Criminalidade afetou o trabalho da imprensa


22/02/2005


Nathaly Ducoulombier

Em dezembro do ano passado, uma jornalista carioca liga para uma amiga, também jornalista. Deu-se o seguinte diálogo: 

– Oi, Nathaly, tudo bem? 

Do outro lado da linha, sem muito tempo para explicar o que estava acontecendo, Nathaly respondeu: 

– Não posso falar agora; estou no meio do fogo cruzado; pensei que era da Redação… 

A personagem dessa história, Nathaly Ducoulombier, tem 12 anos de profissão e atualmente é repórter do SBT, no Rio de Janeiro, onde há cinco anos faz cobertura de Cidade. A reportagem em que Nathaly e sua equipe passaram momentos de tensão aconteceu durante uma operação policial no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, Zona Norte do Rio. Para se proteger do tiroteio, a equipe de reportagem teve que procurar abrigo para não ser atingida em meio à troca de tiros entre policiais e traficantes. 

Prudência e precaução sempre foram boas indicações para os profissionais da imprensa, principalmente para aqueles que diariamente se vêem envolvidos em matérias policiais. Mas desde a morte do jornalista Tim Lopes, assassinado por traficantes do Complexo do Alemão, há cerca de três anos, quando fazia uma reportagem para a TV Globo, os códigos de sobrevivência das equipes de reportagem foram reforçados e o jornalista que faz cobertura de Cidade atua como um soldado em zona de guerra: está sempre em estado de alerta. 

– Acho que a profissão de jornalista, num certo sentido, sempre foi um pouco arriscada, mas com o tempo o repórter aprende a se proteger. É claro que você quer estar no meio da notícia, mas o limite para o perigo existe e o jornalista conhece – diz Nathaly Ducoulombier. 

Situações como a que a repórter do SBT experimentou no Morro dos Macacos já se repetiram em duas outras ocasiões: uma no Complexo do Alemão e outra no Morro da Lagoinha, em Niterói (RJ). 

– No Morro da Lagoinha as equipes de reportagem ficaram presas em uma casa com a polícia. Os tiros vinham de fora, um horror. Jornalista que trabalha na Geral acompanha muitas operações da polícia. Mas em TV, como não temos setoristas como em jornal, corremos menos perigo. Nem sempre estamos em matéria de polícia.” 

Os setoristas, repórteres que atuam em áreas destacadas por assuntos, como Comportamento, Administração Pública, Polícia, Cidade, normalmente são designados para essa função de acordo com as necessidades do veículo. Há casos em que os repórteres pedem para serem escolhidos, como é o caso das equipes que cobrem a área de polícia. Neste caso o que vale é a aptidão. Dependendo do veículo, os repórteres podem até ser transferidos de um setor para outro, a critério da chefia.

A repórter Maiah Menezes diz que, como a maioria dos repórteres de Cidade, também já teve que fazer matérias de alto risco. 

– Não senti medo. Deveria ter sentido, porque sou humana, mas a adrenalina falou mais alto. Veja bem: não defendo isso. Foi apenas o que eu senti. Racionalmente, acho um perigo aterrador estar, por exemplo, em uma favela durante uma incursão de surpresa da polícia. Situação pela qual já passei – diz. 

Apesar das situações de risco e das ameaças que já sofreu, a repórter acha que a Editoria de Cidade é a que mais contribui para a formação de um jornalista. 

– Ser repórter sem ter aprendido a trabalhar na Editoria de Cidade teria sido o mesmo que ser médico sem ter tido a experiência de trabalhar na emergência de um hospital. É uma especialização – as generalidades às vezes fascinantes do cotidiano – conclui.

Embora a violência da cidade venha rendendo prêmios aos jornalistas – nas últimas 10 edições do Prêmio Esso de Fotojornalismo, pelo menos em sete vezes a criminalidade foi o tema das matérias vencedoras – a maioria dos jornalistas ouvidos pelo ABI acha que a criminalidade afetou bastante o trabalho da imprensa. Na madrugada de 24 de junho de 2002, quando bandidos atiraram contra o prédio da Prefeitura do Rio, os repórteres-fotográficos do jornal O Globo registraram a movimentação de bandidos armados nos Morros da Coroa e da Mineira, no Centro do Rio, de onde teriam partido dos tiros. No dia seguinte à publicação das fotos, o jornal recebeu ameaças de que o prédio seria metralhado. Durante dois dias a polícia ficou de plantão nas dependências do Globo. Esse tipo de incidente é o que o jornalista Paulo Motta considera a “ameaça física” que ronda os profissionais da imprensa. 

– Eu me lembro de que subia morros na década de 80, quando era repórter do Jornal do Brasil. Não havia um morro onde eu não entrasse. O repórter entrava com o carro do jornal e era respeitado. Até porque o bandido sabia que a presença da imprensa em algumas ocasiões poderia livrá-lo, por exemplo, de um caso de tortura. Não se trata de dizer que a imprensa era aliada do bandido. Nunca houve aliança do jornalismo com os criminosos, mas havia o seguinte: respeitem o nosso trabalho, porque nós também vamos denunciar a violência policial ou qualquer outro comportamento errado – conta o jornalista, afirmando que não existe mais respeito ao trabalho da imprensa e que hoje os jornalistas estão sendo proibidos de trabalhar em favelas, sendo até mesmo vítimas da criminalidade. 

O repórter-fotográfico Carlos Moraes, de O Dia, conta que para fazer o seu trabalho em favelas, sem risco, é obrigado “a pedir licença” aos traficantes. Ele diz que por diversas vezes enfrentou o perigo na realização de uma reportagem.: 

– Já passei pela situação de traficantes do morro da Mineira colocarem o cano da pistola no meu ouvido. No morro Dona Marta, em Botafogo, traficantes me encurralaram nas escadarias e atiraram na minha direção. Tive que me esconder embaixo do carro. Um dos tiros atingiu o pneu do carro. 

Carlos Moraes/O Dia   

Um flagrante de Carlos Moraes: moradores da favela são acuados por policiais

Com mais de vinte anos de profissão, Carlos Moraes conquistou o Prêmio Esso de Fotojornalismo 2004 pela seqüência de fotos que realizou sobre uma ação da polícia no Morro da Providência, no Centro do Rio. A pauta de Carlos Moraes era acompanhar uma equipe da Core, Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia Civil numa favela no subúrbio. Moraes ia junto com um grupo de policiais em um helicóptero, quando a aeronave quase foi atingida por disparos de fuzis e metralhadoras vindos do Morro da Providência. Um delegado que estava no helicóptero começou a gritar para que ele se abaixasse. O fotógrafo deixou apenas o braço de fora e disparou a máquina, fazendo as fotos sem olhar no visor. Somente quando retornou à redação é que Moraes, ao ver a seqüência das fotografias, constatou que ali havia mais do que o registro da ação de criminosos desafiando a polícia: as fotos denunciavam que dois moradores do morro, desarmados, estavam sendo intimidados por policiais, que depois aparecem descendo a favela com um corpo sendo carregado num tapete: 

– Estava no banco de trás quando vi a movimentação de policias na entrada do morro e o delegado que nos acompanhava ficou preocupado conosco (os jornalistas) e pediu reforço por terra; enquanto isso eu fazia as fotos. Tive medo quando os bandidos atiraram em nossa direção várias vezes e os policiais pediram para eu me abaixar – relembra. 

Os homens que estavam sendo acuados pelos policiais morreram duas horas depois no Hospital Souza Aguiar, no Centro do Rio, e, segundo a polícia, eram traficantes. Por causa da publicação das fotos o delegado que comandava a operação e mais seis policiais foram afastados de suas funções. O fotógrafo Carlos Moraes passou a sofrer ameaças e foi obrigado a sair de férias. Apesar dos cuidados, o jornalista não se intimidou, pois acha que “repórter-fotográfico tem que ter sensibilidade e um bom conhecimento da sua cidade para, além de mostrar suas belezas, denunciar as suas mazelas”.

Carlos Moraes/O Dia

   Na seqüência, os policiais descem o morro carre-   gando o corpo de um homem

Para a jornalista Márcia Glogowiski é difícil avaliar o quanto a violência afetou o trabalho da imprensa: “Afeta quando um repórter sofre um seqüestro-relâmpago, como aconteceu com um dos nossos na primeira quinzena de fevereiro de 2005. De resto rende pautas, muitas pautas”.

O repórter do jornal O Estado de S. Paulo que sofreu o seqüestro chama-se Marcelo Onaga. Ele acabara de sair da redação do jornal, por volta das 21h, havia 10 minutos, e quando falava com a namorada pelo celular na Avenida Sumaré – uma das mais movimentadas de São Paulo – teve o carrro interceptado pelos seqüestradores. Os bandidos, dois homens armados, entraram no carro. Um deles ficou ao volante e o outro sentou-se com Marcelo no banco de trás. Rodaram durante meia-hora com o repórter. Num cruzamento o carro de Marcelo emparelhou com uma viatura da polícia. Os criminosos ficaram nervosos, mas o jornalista manteve a calma e disse a eles que ficassem tranqüilos pois não iria sinalizar para os policiais. Depois de rodar pelas ruas do Centro de São Paulo, os assaltantes abandonaram o repórter com seu carro, levando apenas cartões de crédito e dinheiro. 

Não rendeu matéria, mas o caso mostra que o jornalista é um cidadão como qualquer outro que está do lado de lá da notícia, e que a violência está para todos.

– Somos vítimas como todos, infelizmente, mas com o agravante de passarmos eventualmente a algozes. Não é raro a imprensa ser culpada pela repercussão que os crimes causam. A sociedade é vítima da violência e a imprensa é parte dessa sociedade. Mas as autoridades muitas vezes se acham vítimas da imprensa – diz a repórter Maiah Menezes.

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