10 de agosto de 2022


Jornalistas são notícia nos cem anos da Folha


08/08/2020


Elvira Lobato, em foto da Folha

Elvira é assim ….

Por Lívia Ferrari 

Elvira Lobato é uma das jornalistas mais talentosas da imprensa brasileira. Além do talento, tem a coragem de todo bom repórter que corre atrás de sua curiosidade. Sorte da Folha e de seus leitores que, durante 27 anos, tiveram uma profissional como ela na redação, garantindo grandes furos e muitas manchetes.

Elvira Lobato acumula prêmios de jornalismo. Em julho ganhou mais uma homenagem, devidamente registrada na edição da Folha do último dia 23. O projeto Humanos da Folha, criado por ocasião do centenário do jornal,  que se celebra em 2021, está lembrando profissionais  que fazem parte de sua  história, como repórteres, fotógrafos, editores, designers, entre outros. Pelo menos um profissional que atua ou atuou na empresa tem seu perfil publicado toda semana no jornal, contando sua trajetória, momentos marcantes e grandes coberturas.   Elvira é um desses profissionais inesquecíveis.

Destemida, para ela não há obstáculos a uma boa pauta. Foi assim quando pegou o carro e percorreu mais de 5 mil quilômetros por terra por estados da Amazônia Legal. Grande parte do trajeto com ela mesma dirigindo, em busca de boas histórias para seu   livro “Antenas da Floresta  – a saga das TVs da Amazônia” -,  uma obra que fazia falta no país.  Elvira partiu para a viagem com “a ansiedade dos adolescentes, rumo ao desconhecido”, como ela mesmo descreve.

Coragem também teve Elvira para enfrentar represálias da poderosa Igreja Universal do Reino de Deus por reportagem publicada na Folha.  Tantas outras pautas se transformaram em grandes matérias pelas mãos da jornalista.

A mesma sensibilidade com a notícia se revela na literatura, onde Elvira se dedica a contar histórias do cotidiano de jovens em comunidades ribeirinhas para um novo livro.  São diversos os temas de seu interesse….

Além de excelente jornalista, Elvira é boa também de costura, bordado, tapeçada e outras habilidades que ela ainda nem sabe que tem. E mais: cozinha divinamente, a melhor vaca atolada que já comi fora de Minas Gerais, sua terra natal.

Elvira tem sempre um novo projeto. Não para de criar coisas. Da última vez que conversamos, na casa da Suely Caldas, em Teresópolis, Elvira falava com entusiasmo sobre mais uma ideia em elaboração, que reuniria, em depoimentos, diferentes histórias de brasileiros comuns.

Conheci essa amiga querida em meados da década de 70, ambas começando no jornalismo econômico. Eu estava em uma pauta na antiga Cacex apurando dados para clássica e recorrente matéria do Globo de domingo sobre exportações de produtos exóticos. Elvira chega  muito alegre e pergunta o que eu estava fazendo. Rapidinho, ela dá um monte de boas sugestões à matéria. Incorporei várias delas. Resultado: chamada de primeira página.

Elvira é assim…

A seguir, relatos de amigos jornalistas


Sempre em movimento

Por Suely Caldas*

Em 40 anos de profissão Elvira Lobato nunca ocupou um cargo de chefia. Por escolha, preferência e muito por instinto. A reportagem sempre foi seu caminho, desde o começo, e não digo fim porque lá ela parece não querer chegar.  Aposentou-se da Folha em 2012 mas não parou, está sempre buscando – criou um blog (Mulheres 50 mais), escreve para a Agência Pública, descobre reportagens inventivas para o site da revista “Piauí”, viaja pela Amazônia, Maranhão, no interior de Minas encontra uma curiosa comunidade de bordadeiras, na Baixada Fluminense procura eleitores de Bolsonaro. Está sempre em movimento. Inquieta, curiosa, apaixonada por histórias de vida, Elvira domina os atributos essenciais ao bom repórter. E nos personagens que entrevista e descreve em seus textos, há sempre uma dose de humor, gaiatice.  Como os “donos” de rádios comunitárias que descobriu percorrendo a Amazônia e presentes em seu livro “Antenas da floresta”.

Nos 27 anos de Folha, seu melhor trabalho, sem dúvida, foi a reportagem sobre os negócios da Igreja Universal do Reino de Deus. Pelo alcance e amplitude de iludidos fiéis espalhados no país e pela importância do assunto, que desvendou a origem do dinheiro que financiou os grandes negócios, empresas de mídia (TV-Record) e propriedades do bispo Edir Macedo e suas ramificações políticas no Congresso Nacional e Brasil afora, entre elas seu sobrinho, o prefeito do Rio, Marcelo Crivella. A reportagem produziu aborrecimentos à repórter, inclusive uma matéria na TV Record, em horário nobre de domingo, com caluniosas agressões à Elvira. Mas nada que a fizesse esmorecer, deixar-se intimidar. Por meses ela foi obrigada a viajar a lugares longínquos e remotos, com o advogado da Folha a tiracolo, para responder a processos movidos por bispos aliados de Edir Macedo. Em todo o percurso dessa odisseia a Folha apoiou a repórter. Foram 106 ações, em todas Elvira e a Folha saíram vitoriosos.

Os detalhes do trabalho de apuração, as dificuldades, a busca de documentos usados na reportagem estão descritos no livro “Instinto de repórter”, que Elvira Lobato escreveu em seu período sabático da Folha. Ainda com o assunto quente, convidei a repórter para contar tal experiência aos meus alunos da Pontifícia Universidade Católica (PUC).  O auditório lotou e os alunos saíram dali com conhecimento mais rico sobre como investigar e produzir uma reportagem relevante, capaz de mudar o curso de uma história.

Nossa amizade começou no final da década de 80. Ela já trabalhava na Folha e eu na extinta Gazeta Mercantil. As sedes dos dois jornais eram vizinhas e à noite, com outros amigos, esticávamos até o bar do Hotel Guanabara, ali na Av. Presidente Vargas. Elvira era cervejeira, esvaziava o copo fácil, fácil. Anos depois abandonou a cerveja por força de uma promessa que duraria um ano e se prolonga até hoje. A conversa no bar rolava noite a dentro até o Costa, o garçom, nos expulsar jogando água em nossos pés. Falávamos de jornalismo, das fontes de informação, mal da censura e da ditadura. E falávamos também e muito bem da família, dos filhos, comparávamos experiências. Ela tinha duas meninas e um menino, eu também. Em 1987 trabalhamos juntas na sucursal da Folha, mas por um breve período. Logo saí à convite da revista “Exame” e em seguida “Estadão”, que começava uma reforma em seu conteúdo. Hoje temos mais tempo para conversar, cultivar a amizade. E, como o tempo passou, nos deliciamos contando histórias dos netos.  De preferência histórias gaiatas….

*repórter a vida toda, ex-diretora do Estadão no Rio, colunista de Economia e ex-professora da PUC-RJ


“Já era ‘fera’ deste então”

Por Vera Saavedra Durão* 

Conheci Elvira Lobato no final dos anos 70. Na época, pouco tempo depois de sair da prisão, comecei a tatear no jornalismo. Tinha feito o curso de jornalismo e queria ser jornalista. Fiz estágio na rádio JB, com o saudoso Cesarion, trabalhei na agência de notícias da Visão, com Suely Caldas, depois fui substituir férias em O Globo, a convite do Barbosinha. O editor Ismar Cardona gostava do meu trabalho, mas não pude ser contratada por ter processo na Justiça Militar. Dei sorte: fui chamada para trabalhar na economia da Folha, com o Chico Aguiar. Dines era o editor chefe e estava introduzindo melhorias na Folha, que, graças a ele, se modernizou graficamente e passou a ser conhecida no Rio.

O ambiente de trabalho da redação era muito bom. Tinha Rosa Cass, Ana Mandim, Tamar, Conchetta, Góes, que chefiava a Geral, Bira Loureiro, Fernando Foch, Ricardo Arnt, Isa Cambará, Fátima Belchior, Ana Lagoa, Neuza Miranda, Laguinho, Antônio Castigliola, dentre outros repórteres fantásticos. Sinto saudades até hoje daquela redação barulhenta, com a TV ligada e a gente batendo a mil nossas laudas nas ” pretinhas”.

E foi aí, que lá pelos idos de 77/78, creio eu, que Elvira aparecia para nos visitar na redação. Ela vinha vez ou outra falando de trabalho, com seu jeitinho mineiro, em companhia do Almir, seu primeiro marido. Na época, ela estava no Rio há cinco anos, ” frilando”.  E acabamos desmentindo o dito do Otto Lara Resende, de que mineiro só é solidário no câncer. Pois Elvira começou a me substituir nas férias. Era um esquema muito bom, porque quem se destacava nas substituições acabava sendo contratado. Já era “fera” desde então. Mas, em 1979, aconteceu a greve dos jornalistas!

O fato era inédito, em plena ditadura militar. Toda a redação da sucursal da Folha parou. Nos encontrávamos no Sindicato. Não me lembro exatamente quantos dias a paralisação durou. Mas foi um fato marcante na vida dos jornais e dos jornalistas. Os jornais só contavam com notícias de algumas agências. O patronato estava revoltado. Mas a greve foi um sucesso.

Houve demissões, mas a sucursal da Folha se manteve. Até que num dia qualquer do primeiro semestre de 1980, quando cheguei ao jornal, estava montada na porta da redação uma banca com funcionários da administração da Folha, que tinham vindo de São Paulo para demitir toda a redação. Foi um choque. Todo jornalista que chegava para trabalhar era chamado e demitido no ato. Foi traumatizante! Não me recordo se o Dines saiu naquele dia ou antes, porque, logo depois deste expurgo, ele foi substituído pelo Zé Silveira, que montou uma nova redação na sucursal.

Eu não fui demitida naquela época, pois estava grávida. Mas fui demitida um ano depois pelo Zé Silveira. Afinal, todos os grevistas tinham de ser punidos exemplarmente.

Fiquei muito tempo sem saber da Elvira. Me lembro dela trabalhando na Revista da Bolsa, com a Jô Galazi, de quem guardo boas lembranças.

Mas desde que conheci Elvira, mineira, como eu, muito doce, mas de uma competência enorme para o jornalismo, sabia que ela seria uma das nossas estrelas! Viva ela, minha querida amiga.

*Foi repórter de O Globo , da Folha de São Paulo, do jornal do Brasil , da Gazeta Mercantil, onde foi também secretária de redação da sucursal do Rio. Participou da turma de jornalistas que criou o Valor Econômico sob a inspiração de Celso Pinto, onde exerceu o cargo de repórter especial.


Um desafio para a ciência

Por Chico Santos* 

Conheci Elvira Lobato várias vezes e em diferentes graus de conhecimento. A primeira vez foi em 1976 quando, completamente verde, comecei a estagiar no moribundo “Diário de Notícias”. Na equipe de “veteranos” estagiários que fazia o jornal sobreviver por aparelhos estava aquela moça com cara de índia, olhinhos redondos irrequietos que circulava de mesa em mesa querendo se inteirar de tudo que o jornal estava apurando.

A interação foi quase nenhuma. Eu mal sabendo o que fazia e ela fazendo matérias de página inteira e já, como free-lancer, “vendendo” matérias especiais para o “Jornal do Brasil”, sonho de consumo de todo repórter na época.

Mais tarde, na década de 1980, reencontrei com ela em eventuais coberturas de rua. Eu, repórter de revista técnica do setor marítimo e ela já pela “Folha de S. Paulo”. Novamente, contato superficial. Como repórter de publicação setorial e mensal, eu ficava calado nas coletivas que dividia com jornalistas da chamada grande imprensa, seja por timidez, seja porque meus assuntos pouco ou nada interessavam a eles, seja para preservar minhas pautas que precisavam sobreviver por semanas.

Em março de 1987 foi convidado a ser “free-lancer” fixo da “Folha”, no suplemento de navegação, passando a frequentar diariamente a Sucursal do Rio do jornal. Elvira já era uma celebridade após o furo das instalações para testes nucleares da Serra do Cachimbo, em agosto de 1986. Mais uma fase de contato superficial, até porque repórter de suplemento, e ainda mais frila, era um ser à parte nas redações dos jornais.

No ano seguinte o jornal me contratou para ser repórter de economia. De repente, eu formava uma equipe e dividia as pautas simplesmente com Elvira Lobato e Deolinda Saraiva. Para minha surpresa, um repórter que mal sabia alguma coisa de navegação, vista como um setor de baixo impacto, fui acolhido como um igual. Elvira vinha com frequência me pedir opiniões sobre suas matérias, filar lanche, coisas de velhos amigos.

Em poucos meses éramos realmente amigos de muitos anos. Para além da repórter brilhante que só crescia a cada nova matéria, conheci um pouco da alma daquela menina que parecia ter um bicho carpinteiro circulando pelo corpo e a mente.

Descobri a generosidade de alguém que estava o tempo todo preocupada com os problemas de algum amigo ou amiga. A generosidade e a coragem de alguém que não hesitou em sugerir e encarar uma pauta de conviver por vários dias e noites com a população de rua acolhida pela Fundação Leão XIII para contar suas agruras.

Conheci a mineira do interior, contadora de histórias, verdadeiras ou não. A paixão pela culinária nos uniu e nos fez muitas vezes preocupar a direção da Sucursal com o absurdo consumo de papel para imprimir receitas pesquisadas no Google. Dali em diante, foi uma amizade que não arrefeceu nem no período em que ela foi trabalhar em São Paulo.

Pouco depois da virada do século, já de volta ao Rio, abriu sem hesitar as portas da sua casa quando enfrentei uma desavença conjugal de final feliz. A partir daquela época, passei a lhe chamar de “mãe”. Um dilema para a ciência, porque, como ela mesma diz, é o único caso de uma mãe mais nova do que o filho.

*repórter de Economia a vida toda, quase 17 anos na Folha de São Paulo, e nove anos no Valor Econômico.


“Na arte de ser leve” 

Por Kátia Labouré* 

Recém-chegada de Minas, com apenas um ano de jornalismo profissional, nos Diário Associados de Juiz de Fora, decidi me aventurar na imprensa da cidade grande.

Fui apresentada à Elvira por uma irmã. Eram vizinhas e amigas na Usina. À época, ela era repórter da Revista Bolsa. Foi uma identificação imediata. Passou-me vários contatos para frilas e assim dei os primeiros passos no jornalismo econômico.

Insegura nessa área dominada por profissionais experientes, recorria a ela para tirar dúvidas e sempre ganhava em troca uma aula no assunto. Paciente, não se furtava em dividir todo o conhecimento da profissional competente que sempre foi.

Contratada pela Folha de São Paulo, Elvira demonstrou em grandes matérias a inquietude, curiosidade, seriedade e responsabilidade da repórter por excelência. Na FSP enfrentou grandes desafios e foi reconhecida com os maiores prêmios da imprensa nacional.

Respeitada e admirada pelos colegas e fontes em toda sua trajetória, não perdeu a simplicidade e ousadia.

Mesmo agora longe do jornalismo diário, ainda nos brinda com saborosas histórias e fatos , para os veículos que ainda colabora.

E já são mais de 30 anos de uma sólida amizade e admiração por Elvira, insuperável na arte de ser leve.

*Repórter com passagem por jornais diários e por assessorias de comunicação


Acesse o link e leia na íntegra a matéria da Folha:

Elvira Lobato revelou poço para teste de bomba atômica e império da Igreja Universal

 

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