Paulo Malhães é encontrado morto em seu sítio no RJ


Por Igor Waltz*

25/04/2014


Paulo Malhães, durante depoimento à Comissão Nacional da Verdade (Crédito: Daniel Marenco/Folhapress)

Paulo Malhães, durante depoimento à Comissão Nacional da Verdade (Crédito: Daniel Marenco/Folhapress)

O tenente-coronel reformado do Exército Paulo Malhães, de 74 anos, ex-agente do Centro de Informações, foi encontrado morto na manhã desta sexta-feira, 25 de abril, em seu sítio em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. O corpo apresentava marcas de asfixia, segundo a Polícia Civil. O militar da reserva teve atuação de destaque na repressão política durante a ditadura militar e, em março, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV), assumiu ter participado de torturas, mortes e desaparecimentos de presos políticos.

Ainda no mês de março, Malhães afirmou à Comissão Estadual da Verdade do Rio ter sido um dos chefes do grupo envolvido com a prisão do ex-deputado Rubens Paiva, morto sob tortura em dependências do Exército em 1971. Na ocasião, admitiu ter participado da operação de sumiço do corpo do parlamentar, mas ao falar à CNV voltou atrás nas declarações e negou envolvimento no caso.

De acordo com o relato da viúva, Cristina Batista Malhães, três homens invadiram o sítio na noite de quinta-feira, 24 de abril, à procura de armas. O coronel seria colecionador de armamentos. Na ação, o grupo levou todas as armas que ele tinha em casa.

Cristina disse que ela e o caseiro foram amarrados e trancados em cômodos separados, das 13h às 22h desta quinta-feira pelos invasores. Ambos foram conduzidos para prestar depoimento na Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF).

Segundo o delegado Fábio Salvadoretti, da DHBF, não havia marcas de tiros no corpo de Paulo Malhães, apenas sinais de asfixia. “A princípio, ele foi morto por asfixia. O corpo estava deitado no chão do quarto, de bruços, com o rosto prensado a um travesseiro. Ao que tudo indica ele foi morto com a obstrução das vias aéreas”, disse.

O local não tem câmeras de segurança, de acordo com Salvadoretti. A mulher e o caseiro não conseguiram reconhecer os criminosos, mas afirmam não ter sofrido violência física. O corpo de Paulo Malhães foi levado para o Instituto Médico Legal de Nova Iguaçu.

Polícia Federal

O coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Pedro Dallari, solicitou ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que a Polícia Federal acompanhe as investigações da Polícia Civil do Rio de Janeiro sobre o assassinato. Para a CNV, o crime e sua eventual relação com as revelações feitas por Malhães à Comissão Nacional da Verdade, à Comissão Estadual da Verdade do Rio e à imprensa, deve ser investigada com rigor e celeridade.

“Por se tratar de uma situação que envolve investigação conduzida pela CNV, que é órgão federal , pedi que a Policia Federal fosse acionada para acompanhar as investigações conduzidas pela Polícia Civil do Rio”, afirmou Dallari.

Repercussão

O presidente da Comissão Estadual da Verdade do Rio, Wadih Damous, sugeriu que a morte do militar tenha sido “queima de arquivo”. “Ele foi um agente importante da repressão política na época da ditadura e era detentor de muitas informações sobre fatos que ocorreram nos bastidores naquela época. É preciso que seja aberta com urgência uma investigação na área federal para apurar os fatos ocorridos no dia de hoje. A investigação da morte do coronel Paulo Malhães precisa ser feita com muito rigor porque tudo a leva a crer que ele foi assassinado”, disse Damous.

Nadine Borges, integrante da Comissão Estadual da Verdade que tomou depoimento de Malhães, cobrou uma investigação célere do assassinato. Segundo ela, este não pode ser tratado como um crime comum. “A polícia tem que investigar a fundo esse crime. Tudo indica que é uma queima de arquivo”, disse Borges.

Representante do grupo Tortura Nunca Mais, Vitória Garbois, considera que o crime demonstra “perigo” para quem investiga a ditadura. “É estarrecedor o que aconteceu. Espero que o Estado brasileiro tome as medidas cabíveis, acione as policiais estadual e Federal para apurarem o que realmente aconteceu. Nós, dos direitos humanos, temos que ficar atentos. Se isso aconteceu com um militar, nós estamos passando por muito perigo”, declarou.

Vitória teme que as investigações da Comissão da Verdade sejam prejudicadas devido ao assassinato. “A morte do coronel é uma ameaça, porque outros torturadores podem ficar acuados para prestar depoimentos e esclarecimentos sobre o que aconteceu na época da ditadura militar. Temos que abrir os arquivos da ditadura o quanto antes”, disse Vitória.

Em seu blog, o coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, afirmou que Malhães foi assassinado e, no mesmo texto, lembrou a morte de outro coronel, também ex-agente da ditadura, Júlio Miguel Molina Dias, ocorrida em 2012. Ustra comandou o DOI-CODI, em São Paulo, entre 1970 e 1974. No fim de março, durante atos que lembraram os 50 anos do golpe militar, Ustra foi alvo de manifestações de grupos de direitos humanos que pedem a punição de ex-agentes da ditadura.

O Clube Militar, associação que reúne militares da reserva do Exército, informou que não se pronunciará sobre o caso por não conhecer as circunstâncias da morte do coronel. O chefe de gabinete da presidência da instituição, coronel Figueira Santos, disse que o Clube Militar só irá se manifestar se surgir algum “fato novo”. O Comando Militar do Leste, no Rio, também informou que não vai comentar o caso, já que as investigações estão a cargo da Polícia Civil.

*Com informações de O Globo, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, e do G1.

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