25 de setembro de 2022


Laudo da CNV nega suicídio de Eurico Lisbôa


Por Cláudia Souza*

03/06/2013


Suzana Keniges Lisbôa, sua mãe Milke Keniges, e Luiz Eurico Lisbôa (Copyright Broadcasting Corporation 2013)

Suzana Keniges Lisbôa, sua mãe Milke Keniges, e Luiz Eurico Lisbôa (Copyright Broadcasting Corporation 2013)

A Comissão Nacional da Verdade (CNV) identificou 44 casos de suicídios registrados durante a ditadura, relacionados a militantes políticos assassinados pelo regime militar, cujos laudos necroscópicos e outros registros, como fotografias dos corpos da vítimas, apontam inconsistências que indicam que as versões oficiais eram falsas.

A lista de casos foi elaborada por peritos, pesquisadores e membros da CNV que integram o Grupo de Trabalho (GT) Graves Violações de Direitos Humanos, que apura mortes, desaparecimentos forçados e tortura. Dos 44 casos de “suicidados”, 18 possuem laudos necroscópicos com fotografia do corpo e/ ou do local.

Um exemplo é o de Luiz Eurico Tejera Lisbôa, o Ico, cujo corpo foi encontrado com um tiro na cabeça em um quarto de pensão, no bairro da Liberdade, em setembro de 1972. O laudo cadavérico e exames fornecidos à época informam tratar-se de suicídio.

Entretanto, os peritos criminais Celso Nenevê, Pedro Luis Lemos da Cunha e Mauro José Oliveira Yared, que têm colaborado com familiares de mortos e desaparecidos políticos e com a CNV, analisaram os documentos do caso Eurico Tejera Lisbôa, mediante o uso de novas tecnologias de perícia, e encontraram evidências de que não foi suicídio.

-Eurico Tejera foi assassinado. Ele não se suicidou coisa nenhuma, disse Cláudio Fonteles, coordenador do GT juntamente com José Carlos Dias

Exumação

Luiz Eurico Tejera Lisbôa foi o primeiro desaparecido político a ter seu corpo localizado no cemitério clandestino de Perus em 1980, com nome falso de Nelson Bueno. Um ano antes, em 1979, Suzana Lisboa, mulher de Eurico, localizou o inquérito policial de Nelson Bueno, que teria se matado num quarto de pensão. Mas as fotos mostravam tratar-se de Eurico. A partir daí, exumações foram feitas em Perus até ser encontrado um corpo com as características da morte de Eurico. A família só conseguiu enterrar o corpo em 1982, em Porto Alegre (RS).

A versão oficial informa que Eurico, com dois revólveres nas mãos, disparou cinco tiros a esmo antes de embrulhar uma das armas na colcha e disparar contra a própria cabeça. Entre as inconsistências encontradas pelos peritos está o fato de que Eurico estava deitado e o alinhamento da colcha que o cobria era perfeito na sua dobra.

O revólver, calibre 38, que teoricamente teria sido utilizado no suicídio, e que estaria na mão direita da vítima, estava em um plano distante da mão.

— A posição do revólver é incompatível com o que deveria ser esperado no caso da queda da arma, após o disparo com a mão direita. O revólver da mão esquerda era de calibre 32. Além disso não houve confronto balístico entre as armas e o projétil recolhido no local.

O laudo aponta que, inicialmente, a cena da morte foi preparada para parecer resistência à prisão, com disparos efetuados pelo militante. “Mas, depois, o corpo, a colcha e as armas foram ajustados para que o local pudesse ser interpretado como o de suicídio. Os próprios vestígios existentes inviabilizam que o local seja interpretado desta forma”, diz o laudo, assinado pelos peritos Celso Nenevê, Paulo Cunha e Mauro Yared.

Suzana Lisbôa, que integrou a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos do Governo Federal, prestou depoimento à Comissão da Verdade em novembro último.

— É muito duro esperar 40 anos para saber a verdade, ou parte da verdade. Sei agora, graças ao novo laudo, que Eurico foi morto. Mas como e por quem? Espero que a Comissão possa nos dizer. Pior ainda são os que, passados mais de 40 anos, não sabem de nada. Nós, familiares, somos discriminados. Não somos loucos, mas aqueles que cobram respostas, que lutam pela verdade e a justiça durante todos esses anos.

Militância

Primogênito de sete irmãos, Luiz Eurico Tejera Lisbôa iniciou a militância política na Juventude Estudantil, depois integrou o Partido Comunista Brasileiro(PCB), a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares – VAR-Palmares, e a Aliança Nacional Libertadora(ALN).

Estudou no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, em Porto Alegre(RS), centro da efervescência do movimento estudantil secundarista, vindo a integrar o Grêmio Estudantil. Por motivos políticos, foi expulso do colégio, juntamente com outros alunos. Mudou-se para a cidade de Santa Maria e foi membro da diretoria da União Gaúcha dos Estudantes Secundários.

Em março de 1969, casou-se com Suzana Keniger Lisbôa e começou a trabalhar como escriturário no Serviço Nacional de Indústrias -SENAI. Em outubro do mesmo ano, o inquérito policial-militar do qual tinha sido absolvido por unanimidade, foi rearberto à revelia, condenando-o a seis meses de prisão, o que levou o casal a optar pela clandestinidade.

Luiz Eurico Tejera Lisbôa morou em Cuba e retornou ao Brasil em 1971, na tentativa de reorganizar a ALN em Porto Alegre. Foi preso em setembro de 1972, em São Paulo, aos 24 anos, em circunstâncias desconhecidas e desapareceu.

Somente em junho de 1979, o Comitê Brasileiro pela Anistia conseguiu localizar o corpo de Luiz Eurico Tejera Lisbôa, que havia sido enterrado com o nome falso de Nelson Bueno, no Cemitério Dom Bosco, em Perus, São Paulo. Foi o primeiro corpo de desaparecido político do período da ditadura militar a ser localizado.

Símbolo

Dois meses depois, a fotografia de Luiz Eurico estampou as capas de diversas revistas nacionais, e a carta escrita por sua mãe, Clélia Tejera Lisbôa, com o título “Não choro de pena de meu filho”, tornou-se um símbolo da luta pela anistia e pelo reconhecimento da existência dos desaparecidos políticos no Brasil.

Em 1994, a Editora Tchê, em parceria com o Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul, publicou a obra “Condições ideais para o amor”, com poesias e cartas de Luiz Eurico Tejera Lisboa, além de depoimentos de pessoas que o conheceram.

O título do livro foi retirado de uma carta escrita por ele em 5 de julho de 1968, endereçada à mulher: “Fiquei com pena de todos eles, Suzana. Dos que mentem, dos que invejam, dos empertigados, dos ambiciosos, dos que fazem do amor um remédio, um passatempo, um negócio, um paliativo. E percebi quão poucos entre nós chegaram ao sentido final do combate que travamos. Eles não compreendem, Suzana, que nós somos um momento na luta que o Homem vem enfrentando através da História, cada vez mais conscientemente, pela felicidade. Não entendem que nós buscamos, em última análise, as condições ideais para o amor. Tanto no plano coletivo, como individual.”

Luiz Eurico Tejera Lisbôa foi homenageado com nome de ruas nas cidades de Porto Alegre e Caxias do Sul(RS) e Criciúma, em Santa Catarina.

*Com informações da CNV, O Globo.

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