Especial – No calor da notícia


01/02/2006


Rodrigo Caixeta

Rio, 40º. É esta temperatura em média que os cariocas têm enfrentado nos últimos dias. E, na Cidade Maravilhosa, o verão sempre rende boas pautas para os jornalistas, que às vezes passam horas sob o sol escaldante, apurando, entrevistando ou ainda gravando flashes e passagens para a TV, na praia, enquanto o restante da população está se divertindo.

        Bette Lucchese, da TV Globo

Os profissionais de televisão são os que sofrem mais nas matérias especiais de verão, já que precisam cuidar da imagem exibida no vídeo. Bette Lucchese, repórter da TV Globo, tem enfrentado uma verdadeira maratona de matérias sobre calor: só na semana passada, fez reportagens na Saara e em Bangu — dois dos pontos mais quentes da cidade. No feriado carioca do dia 20, Bette havia sido pautada para uma reportagem sobre dengue. Eis que ocorre uma mudança de planos — ou melhor, de pautas — e ela acaba na praia, fazendo um “ao vivo”:
— Quando entrei no ar, até brinquei com o apresentador dizendo que não estava vestida com a roupa mais apropriada para estar na praia. E as pessoas ficam curiosas para saber por que escondemos os braços com a roupa, mas isso é uma norma da empresa, até mesmo por respeito ao telespectador.

Segundo Bette, quando ela sabe das pautas com antecedência, pode até usar roupas mais leves:
— É duro fazer flash na praia com todo aquele calor. Além disso, os telespectadores às vezes devem achar que sou louca por estar vestida com roupas quentes. Mas também já fui pautada de surpresa para entrevistas mais formais em dias em que estava vestida mais à vontade.

Vandrey Pereira, repórter do “Globo Baixada”, que vai ao ar no “RJ-TV”, diz que enfrenta o calor diário da região, que só não tem praias. Como é setorista, gosta quando faz matérias em outros bairros, como um plantão recente na praia de Ipanema:
— Para mim, é ótimo fazer esse tipo de matéria, pois saio do meu cotidiano. Nesse plantão, fui pautado para falar sobre a desordem na praia e acabei atentando para a questão da segurança com a falta de policiamento.

Sobre a maquiagem, Vandrey diz que há um cuidado de toda a equipe, que dá dicas e sugestões para melhorar a imagem no vídeo, e comenta:
— É engraçado quando encontro conhecidos nesses dias de plantão especial, porque eles acham que estou ali de folga, em vez de estar trabalhando.

Mônica Santos, repórter da Rede TV!, cobre normalmente pautas das editorias Cidade e Polícia, mas nesta temporada está fazendo matérias de verão. Em uma de suas últimas coberturas, foi pautada para cobrir irregularidades na orla, como o comércio de produtos comestíveis na areia. Responsável pelos cuidados com a própria maquiagem, ela brinca:
— É um sofrimento gravar passagens embaixo do sol, porque derrete tudo. Às vezes imagino que estou parecendo uma palhaça no vídeo. Mas o cinegrafista e os outros colegas da equipe também observam e avisam se houver algo de errado.

Oswaldo, da Rede TV!

Oswaldo Coelho, estagiário da Rede TV!, costuma acompanhar os repórteres nas matérias de verão. Mesmo não podendo aparecer frente à câmera, faz entrevistas e auxilia na produção. E, como toda a equipe, sofre com as altas temperaturas na cidade:
— No Rio, praia é sempre notícia. Recentemente, fui até Ipanema fazer uma pauta sobre prevenção contra os raios solares e acompanhei a Mônica na pauta sobre as irregularidades na praia.

Segundo Oswaldo, é comum encontrar colegas de outros veículos nessas coberturas de praia, o que, diz ele, acaba rendendo novas pautas, além da “troca de figurinhas”:
— Às vezes encontramos também os amigos, que não perdem a oportunidade para fazer brincadeiras por estarmos de calça comprida, suando. De vez em quando é um perrengue, mas, se gostamos do que fazemos, é satisfatório de qualquer maneira.

  Fernanda, da Band

Fernanda Freitas — que trabalha no Núcleo de Produção da Band Rio, mas está cobrindo férias no Jornalismo — tem feito várias reportagens na praia:
— Muitas vezes, pegar sol vestida de terninho e salto alto e ir assim para a areia faz parte do meu trabalho como repórter. Isto porque nem sempre cobrimos apenas matérias na praia, mas fazemos outras entrevistas formais. Normalmente, ligo para a redação para me informar sobre o que vestir. Eventualmente, podemos usar uma sandália rasteira, ou uma blusa com manga três-quartos, mas isso não é comum, em razão das outras pautas do dia.

No feriado municipal de 20 de janeiro, Fernanda foi pautada de última hora para cobrir um show do Skank na praia do Flamengo, depois de já ter feito outras matérias ao longo do dia, trajando terno e salto alto. Ela conta que até um certo momento pôde ficar no palco. Depois, teve que ir para a areia fazer entrevistas:
— Fiquei descalça, segurando os sapatos numa mão e o microfone na outra. Foi cômico. Quando, já na calçada, tive que entrevistar o Coronel responsável pela segurança local, pedi licença para me calçar novamente e não gravar a sonora descalça. 

Alessandro, do Globo

Inovação

Mesmo quem fica só nos bastidores — como a maioria dos colegas de imprensa — sofre com o calor. Há algum tempo, porém, a situação mudou em alguns veículos. Segundo Alessandro Soler, repórter do Globo encarregado pela primeira vez da cobertura de pautas de verão este ano, “é duro fazer matéria na praia enquanto todos se divertem”, mas a inovação do jornal de permitir que seus repórteres possam fazer essas coberturas de calção ou sem camisa melhorou tudo:
— Passo horas exposto ao sol e por isso preciso de muito protetor solar. No entanto, muitas pessoas que me vêem trabalhando dizem que é o emprego que elas gostariam de ter.

Alessandro diz que, a cada dia do verão, O Globo vai ter um repórter na praia:
— A praia é o centro da notícia. É, porém, um trabalho árduo, que exige dedicação e atenção, pois tudo pode virar pauta. Quando fui pautado para uma matéria sobre comportamento em Ipanema, a notícia acabou sendo o aparecimento de um corpo boiando no mar.

Ana Paula Verly, repórter do Jornal do Brasil, diz que, quando é pautada com antecedência para matérias de praia, já vai para o trabalho prevenida, com roupas mais frescas. Mas também lembra que é comum as pessoas ficarem curiosas em relação aos trajes do repórter:
— Em matérias de comportamento feitas na praia e outras do gênero, muda até a abordagem com o entrevistado, porque não é uma entrevista rígida, é mais um bate-papo. Há ainda matérias de observação, como uma em que o fotógrafo e eu pudemos ir à praia com roupas de banho. Ambas são reportagens especiais, que têm mais tempo de apuração, sem a obrigação de voltar imediatamente para a redação e escrever.

         Ana Paula Verly, do Jornal do Brasil

Certa vez, Ana Paula estava no Posto 9, em Ipanema, quando viu um colega — “que não conhecia” — de uma emissora de TV chegar para fazer uma reportagem sobre um sacolé que ela estava tomando. A repórter, que não estava a trabalho, foi abordada por ele e conheceu o outro lado da moeda quando se viu como entrevistada:
— Embora relutasse um pouco, acabei dando uma declaração para ajudá-lo.

No último feriado no Rio, ela foi pautada para uma matéria sobre os pontos freqüentados por moradores do subúrbio:
— Percebi que eles são mais calorosos. Vieram me oferecer cerveja, salgadinho e até mesmo me sugeriram um mergulho — recorda, aos risos.

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