Copa do Mundo é tema de evento na ABI


28/02/2013


A ABI realizou nesta quinta-feira, dia 28, o seminário “A Copa que Queremos” promovido pela Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da entidade, com apoio do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas. O evento reuniu mais de 500 pessoas no Auditório Oscar Guanabarino, localizado no 9º andar do edifício-sede da Associação.
 
Parlamentares, jornalistas, professores, estudantes, pesquisadores e o público em geral debateram temas relacionados à organização da Copa do Mundo de 2014 e o incentivo a projetos de infra-estrutura que representem um legado para a população. 
 
A sessão de abertura foi conduzida pelo Presidente da ABI, Maurício Azêdo.
— A Associação Brasileira de Imprensa tem muito prazer e orgulho em dar as boas vindas a todos para um ato de afirmação da cidadania na cidade do Rio de Janeiro sobre os preparativos para os chamados megaeventos programados 2013, 2014 e 2016. Este é o segunda manifestação que a ABI abriga e sedia ao longo dos últimos 30 dias. Em 31 de janeiro, tivemos aqui um ato público em defesa do Estádio de Atletismo Célio de Barros, o qual constituiu um ata de acusação das autoridades estaduais e municipais que subverte a lógica ao pretender derrubar um centro da importância do Célio de Barros em nome da realização de um evento voltado exatamente para o atletismo e as práticas desportivas. Como também foi feito em relação ao Maracanã que absolveu obras e recursos públicos superiores àqueles investidos na sua construção há mais de 60 anos, para o fausto e a orgia das empresas que têm sido favorecidas por decisões dos poderes públicos da cidade e do Estado. Desejamos que este seja um encontro frutífero e ofereça perspectivas e avanços na luta de bens essenciais aos quais estamos empenhados.
 
A primeira mesa de debates, com o tema “O custo da Copa e seu legado”, reuniu os Deputados estaduais Paulo Ramos(PDT), Marcelo Freixo(PSOL), Clarissa Garotinho(PR) e os Vereadores Reimont(PT) e Renato Cinco(PSOL). O jornalista Daniel Mazola, Conselheiro ABI, 2º Secretário da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da entidade, mediou o encontro.
 
Paulo Ramos (PDT) iniciou o discurso fazendo uma homenagem ao Presidente da ABI:
— Maurício Azêdo é uma referência, a mais expressiva, de resistência democrática que aqui se expressa neste esforço em defesa do Complexo do Maracanã. Estar ao lado dele é motivo de honra e muito orgulho, eu diria até que nem mereço. Em relação ao tema deste encontro, gostaria de lembrar que estamos diante de um escândalo em que forças políticas se mobilizam para praticar crimes capitulados no código penal. Não me refiro apenas ao desvio de recursos públicos, mas à desfaçatez de privilegiar algumas empreiteiras, como Delta e Odebrecht. Precisamos denunciar a falência de instituições, que deixaram de cumprir a sua destinação constitucional, como uma parcela do poder legislativo. Vamos continuar a luta e a mobilização neste ato público, pois conquistamos avanços justamente a partir dos esforços e da pressão popular.
 
A respeito da realização dos megaeventos esportivos, o Vereador Renato Cinco(PSOL) destacou as características de projeto desenvolvimentista fundado na lógica da exclusão social:
— Ao debater o legado da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016 é preciso lembrar que esses eventos estão submetidos à lógica da desigualdade social, na qual o poder público privilegia os avanços em regiões ocupadas pelas classes dominantes em detrimento da população pobre. A lógica da cidade-mercadoria, que pode ser exemplificado com o projeto para o Complexo do Maracanã, que inclui a demolição do estádio Célio de Barros, do Parque Aquático Júlio Delamare, a Escola Friedenreich e o Museu do Índio. Embora a FIFA já tenha admitido não ter interesse na demolição desses aparelhos, o pretexto apresentado para a sociedade é a Copa do Mundo. O objetivo á aumentar o potencial dos negócios para quem conquistar a concessão do Maracanã. O modelo olímpico foi escolhido para entregar à especulação imobiliária territórios ocupados por populações de baixa renda.
 
Na opinião do parlamentar, o aspecto positivo da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos é o legado político em termos de organização popular a partir das lutas em torno dos eventos:
— Nas doze cidades brasileiras que receberão os eventos da Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas 2016 há comitês populares articulados que trarão frutos à mobilização social, assim como ocorreu durante a preparação dos Jogos Pan-Americanos de 2007, como a plenária dos movimentos sociais. A partir do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas precisamos articular as lutas pela disputa do legado, questionar as ações, defender alternativas e os direitos das pessoas que estão sendo atingidas pelos megaeventos.
 
O deputado defendeu a participação popular pela permanência do Museu do Índio:
—Nossa estratégia é mudar os rumos deste processo e conseguir vitórias pontuais para a cidade, como, por exemplo, a não demolição do Museu do Índio. Porém, precisamos lutar pelas reivindicações dos indígenas, e uma delas é que o museu seja construído a partir do olhar indígena, fundamental para a resistência dos povos originários, e não apenas do antropólogo. Outra vitória parcial está relacionada à Escola Friedenreich, cuja luta continua para que o colégio se consolide no local. No caso do Parque Aquático Júlio Delamare a situação não é boa. O processo de demolição está em curso. Utilizar megaeventos como pretexto para fazer política de remoção de populações pobres não é novo. O Morro do Castelo foi derrubado com a desculpa de que melhoraria a circulação do ar. Estamos vendo um velho filme sendo repetido para que a nossa cidade atenda apenas aos interesses do capital e não aos dos moradores.
 
Elitização
 
O Deputado Marcelo Freixo(PSOL) falou em seguida sobre os desafios para a realização dos eventos esportivos no Rio de Janeiro:
—Não acho que o que está sendo apresentado pelas autoridades seja um projeto olímpico de cidade. Precisamos analisar qual é a relação deste projeto com a construção de um centro de convenções no Aterro do Flamengo, do Sr. Eike Batista; com a demolição do Museu do Índio e da Escola Friedenreich, que obteve recente vitória: dos 18 alunos que prestaram vestibular para o Colégio Pedro II, 14 foram aprovados. Essa é a escola que eles querem demolir com a desculpa de que atrapalha o projeto olímpico de cidade. Não coincidentemente temos Delta, Odebrecht e Andrade Gutierrez por trás das obras do Maracanã.  Não é coincidência o envolvimento dessas empreiteiras em financiamentos de campanhas. A olimpíada é um instrumento de construção de discurso e nós erraremos se ficarmos restritos ao debate olímpico.
 
De acordo com o parlamentar entre 1999 e 2013 o poder público gastou cerca de R$ 1,5 bilhão em obras no Complexo do Maracanã, e a previsão de retorno aos cofres públicos seria de R$ 4,5 milhões ao ano.
— Esta conta não está fechando. Eles acabaram de investir milhões na reforma desses espaços. Qual é a justificativa que legitima esta destruição? A demolição do Célio de Barros e do Júlio Delamare é escandalosa. Não nos interessa que no lugar do Museu do Índio seja criado um Museu Olímpico. Vamos resistir a esta proposta. Quem de nós foi convidado a debater a construção de um centro de convenção no Aterro do Flamengo e a demolição no Maracanã? O projeto de elitização dos espetáculos está acompanhando o processo de elitização da vida na cidade. Estamos dando início a um abaixo assinado nesta sexta-feira, dia 1º, em homenagem ao aniversário da cidade do Rio de Janeiro, reforçando que a cidade não merece e não precisa de um centro de convenções no Aterro do Flamengo. O abaixo-assinado será lançado no Buraco do Lume, no Centro do Rio, mas as primeiras assinaturas já estão sendo dadas aqui na ABI. Considero muito importante este enfrentamento.
 
A Deputada Clarissa Garotinho (PR) destacou que em alguns casos o empenho de verba em obras de reforma e construção de estádios pode estar sendo excessivo:
— Quando o Brasil foi anunciado como sede da Copa do Mundo de 2014 foi dito que a iniciativa privada bancaria a reforma dos estádios e que caberia ao poder público os investimentos em projetos de infra-estrutura. Hoje nós vemos o poder público investindo nos estádios e os projetos de infra-estrutura sendo deixados de lado. Em 2007, foi anunciado que o custo da reforma e construção de 12 estádios seria de R$ 1,9 bilhão. Hoje estamos próximos a R$ 7 bilhões. Isso nos leva a pensar em qual seria exatamente o legado da Copa do Mundo de 2014. Muito dinheiro está sendo gasto em obras e reformas em estádios que correm o risco de se tornarem elefantes brancos, como o Mané Garrincha, em Brasília, que terá capacidade para 70 mil pessoas, mas cuja média de público no campeonato brasiliense é de 1.154 pessoas.
 
A lógica de investimentos, sublinhou a deputada, poderá inviabilizar a construção do legado social dos eventos:
—Praticamente 1/3 das obras de infra-estrutura foram simplesmente excluídos, sendo que oito projetos de mobilidade humana, algo que funcionário como um legado verdadeiro. É isso que eles consideram mais um legado da Copa? O novo edital lançado reduz o valor da outorga para o novo concessionário, de R$ 7 milhões por ano para R$ 4,5 milhões. A justificativa para a redução tem relação direta com as obras que o novo concessionário terá de fazer: demolir uma escola pública de excelência, um parque aquático e um estádio de atletismo, e em seu lugar construir um estacionamento e um mini shopping. O edital permite ainda que o concessionário seja uma empresa estrangeira. Esta é a lógica da privatização. Estamos lutando com todas as forças e instrumentos legais para impedir esses absurdos. O Rio de Janeiro está sendo vendido. Precisamos da mobilização popular para impedirmos o que pode vir a ser um dos piores legados da Copa do Mundo, que é a privatização do estádio do Maracanã.
 

Assim como os demais colegas parlamentares, o Vereador Reimont(PT) acentuou  a relevância da mobilização social para o alinhamento do projeto olímpico em benefício da população carente do Rio de Janeiro.

—A minha luta pela Escola Friedenreich define o meu posicionamento frente ao governo municipal. Mesmo antes do tempo da reforma urbana de Pereira Passos, o “Bota Abaixo”, esta cidade já vinha sendo construída sob o signo da exclusão, aprimorado pelos governos ao longo do tempo. O projeto de lei para o tombamento do Museu do Índio, da Aldeia Maracanã, é de minha autoria em com o Vereador Eliomar Coelho. Dezenas de milhares de vozes que pedem a permanência do Museu do Índio não são ignoradas, mas uma única voz do COI pedindo o Museu Olímpico é atendida. O grande legado da Copa e Olimpíada é a luta popular por estes cinco equipamentos que estão sendo destruídos. O projeto de cidade commodities foi acirrado nos últimos anos. Uma realidade que precisa ser contraposta pela força da mobilização social. Precisamos elevar o número de audiências públicas para ganharmos fôlego na luta e enfrentamento para que o Rio de Janeiro não seja vendido.

Complexo do Maracanã

A segunda plenária do dia trouxe ao debate o destino das construções que fazem parte do Complexo do Maracanã. Monica Lages do Amaral, atleta de 19 anos da Seleção Brasileira Juvenil de Saltos Ornamentais e frequentadora do Júlio Delamare desde os 4 anos de idade, afirmou que o fechamento do estádio pode atrapalhar consideravelmente a preparação para a Rio 2016. 
— Todos julgam o desempenho dos atletas brasileiros, principalmente os de pequenos esportes, como saltos ornamentais, mas poucos conhecem a realidade do nosso dia a dia. Um ciclo olímpico não é feito em um ou dois anos, mas em 10 anos. O verdadeiro foco deveria ser a preparação dos atletas.

 
Monica lembrou que os atletas seriam transferidos para o Parque Aquático Maria Lenk, na Barra da Tijuca, a mais de 25 Km de distância, o que aumentaria os gastos com transporte e alimentação e diminuiria o tempo de descanso, pela demora de deslocamento.
 
É o que já enfrentam os atletas de pista e saltos, despejados sem aviso prévio do Célio de Barros para o Estádio do Engenhão, no subúrbio do Rio, e para a Escola de Educação Física do Exército, no bairro da Urca, Zona Sul da cidade. A professora Edneida Freire, representante do Coletivo de Atletas do Célio de Barros, reclama da falta de estrutura dos novos locais:
— Em janeiro, chegamos ao estádio e o encontramos fechado, com todo nosso material retido lá dentro. O Engenhão hoje não tem estrutura para nos receber, uma vez que não basta apenas uma pista, é preciso também sala de descanso, musculação, bebedouros, entre outras coisas para um treinamento de qualidade. 
José Guajajara, um dos representantes da Aldeia Maracanã presente no evento, agradeceu o apoio da sociedade civil às famílias que hoje residem no antigo prédio do Museu do Índio, mas segundo ele ainda é preciso lutar para manter o local. 
— Reassumimos uma construção que, apesar de sua importância histórica, estava abandonada há décadas. O Governo queria entregá-la à iniciativa privada para fazer shopping, estacionamento, qualquer coisa menos cultura e educação, que é a verdadeira vocação desse prédio. O antigo Museu do Índio deveria ser destinado à preservação da cultura dos índios. Hoje, nenhum patrimônio indígena é administrado por índios.
 
Já o cacique Carlos Tucano foi mais enfático ao dizer que vive hoje uma situação de guerra. 
— Estamos sendo tratados como invasores, bandidos, pobres. O que queremos é a Aldeia Maracanã viva. O que está acontecendo é uma vergonha ao País todo.
Estádio 

A destinação do próprio Maracanã é considerada problemática. Lucas Pedretti, representante da Frente Nacional dos Torcedores no Rio de Janeiro, afirmou que a realização dos megaeventos tem sido um pretexto para a mercantilização do espaço urbano. 
— O Maracanã é um símbolo do futebol, e o futebol é um símbolo do Brasil. O que está em curso é o processo de elitização do estádio, de acordo com as exigências da Fifa, o que vai encarecer as entradas e afastar o torcedor popular. O futebol não pode ser justificativa para a venda da cidade, remoção de famílias, desrespeito aos direitos humanos, corrupção e uma série de outros crimes.

 
Na terceira e última mesa do evento, Gustavo Mehl, do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas, rebateu argumentos utilizados para justificar a privatização do Maracanã. 
— Hoje há o argumento de que o Maracanã é deficitário e gera prejuízo aos cofres públicos. Mas desde 2009 já foram gastos quase R$ 1 milhão por dia em reformas. Já tentamos obter o balanço dos custos detalhados de manutenção do estádio, mas o Governo se recusa a apresentá-lo. Esse conceito de que o Maracanã dá prejuízo é na verdade de acordo com esse conceito de gastos absurdos desse projeto que não responde ao interesse publico, mas ao investidor privado.
 
Mehl também rebateu que as obras tornariam o estádio uma arena multiuso, seguindo uma tendência global. 
— O Maracanã sempre foi uma arena multiuso. O estádio vive na memória do carioca não apenas por causa do futebol, mas também por shows memoráveis como Frank Sinatra e Paul MacCartney, ou até mesmo na memória das crianças que recebem a visita do Papai Noel. O projeto quer torná-lo um estádio asséptico, elitizado. O Maracanã que queremos não tem diferenças radicais com o maracá que a gente aprendeu a conviver.
 
O atual do futebol brasileiro também é preocupação do jornalista Mario Augusto Jacobskind. Ele lembrou o envolvimento do atual presidente da CBF, José Maria Marin, na morte do também jornalista Vladmir Herzog. 
— É lamenta que um cidadão como esse esteja à frente da entidade que representa o esporte mais popular do País. Ele elogiou publicamente Sérgio Fleury, o que o ajudou a subir dentro da hierarquia policial. Esse é o retrato atual da cartolagem do Rio e de outras cidades brasileiras. 
 
 
 

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