Homenagem a Mané Garrincha


17/10/2008


Na próxima quinta-feira, 23, a partir de 17h30, o Centro Histórico-Esportivo, da Diretoria Cultural da Associação Brasileira de Imprensa, homenageia o fenomenal Garrincha, que completaria 75 anos no dia 28 de outubro. Às 17h30, o jornalista Roberto Porto e o ex-jogador Amarildo, o “Possesso”, falam sobre o craque em “Mané Garrincha é o assunto”. Às 19h, será projetado o filme “1958, o ano em que o mundo descobriu o Brasil”, do cineasta José Carlos Asbeg. Aberto ao público e com entrada franca, o evento tem apoio da Associação de Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro (Acerj) e será realizado na Sala Belisário de Souza, no 7º andar da sede da ABI (Rua Araújo Porto Alegre, 71 — Centro do Rio).

Na ocasião, será feito também o anúncio da criação da seção Rio de Janeiro do Grupo de Literatura e Memória do Futebol (MemoFut).

A seguir, a continuação da série dedicada ao craque brasileiro.

Histórias do esporte — Garrincha em fotos (III)


Mané acaba com o Flamengo

O Botafogo fez algumas alterações na equipe campeã estadual de 1961. Didi participou de alguns jogos e depois seguiu para o Peru, onde foi vestir a camisa do Sporting de Cristal e ser técnico da equipe. O zagueiro Joel, ex-bangüense, foi contratado. Quarentinha, que não atuou na temporada de 61 por estar contundido, retornou ao time. O ex-rubro-negro Jadir vestiu a camisa botafoguense e manteve a escrita.

Garrincha, depois de se destacar como o principal jogador da Copa de 62, no Chile, passou a viver uma série de problemas pessoais, que se refletiram em sua relação profissional com o Botafogo. O clube discordava de suas reivindicações salariais. Ele pouco jogou no campeonato de 62. Suas seguidas ausências aos jogos foram interpretadas pelos dirigentes como má vontade. e ele chegou a ser multado pelo clube.

Convencido por Marinho e Tomé, que foram buscá-lo em Pau Grande, Garrincha treinou na semana da decisão contra o Flamengo, prometendo acabar com o rubro-negro, que levava a vantagem do empate. No dia 15 de dezembro de 1962, o Maracanã recebeu 146 mil 287 torcedores, que assistiram à exibição de gala de Mané Garrincha.

Flávio Costa montou um esquema para neutralizá-lo. Escalou Gerson na ponta-esquerda para dar o primeiro combate, enquanto Jordan fazia a cobertura. Garrincha não tomou conhecimento de seus marcadores e liquidou o Flamengo, participando dos três gols alvinegros. Marcou o primeiro gol e o terceiro e, no segundo, chutou a bola que bateu no zagueiro Vanderlei e entrou. 

O lance desse segundo gol do Botafogo é contado por Gerson:
“Eu no Flamengo e o Mané no Botafogo, marcando pelo Jordan, na decisão de 62. Eu nunca fui marcador. Aí, pára o Mané a um palmo da linha de fundo, não mais do que isso, eu na frente dele e o Jordan atrás, falando: ‘Vai, vai.’ Estou indo, e o Mané com a bola parada. O Jordan grita: ’Pára aí.’ Eu parei e pensei comigo: ‘Quero saber o que esse cara vai fazer.’ Eu olhando pra ele e ele olhando pra mim. O que é o pior, ele começou a empurrar a bola pra cima de mim e eu comecei a recuar. Estou me arrumando e pensando que ele não poderia passar pelo meu lado esquerdo, porque é a linha de fundo. Por aqui não vai passar, porque eu dou uma trombada nele. Estou recuando e ele, empurrando a bola pra cima de mim. De repente, ele dá o drible dele. Joga o corpo pra esquerda e eu e Jordan fomos no movimento. Mané tocou a bola pra direita, passou entre nós e a linha de fundo, deu uma pancada, a bola bateu no rosto do Vanderlei e entrou. Garrincha foi o maior jogador de futebol que eu vi jogar na minha vida. Ele era desconcertante.” 

O início do fim

Depois de 20 dias sem comparecer ao clube, Garrincha se apresentou para seguir com a delegação, no dia 11 de janeiro de 1963, com destino a vários países da América do Sul. Ao examiná-lo, o Doutor Lídio Toledo constatou que ele não tinha condições para viajar. Seu joelho estava muito mais inchado que de costume. É bom lembrar que, nas excursões do Botafogo, o valor da cota era maior com a presença de Garrincha.

Ele embarcou e, na excursão, atuou em sete dos nove jogos, sendo sempre substituído no segundo tempo. O joelho de Garrincha piorava, ele não seguia as orientações para recuperá-lo, seus problemas pessoais aumentavam e o Botafogo chegou à conclusão que o melhor era vendê-lo.

Garrincha continuou vestindo a camisa alvinegra até 1966. Nesse período, apelava para a fé e se entregava aos cuidados da sua fiel rezadeira. Até que aceitou se operar e procurou o Doutor Mário Marques Tourinho, médico do América, sem o conhecimento do Botafogo.

O Corinthians se interessou por Garrincha e acabou comprando seu passe em janeiro de 66. O futebol do ponteiro ficou muito aquém do que dele se esperava. Mesmo assim, Mané Garrincha foi convocado para a seleção brasileira e disputou a Copa daquele ano, na Inglaterra. Na estréia contra a Bulgária, marcou o segundo gol. O Brasil venceu por 2 a 0, com Pelé abrindo a contagem. Com os dois juntos, a seleção manteve-se invicta.

A última partida de Garrincha na seleção foi diante da Hungria. O Brasil perdeu por 3 a 1 e, pelo mesmo placar, seria eliminada no jogo seguinte, por Portugal. No Corinthians, seu último jogo foi na derrota diante do Santos por 3 a 0, porque depois passou a amargar a reserva. Quando Zezé Moreira assumiu a direção técnica do time, Garrincha encheu-se de esperança por ter um amigo como treinador. Porém, Zezé sentiu que nada mais poderia ser feito: “É triste dizer isso, mas Garrincha acabou.” 

As últimas tentativas

Acima do peso, sem a mesma velocidade, Garrincha via o futebol se afastar cada vez mais de sua vida. A notícia de que o Flamengo o contrataria surpreendeu a todos. Jorge Curi, João Saldanha e outros companheiros que estavam na sala do Departamento de Esportes da Rádio Nacional achavam que tinham entendido mal: seria absurdo o Flamengo contratar um jogador acabado e entregue à bebida.

Mas era verdade e Garrincha estreou contra o Vasco, no dia 30 de novembro de 1968, em jogo válido pela Taça de Prata. O Vasco ganhou por 2 a 0. De nada valeram os esforços dos preparadores físicos rubro-negros para recuperar Mané Garrincha. Numa das viagens pelo Brasil, ele voltou a beber. Disputou as quatro primeiras partidas do campeonato estadual de 1969 e jogou pela última vez pelo Flamengo na vitória de 1 a 0 sobre o Campo Grande.

Quatro anos depois, Garrincha vestia a camisa do Olaria. A estréia diante do Flamengo aconteceu no dia 23 de fevereiro de 1972. Gessé abriu a contagem para os olarienses. Quem recebeu os abraços dos companheiros (como Zagalo) não foi o autor do gol e sim Garrincha. O técnico e jogador Roberto Pinto aproveitou aquele bom momento da partida para substituí-lo. No segundo tempo, Doval empatou para o Flamengo e o jogo terminou 1 a 1.

Seu período no Olaria, último de sua vida profissional, terminou no dia 23 de agosto, diante do Botafogo, no Maracanã. Pelo Olaria, teria continuado, mas Mané Garrincha resolveu parar. Sentiu que não dava mais.

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