4 de dezembro de 2022


Flip 2018: temas polêmicos e homenagem à Hilda Hilst


25/07/2018


Temas candentes (racismo, violência contra a mulher, discriminação por causa de orientação sexual, imigração); tabus (sexo e religião); a homenagem a Hilda Hilst; autores estrangeiros premiados (e que não são astros por aqui); e por fim escritores brasileiros consagrados e novidades bastante recentes.

Devem ser esses os destaques da 16ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que começa nesta quarta-feira (25) e vai até domingo (29).

O G1 selecionou os cinco temas que certamente vão dominar as discussões ao longo de todo o evento. Assista no vídeo acima.

Vale lembrar ainda que a Flip 2018 tem 33 convidados, dos quais há 17 mulheres e 16 homens. Além disso, foi mantido o percentual de autores e autoras negras do ano passado, quando houve um recorde de participação (30%).

  1. ‘Temas candentes’

A Flip 2018 vai girar, em grande parte, ao redor do que a curadora do evento pelo segundo ano seguido, Josélia Aguiar, chama de “temas candentes”. Mas o que ela quer dizer, afinal, com isso?

Ainda na coletiva em que foi apresentada a programação, ela citou exemplos:

violência;

racismo;

violência contra a mulher;

discriminação por causa de orientação sexual;

imigração.

Josélia descreveu os convidados como “autores de muita opinião”. Para ilustrar, cita a mesa que junta a brasileira Djamila Ribeiro e a argentina Selva Almada, nesta quinta-feira (26).

“Então, em mesas como Amada Vida, temos a literatura como centro, mas com duas autoras (uma de ficção, outra de não ficção) que tratam de violência contra a mulher, feminicídio. Esse é um exemplo [de encontros sobre temas candentes]”, afirmou Josélia em entrevista ao G1 por e-mail.

Djamila é autora do livro “O que é lugar de fala?” (Letramento), que saiu no ano passado, e acaba de lançar “Quem tem medo do feminismo negro?” (Companhia das Letras).

Além disso, as ruas de Paraty costumam ser palco de manifestações e atos políticos durante a Flip. Em 2018, ano de eleição, isso deve se intensificar.

Flip do ano passado não teve sexo. E era um tema que vinha “causando” em edições recentes.

  1. Tabus: sexo e religião

Em 2015, Reinaldo Moraes achou certo “psicografar” Machado de Assis, incluindo uma cena de sexo hilária em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”; foi aplaudidíssimo.

Em 2016, a peruana Gabriela Wiener e a brasileira Juliana Frank fizeram um encontro curioso.

Pois agora, boa notícia: o assunto volta. A curadora da Flip diz que “liberdade” é uma palavra-chave para os convidados desta 16ª edição da festa. Na prática, significa que são autoras que escrevem sem restrição sobre temas considerados tabus: sexo e religião.

“No caso da mesa ‘Interdito’, temos autores que trataram em seus livros de ficção e não ficção (ou seja, fazem romance e também ensaio) dessas questões que, a depender do lugar de origem deles, podem ser considerados tabu”, diz a Josélia Aguiar em entrevista ao G1 por e-mail.

Previsto para esta sexta-feira (27), o encontro vai ter o romancista judeu americano de origem egípcia André Aciman. Ele é autor de “Me chame pelo seu nome”, que inspirou o filme de mesmo nome ganhador do Oscar de melhor roteiro adaptado.

Com ele, debate Leïla Slimani, escritora franco-marroquina autora do premiado “Canção de ninar”;

Josélia completa: “Um exemplo é pensar que em alguns países da África você pode ser preso se você se relacionar com alguém do mesmo sexo”.

  1. A homenageada: Hilda Hilst

Hilda Hilst (Imagem: Reprodução)

Se as mesas da Flip 2018vão abordar temas como “amor”, “sexo”, “morte”, “Deus”, “finitude”, “misticismo” e “transcendência”, muito se deve à homenageada da vez: Hilda Hilst (1930-2004).

Autora de poesia, prosa, teatro e crônica, Hilda era também considerada uma figura fascinante – em certa fase da vida, por exemplo, deixava gravadores ligados pela casa porque queria captar vozes de espíritos.

Formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e, após uma temporada na Europa, passando por Grécia, Itália e França, passou a se dedicar à literatura. A estreia foi aos 20 anos de idade, com um livro de poesia, “Presságio”.

Quando tinha 35, em 1966, passou a viver numa chácara em Campinas (SP), a famosa Casa do Sol. Morou lá até o fim da vida, cercada de cachorros. Produziu muito e recebeu, para períodos de residência artísica, autores como Caio Fernando Abreu.

Após o período de intensa produção nas décadas seguintes, Hilda anunciou “adeus à literatura séria” nos anos 1990 porque estava “irritada com o parco alcance de sua escrita”.

Veio, então, a chamada “fase pornográfica”, com a polêmica tetralogia obscena, que inclui o famoso “Caderno rosa de Lori Lamby”. Da autora, a Companhia das Letras lançou recentemente a “Da poesia”, que reúne pela primeira vez a obra poética completa da escritora , e “Da prosa”, que reúne em dois volumes toda a ficção de Hilda Hilst, incluindo “A obscena senhora D” e “O caderno rosa…”.

Sobre sua atividade, Hilda certa vez disse em uma entrevista: “A poesia é um dom divino, uma febre física. É uma espécie de êxtase que vem de repente e acaba também de repente”.

Perguntada pelo G1 sobre qual autor da Flip 2018 poderia ser comparado a Hilda Hilst, a curadora do evento, Josélia Aguiar, respondeu:

“Maria Teresa Horta, claro que com sua voz inconfundível que nada tem a ver com a da Hilda Hilst, trabalha ao mesmo tempo em sua poesia a dimensão mística e erótica”;

“Júlia de Carvalho Hansen e Laura Erber têm alguns pontos de contato com Hilda Hilst”;

“Sérgio Sant’Anna faz uma literatura transgressiva, que aborda temas como a finitude e o sexo”;

“É possível pensar a literatura de Alain Mabanckou dentro da perspectiva do humano e da animalidade, assim como a de Hilda Hilst”;

“Liudmila Petruchévskaia faz contos de horror e fantasia, e essa atmosfera que toca o sobrenatural também lembra de algum modo Hilda Hilst, e ambas também têm seu lado político, ainda que muitas vezes não se fale disso”.

  1. Autores e autoras internacionais premiados e premiadas

A escritora franco-marroquina Leïla Slimani, autora de ‘Canção de ninar’, que vem para a Flip 2018 (Foto: Editora Planeta)

Mas quem são, afinal, os astros ou candidatos a astros internacionais da Flip 2018?

A programação em 2018 não tem nenhum ganhador do prêmio Nobel de literatura entre os convidados, mas isso não quer dizer que faltem nomes fortes.

O americano Colson Whitehead escreveu “Underground railroad”, premiado com o Pulitzer e o National Book Award em 2017, dois dos principais prêmios da literatura americana.

O Colson não é fraco. Escreve muito bem esta história protagonizada por uma garota escravizada numa plantação de algodão nos Estados Unidos. Tema fortíssimo. Ele vai debater, neste sábado (28), com uma revelação da literatura brasileira, o Geovani Martins.

Também vale a pena ficar de olho na escritora franco marroquina Leïla Slimani, autora de “Canção de ninar”, que em 2016 garantiu a ela o Goncourt, um dos mais prestigiosos prêmios da literatura francesa.

O livro tem uma história fortíssima: envolve uma babá de duas crianças que toma uma atitude drástica, absolutamente trágica.

Outra autora interessante da programação é a russa Liudmila Pretruchévskaia, autora da coletânea “Era uma vez uma mulher que tentou mater o bebê da vizinha”. São tramas de terror. Na Flip, a escritora vai ocupar o horário nobre do sábado, sozinha no palco.

A Liudmila, que tem 80 anos, é um dos grandes nomes da literatura russa moderna. Escreve histórias absurdas, cheias de horror e fantasia. Na época do regime stalinista, foi considerada inimiga do povo, teve a obra censurada até a redemocratização da Rússia.

Por fim, dois estrangeiros que devem marcar na Flip: o franco-congolês Alain Mabanckou, chamado de “Samuel Beckett da África”, e a portuguesa, Isabela Figueiredo, autora de “A gorda”.

  1. Brasileiros veteranos, novidades, cantores e atrizes

Dentre os autores brasileiros consagrados da Flip 2018, destauqe para o grande Sérgio Sant’Anna, um dos maiores contistas do país, que vai participar nesta quinta-feira (26) de uma mesa na qual falará sobre desejo, solidão e morte.

Mas há também novidade no cardápio: Geovani Martins, uma surpreendente jovem estrela da literatura brasileira, talvez a grande revelação de 2018.

Ele, que vai debater, com o americano Colson Whitehead no sábado, lançou neste ano a coletânea de contos “O sol na cabeça” (Companhia das Letras), em que faz uma mistura de linguagens, alternando registro oral, das ruas, e registro formal.

O Geovani Martins mora no Vidigal, no Rio, e já trabalhou como homem-placa, atendente de lanchonete, garçom em bufê infantil e em barraca de praia. Na Flip, como escritor, deve viver seu grande momento.

Além de abrir espaço a escritores, a Flip tradicionalmente traz para cena estrelas brasileiras de outras áreas, caso da atriz Fernanda Montenegro, que vai estar na sessão de abertura, da atriz Iara Jamra, que participa de uma mesa sobre Hilda Hilst, e do cantor Zeca Baleiro.

Veja, abaixo, a programação da Flip 2018

Quarta-feira (25 de julho)

20h – Mesa 1 (Sessão de abertura), com Fernanda Montenegro e Jocy de Oliveira – A atriz e a pioneira na música de vanguarda, que hoje se dedica à ópera multimídia, fazem homagenagem a Hilda Hilst.

Quinta-feira (26 de julho)

10h – Mesa 2 (Perfomance Sonora), com Gabriela Greeb e Vasco Pimentel – A voz, a escuta e as divagações literárias e existenciais de Hilda Hilst registradas em fitas magnéticas na década de 1970 são apresentadas pela cineasta brasileira e pelo sound designer português.

12h – Mesa 3 (Barco com Asas), com Júlia de Carvalho Hansen, Laura Erber e Maria Teresa Horta (vem vídeo) – Esse diálogo inusitado reúne, por vídeo, um grande nome da poesia de Portugal do último meio século e, em Paraty, duas poetas brasileiras influenciadas pela lírica portuguesa que têm pontos em comum com Hilda Hilst.

15h30 – Mesa 4 (Encontro com livros notáveis), com Christopher de Hamel – A religião, a magia, a luxúria e a leitura na época medieval se apresentam nas páginas do “Evangelho de Santo Agostinho”, do “Livro de Kells” e de “Carmina Burana”, comentadas pelo maior especialista do mundo nesses manuscritos.

17h30 – Mesa 5 (Amada vida), com Djamila Ribeiro e Selva Almada – Uma ficcionista argentina que escreveu sobre histórias reais de feminicídio e uma feminista negra à frente de uma coleção de livros conversam sobre como fazer da literatura um modo de resistir à violência.

20h – Mesa 6 (Animal Agonizante), com Gustavo Pacheco e Sérgio Sant’anna – Um grande mestre da literatura brasileira que abordou o desejo, a solidão e a morte relembra sua trajetória ao lado de um leitor seu e autor estreante elogiado pela crítica portuguesa com histórias de humanos e outros primatas.

Sexta-feira (27 de julho)

10h – Mesa 7 (Poeta na torre de capim), com Lígia Ferreira e Ricardo Domeneck – A falta de leitores e o silêncio da crítica, como reclamava Hilda Hilst: para esse debate, encontram-se a grande especialista no poeta negro Luiz Gama e um poeta e editor atento a nomes ainda fora do cânone, como Hilda Machado, que morreu inédita em livro.

12h – Mesa 8 (Minha Casa), com Fabio Pusteria e Igiaba Scego – Fazer literatura tendo uma língua comum – o italiano – e diferentes aportes, fronteiras e paisagens geográficas e literárias: nesse diálogo, reúnem-se o poeta de um país poliglota, que é tradutor do português, e uma romancista filha de imigrantes da Somália, que escreveu sobre Caetano Veloso.

15h30 – Mesa 9 (Memórias de porco-espinho), com Alain Mabanckou – O absurdo e o riso, Beckett,culturas africanas, escrita criativa e crítica da razão negra: a trajetória e o pensamento de um poeta e romancista franco-congolês premiado se revelam nessa conversa com dois entrevistadores.

17h30 – Mesa 10 (Interdito), com André Aciman e Leila Slimani – O exercício da liberdade de escrever e a escolha de temas tabu ou proibidos – a exemplo do homoerotismo, da sexualidade feminina e da religião —são as questões tratadas nesse diálogo entre dois romancistas, um judeu americano de origem egípcia e uma francesa de origem marroquina.

20h – Mesa 11 (A Santa e a Serpente), com Eliane Robert Moraes e Iara Jamra – A obra de Hilda Hilst em poesia e prosa é vista tanto em sua dimensão corpórea quanto mística por uma ensaísta que atua na fronteira entre a literatura e a filosofia, enquanto são feitas leituras por uma atriz que encarnou a sua personagem mais famosa – Lori Lamby.

Sábado (28 de julho)

10h – Mesa 12 (Som e Fúria), com Jocy de Oliveira e Vasco Pimentel – A escuta e a criação de universos sonoros: para esse diálogo, encontram-se uma das pioneiras da música de vanguarda no país, hoje dedicada à ópera multimídia, e um sound designer português – os dois conhecidos pelo rigor e pelo preciosismo.

12h – Mesa 13 (O poder na alcova), com Simon Sebag Montefiore –Historiador britânico best-seller que publicou biografias de Stálin, dos Romanov e, agora, de Catarina, a Grande, conta, nessa conversa com dois entrevistadores, como faz para retratar figuras centrais da política em seus pormenores mais íntimos.

15h30 – Mesa 14 (Obscena, de tão lúcida), com Juliano Garcia Pessanha –Uma romancista portuguesa nascida em Moçambique que tratou de temas como o racismo e a gordofobia se encontra com um narrador de gênero híbrido e filosófico para discutir a escrita de si, os diários e as memórias, o corpo e o desnudamento.

17h30 – Mesa 15 (Atravessar o sol), com Colson Whitehead e Geovani Martins – O americano vencedor do Pulitzer com um romance histórico sobre escravizados que construíram sua rota de fuga se encontra com um estreante que, da favela do Vidigal, inventa com liberdade seu jeito de narrar e usar as palavras.

20h – Mesa 16 (No par do incomum), com Liudmila Petruchévskaia – Um dos grandes nomes da literatura russa moderna, comparada a Gogol e Poe por seus contos de horror e fantasia que não dispensam o teor político, relembra sua trajetória proibida por décadas no regime stalinista, hoje aclamada de Moscou a Nova York.

Domingo (29 de julho)

10h – Mesa Zé Kleber (De Malassombros), com Franklin Carvalho e Thereza Maia – Um narrador do sertão baiano que abordou a mitologia da morte em seu premiado romance de estreia se encontra com uma folclorista que recolheu histórias orais de Paraty, em um diálogo sobre o território e seus encantados.

12h – Mesa 17 (Sessãode encerramento ‘O escritor seus múltiplos’), com Eder Chiodetto, Iara Jamra e Zeca Baleiro – Uma atriz, um compositor e um fotógrafo que fizeram obras baseadas em Hilda Hilst relembram os encontros com a autora, o processo de criação e as marcas que a experiência deixou em suas trajetórias.

15h30 – Mesa 18 (Livro de cabeceira): convidados leem trechos de livros marcantes.

Fonte: G1

Siga a abi

© 2013 ABI - Associação Brasileira de Imprensa – todos os direitos reservados -Rua Araújo Porto Alegre, 71 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, Cep: 20030-012