18 de agosto de 2022


Guerreira numa profissão machista


26/07/2006


Rodrigo Caixeta
28/07/2006

Aos 17 anos, Ana Carolina Fernandes decidiu que queria ser repórter-fotográfica. Filha e sobrinha de jornalistas — seu pai é Hélio Fernandes, dono da Tribuna da Imprensa, e seu tio, Millôr —, prestou vestibular para Jornalismo e fez, paralelamente, um curso de Fotografia na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Aos 20 anos, foi contratada como estagiária no Globo:
— Em 1984, eu era a única mulher no setor e alguns diziam que a Fotografia não era lugar para mulher. Mas fui “adotada” por fotógrafos como Zeka Araújo, Hipólito Pereira, Paulo Moreira, João Roberto Ripper, Custódio Coimbra, Otávio Magalhães, Chiquito Chaves e outros que me ensinaram muito. Quando comecei, me inspirava na Cynthia Brito, uma grande fotojornalista de uma geração anterior à minha.

A ambição de Ana Carolina, porém, era maior. Sonhava ir para o JB — “o grande jornal da época” —, onde acabou fazendo frilas e teve grande aprendizado com Alberto Ferreira, então editor de Fotografia. Em 1986, foi convidada por Ricardo Noblat para ir para o Jornal do Brasil em Brasília e depois transferiu-se para a IstoÉ, também no Distrito Federal:
— Quando a revista acabou — retornando, posteriormente, como IstoÉ Senhor — decidi que não queria mais morar lá. Tive um grande e importantíssimo aprendizado, mas a proximidade com o poder não me seduzia, muito pelo contrário. Eu era muito jovem, bonita e filha de um jornalista famoso, o que fazia com que eu fosse muito assediada, pelo poder e por alguns políticos.

Ana Carolina, que há oito anos trabalha na sucursal carioca da Folha de S. Paulo, diz que o fotojornalista deve ter um olhar diferenciado, criatividade, sorte, perseverança e paciência. E sugere às colegas de profissão ter um ótimo preparo físico:
— As grandes coberturas são uma guerra, com mais fotógrafos e cinegrafistas do que espaço físico. Vale lembrar que o fotojornalismo é uma profissão machista, as que conseguem sobreviver a tanta pressão são raras e as que se sobressaem — nas quais sem falsa modéstia me incluo — são verdadeiras guerreiras, adjetivo-elogio que mais ouço nas ruas.

Ainda como estagiária do Globo, ela cobriu a campanha das Diretas Já — “um momento emocionante e inesquecível” — e o acidente com o césio 137, em Goiânia:
— Depois, já como contratada, cobri a Constituinte, o “badernaço” em Brasília quando a população se revoltou com a implantação do segundo Plano Cruzado, viagens presidenciais, visitas do Papa e shows de Madonna, Michael Jackson e Rolling Stones, carnavais, queda do edifício Palace, fogos no Ano Novo e o dia-a-dia: futebol, chuvas, tiroteios…

Numa cobertura que lhe rendeu primeira página no Globo, foi testemunha de uma história inusitada:
— Eu estava com o Chiquito Chaves no enterro da atriz Elza Gomes, no cemitério de Santa Cruz. O local estava lotado e o Chiquito ficou em cima de um muro, esperando o caixão chegar, e me mandou esperar onde o corpo seria enterrado. Havia uma multidão em cima dos túmulos ao lado e, de repente, um deles cedeu e várias pessoas caíram dentro de uma sepultura. Foi tragicômico.

Uma das fotos premiadas de Ana Carolina, vencedora do Prêmio Folha em 2002, foi feita no Morro do Querosene, no Rio, quando o Presidente da Associação dos Moradores daquela comunidade jogou várias cápsulas de balas de fuzil no chão e umas crianças que estavam perto começaram a brincar de escrever:
— Eles escreveram TC, de Terceiro Comando, a facção criminosa. Foi a situação em que fiquei mais impressionada na minha vida profissional. Eram crianças muito pequenas, que não sabiam ler ou escrever! Eu me lembro de pensar: “Que mundo é esse em que estamos vivendo, meu Deus?” A cena era impressionante. Sabia que nenhum jornal publicaria aquela foto, ou pior, “mataria” com tarjas. Fiz as fotos de frente como todos os fotógrafos, mas depois fui por trás e subi num murinho para pegar um ângulo em que as crianças ficavam de cabeça abaixada e seus rostos não apareciam. Todos os jornais publicaram com tarjas nos olhos, menos a Folha. Esta mesma foto foi finalista do Prêmio Líbero Badaró.

Aos interessados em ingressar na profissão, Ana Carolina avisa:
— É preciso amar a fotografia e o jornalismo, claro. Ter tesão mesmo, porque repórter-fotográfico não fica rico, sequer ganha bem, e a atividade não é fácil. Trabalha-se no sol, chuva, frio, Natal, Ano Novo, feriados, domingos, Dia das Mães, dos Pais, dos filhos… Onde estiver a notícia, estaremos lá. Estude sempre, seja humilde e não perca a ética nunca — ainda que a linha possa ser tênue. E fotografe. Muito. É assim que se aprende. Sorte também é legal!

Clique nas imagens para ampliá-las: 

 

“A avó de Wellington, 11 anos,…”

“Policiais militares enfrentam…”

“Eu já estava dentro do carro e…”

“Flagrei nesta imagem um surfista de…”

 

“Prostitutas da Vila Mimosa…”

 

 

“Esta imagem do Lula estava…”

“Príncipe Charles foi visitar a…”

“Esta foto eu fiz em Paris, em 2000…”

“Foto do músico cubano…”

  “Crianças do Morro do Querosene…”

   

“Flagrante de um assalto com refém…”

“Reflexo da asa-delta 
em que eu…”

“Aí estão algumas alunas da…”

“O reflexo 
do sol em uma rede…”

 

“Vazamento de óleo da Petrobras…”

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