Jornal Ex-: a imprensa de vanguarda nos anos 70


06/10/2010


Um ato de celebração em memória do jornalismo de vanguarda praticado no Brasil nos anos 70 foi a solenidade de lançamento da coleção do antigo jornal Ex-, realizada na noite da última terça-feira, 5 de outubro, na sede da ABI. A edição comemorativa é um trabalho conjunto da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo com o Instituto Vladimir Herzog, que reúne 20 exemplares em fac-símile da publicação, as 16 edições que foram exibidas em bancas e uma especial inédita que à época foi censurada e não pôde circular.
 
O Ex- era um jornal de periodicidade mensal, que devido às pressões que sofreu do Governo militar foi editado no curto período de 1973 a 1975. Uma publicação que, em face do seu projeto editorial ousado, entrou para a história da imprensa nacional como uma das mais importantes publicações independentes que circulou no País, durante o regime da ditadura.
 
A solenidade de lançamento foi complementada com um debate sobre o tema “A imprensa alternativa dos anos 70”, do qual participaram jornalistas remanescentes da redação do Ex-, como Mylton Severiano, Dácio Nitrini e Fernando Morais.
 
Entre os debatedores estiveram presentes também o Presidente do Instituto Vladimir Herzog, Ivo Herzog; o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, e os Conselheiros Mário Augusto Jakobskind, Lênin Novaes e Arcírio Gouvêa Neto. A platéia era formada por convidados e associados da Casa.
 

O projeto
 
A idéia da organização da coleção nasceu com o jornalista Dácio Nitrini, que ingressou no Ex- como estagiário e juntou-se ao time de craques da imprensa que fundaram o jornal, como Mylton Severiano, Paulo Patarra, Narciso Kalili, Hamilton Almeida Filho, Sérgio Souza, José Hamilton Ribeiro, José Carlos Marão e o fotógrafo Amâncio Chiodi.
 
Dácio Nitrini disse que se sentia feliz por ter tido mais tempo para tocar um projeto que ele considera uma conquista pessoal, com grande significado para a memória da imprensa alternativa, que hoje já é vista sem barreiras e desperta curiosidade no mundo acadêmico:
— A concepção das pautas, o vanguardismo das histórias em quadrinhos, tudo isso desperta o interesse pelos conteúdos que os jornais alternativos publicavam há 35 anos. Hoje os blogs, o twitter e o facebook não contemplam os níveis de discussão e reflexão como os alternativos fizeram, afirmou Nitrini.
 
 
Foi ele quem apresentou a idéia da organização do acervo do Ex- ao Instituto Vladimir Herzog quando soube que a instituição se preparava para desenvolver um trabalho de preservação da História recente da imprensa no Brasil, que é muito pouco conhecida:
— Um dos primeiros projetos que a gente realizou com um bom aproveitamento foi a recuperação dos exemplares do jornal Ex-. Com a parceria da Imprensa Oficial de São Paulo, conseguimos colocar esse acervo disponível para consulta totalmente digitalizado através do site Memórias Reveladas do Arquivo Nacional (o acervo entrou no ar às 20h desta terça-feira, para ser consultado via internet.), disse Ivo Herzog.
 
Segundo Herzog, o instituto está desenvolvendo um outro projeto que pretende reunir toda a história da imprensa no Brasil produzida entre 1964 e 1979, desde o que ia para as bancas até o que circulava clandestinamente e o que era editado no exílio:
— Trata-se de um acervo com mais de 300 publicações. Vamos fazer um trabalho de pesquisa, catalogação, contextualização de cada uma das edições. Vamos editar também um livro sobre esse acervo, além da criação de um portal que vai reunir todo esse material. Estão previstas ainda a realizações de exposições, que irão percorrer todas as capitais do Brasil e o Distrito Federal. O Ex- é o primeiro produto desse projeto maior, afirmou o Presidente do instituto Vladimir Herzog.
 
As décadas de 60 e 70 foram marcantes na produção de publicações alternativas no Brasil. Ivo analisa esse período como a forma que esse setor da imprensa encontrou para articular a luta de oposição ao autoritarismo:
— Eles são chamados de alternativos porque não faziam parte da grande mídia, eram menores, artesanais e tinham que usar de muita criatividade e inteligência, para passar as mensagens burlando os órgãos de censura. Então do ponto de vista ativo foi um período riquíssimo. Se a gente pegar como exemplo o Ex-, vamos verificar que as ilustrações e os textos são fantásticos. Eu considero verdadeiras obras de arte,a firmou Herzog.
 
Na lista dos jornais irreverentes que circularam no período do autoritarismo, Ivo ressalta aqueles que ficaram mais conhecidos, como Movimento, O Pasquim, Pif-Paf, e os títulos menos conhecidos como o FBI, de Frente Brasileira de Informação, que era editado no exílio:
— O FBI era editado no Chile, França e Itália. Foi uma maneira que os exilados encontraram para se manter informados sobre as coisas que aconteciam no Brasil. Vale registrar que naquele tempo não existia internet e o telefone era um artigo de luxo. Então era a partir dessas publicações quase artesanais, passando de mão em mão, circulando pelo velho Correio, que as pessoas sabiam o que estava se passando no País e articulavam o movimento de resistência.
 
Ele afirma que os veículos sindicais também têm uma participação muito importante nesse processo, por isso o projeto do Instituto Herzog inclui a realização de dez documentários para a televisão separados por temas, onde fará uma abordagem sobre as publicações dos sindicalistas e outras que trataram da questão da mulher. “Todos esses segmentos tinham um grupo significativo de títulos e fizeram um trabalho muito importante”, declarou Ivo Herzog.
 

O título
 
O bate-papo sobre imprensa alternativa na década de 70 foi realizado na sala Belisário de Souza, localizada no 7º andar da sede da ABI. Entre os assuntos abordados, a platéia ficou sabendo sobre a origem do título Ex-. Foi Mylton Severiano quem contou para os presentes como nasceu a idéia de lançamento do jornal e o nome com o qual ele foi batizado:
— O Ex- é mais um dos brilhantes títulos do Sérgio de Souza (um dos fundadores do veículo), que teve a interessante idéia de reunir um grupo que era ex- Bondinho, ex-Realidade, ex-Folha de S.Paulo, e ele teve esse estalo de colocar esse título no jornal que por sinal é originalíssimo, afirmou o jornalista.
 
Severiano contou que grupo que lançou o Ex- tinha trabalhado na revista Realidade e na Folha de S. Paulo, no período de 1959 a 1964. Entre eles estavam também Murilo Felizberto e José Carlos Azevedo. Todos tinham passagem pela redação da Quatro Rodas, que na opinião dele “foi o laboratório da Realidade”.
 
O jornalista revelou que o cerco que os militares impuseram à imprensa acabou por precipitar o lançamento do Ex-. Segundo ele, os ditadores pressionaram a editora Abril, que resolveu se desfazer da toda a equipe. Quando veio o AI-5, eles ficaram “queimados no mercado” e sem lugar para exercer a profissão, o que os obrigou a criar o seu próprio jornal para não ficar sem trabalho:
— O Sérgio se juntou com o Eduardo Barreto, que tinha sido editor de arte da Realidade, e ao Narciso Kalili e fundaram a A&C (Arte e Comunicação) que lançou o Bondinho (1971-1972), que era uma publicação cult, mas não durou mais do que dois anos por causa da falta de anunciantes. Em 1973, juntamente com o Amâncio Chioti, eles criaram outra editora e aí começa a história do Ex-.
 
A principal proposta editorial era fazer jornalismo quadrinhos e humor. À frente do projeto estavam Paulo Patarra, que foi um dos responsáveis pela sustentação econômica, Hamilton Almeida Filho, Palmério Dória, Mylton Severiano e os fotojornalistas Elvira Alegre e Amâncio Chiodi, entre outros “ex-editores”.
 
Como o dinheiro era curto, o jornal se sustentava da venda em banca e da ajuda de um amigo que garantia pequenos anúncios. Toda a equipe andava de ônibus, o telefone da redação era um orelhão que ficava na esquina da rua onde ficava localizada a redação. Eram compradas várias fichas e cada repórter recebia a sua cota, conforme revelou Mylton Severiano:
— Nós enfrentamos muita dificuldade. Eu comi muito sanduíche de pão com mortadela. O jornal tinha uma venda tímida. A cada edição, eram vendidos entre 7 e 8 mil exemplares.
 
 
Somente na sua segunda fase — em meados de 1975, já próximo do seu fechamento — é que o Ex- ganhou um fôlego financeiro, com um investimento do Paulo Patarra, que tirou dinheiro do próprio bolso (verba indenizatória que ele tinha recebido quando foi demitido da Abril) para injetar no veículo.
 

A morte
 
Uma das coisas que mais chamavam a atenção no Ex- eram as suas capas extraordinárias. A do primeiro número mostrava um sósia de Hitler banhando-se nu em uma praia. No mês seguinte, o jornal pôs na primeira página uma montagem em que o Presidente Nixon aparece vestido de presidiário. Esse jornalismo satírico provocou a ira dos censores, que passaram a pressionar cada vez mais o jornal.
 
 
Para Mylton Severiano uma das reportagens mais interessantes do Ex- foi a que se reportava ao assassinato do jornalista Vladimir Herzog, nos porões do DOI-Codi de São Paulo, em outubro de 1975:
— Essa foi a definitiva e que determinou o fechamento do jornal. Foi uma reportagem feita debaixo de medo, mais que isso: era o terror. Mas nós éramos mais jornalistas do que nós mesmos imaginávamos. Estava no sangue da gente, tínhamos que fazer aquela reportagem.
 
Severiano gosta de citar também uma matéria que ele próprio fez com o Geraldo Vandré quando este retornou do exílio, e destaca a entrevista que Fernando Morais fez com Fidel Castro, que foi capa de uma das edições.
 
 
Fernando Morais contou que era ligado profissional e politicamente ao pessoal do Ex- desde o tempo do jornal Bondinho. Mas a sua participação mais expressiva se deu não como jornalista, mas como entrevistado por causa da longa reportagem que ele fez em Cuba, entrevistando Fidel Castro que depois se transformou no livro “A ilha”.
 
Na época Fernando Morais trabalhava na revista Visão que resolveu não publicar a matéria e ainda o demitiu. Isso acabou lhe causando um problema político. Como era de domínio público que ele havia furado o bloqueio e conseguido chegar a Cuba, os órgãos de segurança ficaram intrigados tentando descobrir o que é que ele tinha ido fazer na ilha, onde passou três meses sem que tivesse publicadpo uma linha sequer sobre o que apurou na viagem. 
 
Isso deixou Fernando Morais aflito, porque nesse momento houve um recrudescimento da repressão, mataram Vladimir Herzog e todos os outros colegas jornalistas que iam sendo presos, acusados de comunistas, sob tortura eram pressionados a revelar aos agentes da ditadura o que ele, Morais, tinha ido fazer em Cuba:
— Eu estava desesperado para tornar público que a minha ida a Cuba não tinha sido para buscar armas, dinheiro ou fazer curso de guerrilha, mas que era uma viagem profissional no pleno exercício jornalístico. E publicamos a reportagem no Ex-, comigo sendo entrevistado.
 
O número que exibiu essa entrevista publicou a famosa capa em que a Bruna Lombardi aparece raspando a barba do Fidel Castro. A idéia nasceu de uma pergunta que Fernando Morais fez ao líder cubano sobre o que ia fazer momento em que sua barba começasse a mostrar fios brancos:
— Eu perguntei a ele: o que o senhor vai fazer? E ele me respondeu: “ou eu pinto, ou corto”. Mas na verdade acabou que não fez nem uma coisa nem outra, declarou Fernando Morais.
 

Folha iconoclasta
 
Na opinião de Fernando Morais, o Ex- era um jornal “iconoclasta e herege”, que se permitia a essas ousadias:
— Provavelmente eu não fui preso por causa da publicação dessa matéria, mas o pessoal da base do Partidão que eles (agentes da ditadura) prenderam, como Paulo Markun e o Rodolfo Konder, a todos eles na hora do pau, da tortura, era perguntado: que porr… o Fernando Morais foi fazer em Cuba? Que m… ele foi fazer lá que até hoje não publicou reportagem nenhuma? Então de alguma maneira essa capa do Ex- me protegeu do braço da repressão, afirmou.
 
Dirigindo-se à platéia, Fernando Morais disse que considerava o Ex- uma publicação revolucionária. Tanto no sentido político, quanto do ponto de vista estético. Essa era na sua opinião uma das grandes marcas dos jornais alternativos como o Ex-.
 
Além do enfrentamento da ditadura, faziam crítica aos valores da sociedade burguesa, promoviam discussões sobre sexualidade, entre outros aspectos, que funcionavam como “uma bomba” de alto valor destrutivo de alguns valores morais do período, considerados ultrapassados:
— Era um jornal que atraía militância, mas chamava a atenção também dos jovens, uma faixa muito grande da contra cultura, pelos ataques aos valores burgueses. Porque uma das maneiras de combate à ditadura era combater a classe média. A família enquanto instituição, ou defender o uso de drogas.
 
De acordo com Fernando Morais, o grande legado que os jornais independentes deixaram para a prática do jornalismo é de que é possível fazer bom jornalismo partindo do nada, com zero de recurso:
— Não tínhamos dinheiro às vezes para pagar o aluguel dos imóveis que utilizávamos. Não havia verba para pagar a impressão jornais, no entanto fazíamos um jornalismo que mexia com a cabeça das pessoas. A lição é essa, de que é possível fazer um veículo de resistência debaixo da ditadura militar, que não era frouxa, que matava as pessoas nas ruas. Mas nós fazíamos essa imprensa de briga, sem nenhum tipo de apoio. Não éramos heróis, queríamos fazer um bom jornalismo e derrubar a ditadura militar.

Proposta

Ao final do evento, o Presidente da ABI, Maurício Azêdo, elogiou “os ensinamentos que os depoentes trouxeram das suas intervenções”, e o trabalho de Ivo, do Instituto Vladimir Herzog, “que patrocinou e avançou nessa idéia de reprodução da coleção do jornal Ex-“.
 
Maurício fez um agradecimento especial aos jornalistas Dácio Nitrini, Milton Severiano e Fernando Morais, que na sua opinião apresentaram ao plenário “uma lição de jornalismo, de vida e de adesão ao interesse social, como raramente a gente encontra em qualquer reunião”.
 
Sobre uma sugestão de Fernando Morais de reunir de novo o grupo para produzir o tipo de jornalismo que os veículos independentes inauguraram no Brasil, Maurício Azêdo disse o seguinte:
— E quero assinalar que essa última idéia exposta pelo Fernando Morais, pode ser o ponto de partida para a mudança que se cogita e de que “Ex”, o Bondinho e essas publicações foram pioneiras. E acho que pudemos avançar diante desse objetivo de todos nós que é a democratização da informação e da implantação da dignidade da vida humana aqui no Brasil.
 
O Presidente da ABI lembrou a existência de uma coleção de imprensa alternativa que foi depositada no Arquivo Geral da cidade do Rio de Janeiro, que compreende entre 600 e 700 títulos reunidos durante anos por uma série de pesquisadores, sob a responsabilidade de Maria Amélia Mello, que hoje é diretora da editora José Olympio.
 
Segundo Maurício Azêdo, as informações sobre esse acervo figuram em um livro que a diretora do Arquivo da cidade, professora e pesquisadora Beatriz Kushnir, editou sob o titulo “Maços na gaveta”, e que reúne colaborações de jornalistas e pensadores sobre a questão da comunicação:
— O trabalho inclui essa informação preciosa sobre essa coleção da imprensa alternativa de que é proprietário o município do Rio de Janeiro. Isto é, o povo ds cidade através do seu poder público.
 
Ao final do encontro, dirigindo-se aos debatedores Maurício Azêdo afirmou que ia torcer para fossem criadas outras oportunidades  “para que a gente possa reproduzir em conjunto ou individualmente, essa lição de jornalismo e de vida que vocês nos ofereceram”.
 

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