes”, na Rádio Capital, ele falou sobre a participação do Vasco no Torneio dos Campeões:
“No Chile, enfrentamos, além do River Plate, que era uma máquina de jogar futebol, o Nacional, do Uruguai, Colo-Colo, do Chile, Municipal, do Peru, Emelec, do Equador, El Litoral, da Bolívia. Empatamos, apenas, duas partidas e eu fui o goleiro menos vazado.
A decisão contra o River Plate foi um jogo dramático, muito catimbado. O River Plate tinha grandes jogadores como Di Stéfano, Rossi. Era um desfile de astros de parte a parte.”

Depois de conquistar o Torneio dos Campeões, a delegação do Vasco desembarcou no Rio de Janeiro e foi efusivamente recepcionada por sua torcida. Os dizeres do cartaz mostram a importância do título para os torcedores e para o futebol brasileiro.

Primeiro campeão da era Maracanã

Foto 06 –

Ademir leva perigo para a meta de Osni

O Vasco que serviu de base para a seleção brasileira campeã do sul-americano de 49, realizado no Rio de Janeiro, cedeu nove jogadores, além do técnico Flávio Costa, para o mundial de 1950: Barbosa, Augusto, Eli, Danilo, Alfredo, Maneca, Friaça, Ademir e Chico. Depois da decepção com a perda do título para os uruguaios, a equipe vascaína conquistou o primeiro campeonato da era Maracanã, tornando-se bicampeã carioca.
Ademir pelo segundo ano consecutivo consagrava-se artilheiro, agora, com 23 gols. O maior adversário foi o América que se manteve invicto na liderança do campeonato até a 17ª rodada. Na partida decisiva, o Vasco tinha a vantagem de um ponto sobre o time americano. No dia 28 de janeiro de 1951, ao vencer o América por 2 a 1, gols de Ademir, os vascaínos se sagraram bicampeões cariocas, alinhando com: Barbosa, Augusto e Laerte; Eli, Danilo e Jorge; Djalma, Ipojucan, Ademir, Maneca e Chico. Vindo do São Cristóvão, Djair, driblador e veloz, ocupou em algumas oportunidades a ponta-esquerda do time titular.

Centro Histórico-Esportivo

No dia 27 de agosto, 5a feira, às 18 horas, será lançado na sede da Associação Brasileira de Imprensa – ABI, na Rua Araújo Porto Alegre, 71 – 11o andar, o livro Brasil x Argentina que conta a história do maior clássico do futebol mundial. Na oportunidade, o jornalista e autor Newton César de Oliveira Santos participará de uma palestra sobre o tema do livro com o jornalista argentino Manoel Apelbaum, o Manolo, comentarista da Sport TV.

Na segunda terça-feira de setembro, dia 8, prosseguirá a série Futebol Arte: Arte do Futebol com o tema Futebol e Artes Plásticas, com as presenças de Cláudio Tozzi, artista plástico, Luiz Camilo, da Unirio, e Bianca Ramoneda, da Globonews. Várias caricaturas de jogadores de futebol de Adail de Paula serão expostas ao público. Haverá um sorteio entre os presentes, cujo prêmio será uma caricatura, feita na hora, pelo excelente traço do artista.