Das agências para o resto do planeta


21/09/2006


            José Reinaldo Marques

                                Gerardo Maronna

A maior parte dos correspondentes internacionais em ação no Brasil trabalha para agências de notícias — são 87 jornalistas, de acordo com a Acie. As três maiores em operação aqui são a Reuters, a Association Press (AP) e a France Presse (AFP). Esta tem três escritórios no País, em Brasília, São Paulo e Rio — o maior, com 20 profissionais. O Diretor adjunto Gerardo Maronna, responsável pelos serviços em português e espanhol da AFP, justifica a necessidade de contratar grande número de colaboradores:
— Para a maioria dos jornais e revistas, é muito caro manter pessoal próprio no exterior. Prova de isso é que somente os grandes veículos brasileiros e estrangeiros têm correspondentes permanentes nas principais cidades do mundo. A solução é apelar para os freelancers e as agências, que oferecem notícias e fotos de todas as áreas, de maneira rápida e eficiente.

O uruguaio Maronna já havia trabalhado no Rio entre 1990 e 93, como correspondente da espanhola EFE, e voltou à cidade no ano passado, para chefiar a Redação da AFP. Para ele, não é problema para o correspondente internacional lidar com diferenças regionais e culturais:
— Cada país tem suas particularidades e o Brasil, mais que qualquer outro, tem as suas. Mas isso não atrapalha em nada, só nos oferece muito material para trabalhar. Nossos clientes também são bem variados e se interessam por todo tipo de notícia. Pelo que observo, os da América Latina tem preferência pelos temas corrupção, violência e futebol; já os da Europa solicitam mais matérias sobre violência, índios, meio ambiente e seleção brasileira.

 Rodrigo Caixeta

 Ilma Martins da Silva

Personalidades masculinas

Em 1970, a Agência Novosti abriu o seu primeiro escritório no Brasil — no mesmo prédio do Consulado da antiga União Soviética, em Botafogo, na Zona Sul do Rio —, com os jornalistas russos Albert Bourlak e Vladislav Dmitrenko. Quem conta é a brasileira Ilma Martins da Silva, que trabalhou lá até 1991:
— No início, como o Pelé estava no auge, eles faziam muitas matérias sobre futebol. Amazônia e folclore também estavam entre os assuntos favoritos. O curioso é que as matérias destacavam apenas personalidades masculinas, nunca as mulheres.

                                  Andrei Kurguzov

No fim dos anos 80, após a dissolução da União Soviética, a Novosti fechou seu escritório no Brasil. Hoje, mantém no Rio somente o jornalista Andrei Kurguzov, que trabalha no apartamento onde mora com a família, em Ipanema:
— O Brasil é um País muito específico, onde os eventos têm pouca ligação com a Europa — diz ele. — Como sou eu mesmo quem escolhe as pautas, às vezes consigo escrever sobre mais de 20 assuntos por mês. O País oferece material vasto, mas as matérias de maior interesse lá fora são sobre futebol, eleições, economia e energia, especialmente na área de pesquisa. Faço também reportagens que têm relação com conflitos internacionais, como o atual no Líbano, que reflete em muitas famílias radicadas aqui.

Andrei vê muita diferença entre o jornalismo norte-americano e europeu e o praticado no Brasil:
— Por exemplo: o escândalo da máfia das ambulâncias é um assunto que não teria tanto interesse para os russos. E se a imprensa européia fosse abordá-lo, não faria como O Globo, que na época dedicou 23 páginas ao tema. Para nós, um pouco mais de três frases seria o suficiente. A mídia brasileira se preocupa muito com detalhes em detrimento do essencial. Na Europa e nos Estados Unidos é o contrário, a imprensa passa para o público apenas a essência do fato.

Ronaldo de la Ribera

Imprensa latina

Outro órgão de imprensa internacional que não abre mão de manter correspondente no Brasil é a estatal cubana Prensa Latina, cujo representante é Ronaldo de la Ribera Blanco. O jornalista mora há pouco tempo no Rio — chegou em fevereiro —, mas está na agência desde 1985, depois de dez anos trabalhando na Rádio Cubana.

Rolando se diz avesso a entrevistas e afirma que “os jornalistas cubanos se caracterizam pela modéstia”. Modesto mesmo é o orçamento de que o correspondente dispõe para realizar o seu trabalho, embora não revele a quantia:
— Em função da limitação econômica, faço poucas viagens. As passagens aéreas são muito caras e o avião é o meio de transporte ideal para se cruzar um país com as dimensões do Brasil. Porém, sou obrigado a viajar quando se trata de uma cobertura imprescindível.

A rotina de Rolando começa cedo. Às 6h, ele já está lendo os principais jornais brasileiros, ouvindo o rádio ou navegando na internet, em busca de fatos que possam gerar pautas para suas reportagens:
— Só então começo a escrever as primeiras notas. Em seguida, assisto a alguns telejornais. E também faço coberturas na cidade do Rio. Como a maioria dos correspondentes, trabalho em casa. É mais prático, porque mantém o jornalista sempre ligado na notícia. Além disso, há a comodidade de não se perder tempo com a ida e volta ao trabalho. Por outro lado, a rotina se torna mais angustiante, porque a gente nunca descansa.

Para Rolando, o Brasil, com seus contrastes e belezas, é uma nação rica em informação:
— As notícias brasileiras veiculadas pela Prensa Latina não são lidas somente em Cuba trafegam do Canadá à Patagônia. Temos muitos clientes e nosso site é visitado por leitores da América do Norte, África, Europa e Ásia. Por isso, transmitimos em espanhol, inglês e italiano e estamos começando a fazê-lo também em português.

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